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120.PSICAN.DA LEITURA VOL.2 (2026) MATTANÓ.
120.PSICAN.DA LEITURA VOL.2 (2026) MATTANÓ.

120. A PSICANÁLISE DA LEITURA VOL. 2 (2026) MATTANÓ.

 

Obras Completas de Sigmund Freud numa releitura de Osny Mattanó Júnior

 

 

Psicanálise da Leitura

 

 

 

VOL. 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27/04/2026

Estudos sobre a histeria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

VOLUME II

(1893-1895)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Josef Breuer e Sigmund Freud

NOTA DO EDITOR INGLÊS

(James Strachey)

 

(A) ÜBER DEN PSYCHISCHEN MECHANISMUS HYSTERISCHER PHÄNOMENE (VORLÄUFIGE MITTEILUNG)

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃES:

 

1893 Neurol. Centralbl., 12 (1), 4-10 (Seções I-II), e 12 (2), 43-7 (Seções III-V). (1º e 15 de janeiro.)

1893 Wien. med. Blätter, 16 (3), 33-5 (Seções I-II), e 16 (4), 49-51 (Seções III-V). (19 e 26 de janeiro.)

1895, etc. Em Studien über Hysterie. (Ver adiante.)

1906 S.K.S.N., I, 14-29. (1911, 2ª ed.; 1920, 3ª ed.; 1922, 4ª ed.)

 

  (b)   TRADUÇÕES INGLESAS:

“The Psychic Mechanism of Hysterical Phenomena

(Preliminary Communication)”

 

1909 S.P.H., 1-13. (Trad. A. A. Brill.) (1912, 2ª. ed., 1920, 3ª ed.)

1936 Em Studies in Hysteria. (Ver adiante.)

“On the Psychical Mechanism of Hysterical Phenomena”

1924 C.P., 1, 24-41. (Trad. J. Rickman.)

 

(B) STUDIEN ÜBER HYSTERIE

 

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

 

1895 Leipzig e Viena: Deuticke. Págs. v + 269.

1909 2ª ed. Mesmos editores. (Sem modificações, mas com novo prefácio.) Págs. vii + 269.

1916 3ª ed. Mesmos editores. (Sem modificações.) Págs. vii + 269

1922 4ª ed. Mesmos editores. (Sem modificações.) Págs. vii + 269.

1925 G.S., 1, 3-238. (Com omissão das contribuições de Breuer; com notas de rodapé adicionais de Freud.)

1952 G.W., 1, 77-312. (Reimpressão de 1925.)

 

(b) TRADUÇÕES INGLESAS:

Studies in Hysteria

 

1909 S.P.H., 1-120. (1912, 2ª ed.; 1920, 3ª ed.; 1922, 4ª ed.) (Trad. A. A. Brill.) (Somente em parte: com omissão dos casos clínicos da Srta. Anna O., Sra. Emmy von N. e Katharina, bem como do capítulo teórico de Breuer.)

1936 New York: Nervous and Mental Disease Publishing. Co. (Monograph Series nº 61.) Págs. ix + 241. (Trad. A. A. Brill.)

(Completo, salvo quanto à omissão das notas de rodapé adicionais de Freud, de 1925.)

 

A tradução inglesa, inteiramente nova e completa, de James e Alix Strachey, inclui as contribuições de Breuer, mas quanto ao resto baseia-se na edição alemã de 1925, contendo as notas de rodapé adicionais de Freud. A omissão das contribuições de Breuer das duas coletâneas alemãs (G.S. e G.W.) acarretou algumas modificações necessárias e notas de rodapé adicionais, onde Freud tinha feito referência, na edição original, às partes omitidas. Nessas edições completas, também a numeração dos casos clínicos foi alterada, em vista da ausência do caso clínico de Anna O. Todas essas alterações foram abandonadas na presente tradução. - Os extratos da “Comunicação Preliminar” e do volume principal tinham sido incluídos por Freud em sua primeira coletânea de extratos de seus próprios trabalhos (1897b, nºs XXIV e XXXI).

 

(1)

ALGUMAS NOTAS HISTÓRICAS SOBRE OS ESTUDOS

 

Conhecemos a história da redação deste livro com algum detalhe.

O tratamento da Srta. Anna O. por Breuer, no qual se baseou toda a obra, ocorreu entre 1880 e 1882. Naquela ocasião, Josef Breuer (1842-1925) já gozava de alta reputação em Viena, tanto como médico com grande clínica, como por realizações científicas, enquanto Sigmund Freud (1856-1939) apenas acabara de formar-se em medicina. Os dois, contudo, já eram amigos há vários anos. O tratamento terminou no início de junho de 1882, e em novembro Breuer relatou a notável história a Freud, que (embora, naquela época, tivesse seus principais interesses concentrados na anatomia do sistema nervoso) ficou muito impressionado com ela. Tanto assim que quando, cerca de três anos depois, estava estudando em Paris sob a orientação de Charcot, deu-lhe conhecimento do caso. “Mas o grande homem não mostrou nenhum interesse por meu primeiro esboço do assunto, de modo que jamais voltei ao tema e deixei que saísse de minha mente.” (Um Estudo Autobiográfico - 1925d, Capítulo II.)

Os estudos de Freud sob a orientação de Charcot tinham-se concentrado, em grande parte, na histeria, e quando Freud voltou a Viena em 1886 e ali se fixou para estabelecer uma clínica de doenças nervosas, a histeria forneceu  uma grande proporção de sua clientela. De início, ele se baseou nos métodos de tratamento então correntemente recomendados, como a hidroterapia, a eletroterapia, massagens e a cura pelo repouso, de Weir Mitchell. Mas quando esses métodos se revelaram insatisfatórios, seus pensamentos se voltaram para outra área. “Nessas últimas semanas”, escreve ele a seu amigo Fliess em 28 de dezembro de 1887, “atirei-me à hipnose e logrei toda espécie de sucessos pequeninos, mas dignos de nota” (Freud, 1950a, Carta 2). E nos deu uma descrição pormenorizada de um desses tratamentos bem-sucedidos (1892-3b). Mas o caso de Anna O. ainda estava em sua mente, e “desde o início”, conta-nos ele (1925d), “vali-me da hipnose de outra maneira, independentemente da sugestão hipnótica”. Essa “outra maneira” foi o método catártico, que constitui o tema do presente volume.

O caso da Sra. Emmy von N. foi o primeiro, como sabemos por Freud (ver em. [1] e [2]), que ele tratou pelo método catártico. Numa nota de rodapé acrescentada ao livro em 1925, ele explica melhor essa observação e diz que esse foi o primeiro caso em que utilizou esse método “extensivamente” (ver em [1]); e é verdade que, nessa fase inicial, ele vinha constantemente empregando a hipnose na forma convencional - para dar sugestões terapêuticas diretas. Mais ou menos na mesma época, de fato, seu interesse pela sugestão hipnótica era acentuado o bastante para levá-lo a traduzir um dos livros de Bernheim em 1888 e outro em 1892, bem como a fazer uma visita de algumas semanas às clínicas de Liébeault e Bernheim em Nancy, no verão de 1889. A intensidade com que ele estava utilizando a sugestão terapêutica no caso da Sra. Emmy é indicada de maneira bem nítida no seu relato cotidiano das duas ou três primeiras semanas do tratamento, reproduzido por ele a partir das “anotações que fiz todas as noites” (ver em [1]). Não podemos, infelizmente, ter certeza de quando ele iniciou esse caso (ver Apêndice A, em [1]); foi em maio de 1888 ou 1889 - isto é, cerca de quatro ou cerca de dezesseis meses depois de ele haver pela primeira vez “adotado a hipnotismo”. O tratamento terminou um ano depois, no verão de 1889 ou 1890. Numa ou noutra alternativa, há um considerável hiato antes da data do caso clínico seguinte (em ordem cronológica, embora não em ordem de apresentação). Esse foi o caso da Srta. Elisabeth von R., que teve início no outono de 1892 (ver em. [1]) e que Freud descreve como sua “primeira análise integral de uma histeria” ( ver em [1]). Foi logo seguido pelo de Miss Lucy R., que começou no fim do mesmo ano (ver em [1]). Não se atribui nenhuma data ao caso restante, o de Katharina (ver.em [1]). Mas, no intervalo entre 1889 e 1892, Freud por certo teve experiência com outros casos. Em particular, houve o da Srta. Cäcilie M., a quem ele “veio a conhecer de forma muito mais completa do que qualquer das outras pacientes mencionadas nestes estudos” (ver em [1]), mas cujo caso não pôde ser descrito em detalhes em virtude de “considerações pessoais”. Contudo, ela é freqüentemente mencionada por Freud, bem como por Breuer, no decorrer do volume, e sabemos (ver em [1]) por Freud que “foi o estudo desse caso notável, feito em conjunto com Breuer, que levou diretamente à publicação de nossa ‘Comunicação Preliminar’”. [1]

 

O rascunho daquele memorável artigo (que compõe a primeira seção do presente volume) se iniciara em junho de 1892. Uma carta a Fliess, de 28 de junho (Freud, 1950a, Carta 9), anuncia que “Breuer concordou em que a teoria da ab-reação e os outros resultados sobre a histeria a que chegamos em conjunto também sejam apresentados conjuntamente numa publicação pormenorizada”. “Uma parte dela”, prossegue, “que, a princípio, eu queria escrever sozinho, está concluída”. Evidentemente, a essa parte “concluída” do artigo faz nova referência numa carta a Breuer escrita no dia seguinte, 29 de junho de 1892 (Freud, 1941a): “A inocente satisfação que senti quando lhe entreguei aquelas poucas páginas minhas deu margem a (…) inquietação.” Essa carta prossegue fornecendo um resumo muito condensado do conteúdo proposto do artigo. A seguir, temos uma nota de rodapé acrescentada por Freud a sua tradução de um volume das Leçons du Mardi, de Charcot (Freud, 1892-94, 107), que apresenta, em três curtos parágrafos, um resumo da tese da “Comunicação Preliminar” e se refere a ele como estando “começado”. Além disso, dois rascunhos bem mais elaborados chegaram até nós. O primeiro (Freud, 1940d) deles (escrito com a caligrafia de Freud, embora se afirme ter sido escrito em conjunto com Breuer) está datado de “Final de novembro de 1892”. Versa sobre ataques histéricos e a maior parte de seu conteúdo foi incluída, embora com palavras diferentes, na Seção IV da “Comunicação Preliminar” (ver em [1]). Entretanto, um importante parágrafo relacionado com o “princípio da constância” foi inexplicavelmente omitido, e nesse volume o tema é tratado apenas por Breuer, na parte final da obra (ver em [1] e [2].). Por fim, há um memorando (Freud, 1941b) com o título “III”, que não tem data. Examina os “estados hipnóides” e a dissociação histérica, estando estreitamente relacionado com a Seção III do artigo publicado (ver em [1]).

Em 18 de dezembro de 1892, Freud escreveu a Fliess (1950a, Carta11): “Apraz-me poder dizer-lhe que nossa teoria sobre a histeria (reminiscência, ab-reação, etc.) vai aparecer no Neurologisches Centralblatt no dia 1º de janeiro de 1893, sob a forma de uma comunicação preliminar pormenorizada. Custou-me longa batalha com meu colaborador.” O artigo, datado de “dezembro de 1892”, foi na realidade publicado em dois números do periódico: as duas primeiras seções em 1º de janeiro, e as três restantes em 15 de janeiro. O Neurologisches Centralblatt (que saía quinzenalmente) era publicado em Berlim; e a “Comunicação Preliminar” foi quase imediatamente reimpressa na íntegra em Viena, nas Wiener medizinische Blätter (em 19 e 26 de janeiro). Em 11 de janeiro, quando apenas metade do artigo fora publicada, Freud pronunciou uma conferência sobre o tema no Wiener medizinischer Club. A transcrição taquigráfica completa da conferência, “revista pelo conferencista”, apareceu no Wiener medizinische Presse em 22 e 29 de janeiro (34, 122-6 e 165-7). A conferência (Freud, 1893h) abrangia aproximadamente o mesmo tema que o artigo, mas tratava o material de forma bem diferente e de maneira muito menos formal.

A publicação do artigo parece ter surtido pouco efeito visível em Viena ou na Alemanha. Na França, por outro lado, como relata Freud a Fliess numa carta de 10 de julho de 1893 (1950a, Carta 13), o trabalho foi favoravelmente notado por Janet, cuja resistência às idéias de Freud só surgiria mais tarde. Janet incluiu uma nota longa e altamente elogiosa sobre a “Comunicação Preliminar” num artigo sobre “Algumas Definições Recentes da Histeria”, publicado nos Archives de Neurologie em junho e julho de 1893. Utilizou esse artigo como capítulo final de seu livro L’État Mental des Hystériques, publicado em 1894. Mais inesperado, talvez, é o fato de que em abril de 1893 - apenas três meses após a publicação da “Comunicação Preliminar” - um relato razoavelmente completo da mesma foi apresentado por F. W. H. Myers numa reunião geral da Society for Psychical Research, em Londres, tendo sido impresso em sua Ata (Proceedings) no mês de junho seguinte. A “Comunicação Preliminar” também foi totalmente resumida e examinada por Michell Clarke em Brain (1894, 125). A reação mais surpreendente e inexplicável, porém, foi a publicação, em fevereiro e março de 1893, de uma tradução completa da “Comunicação Preliminar” para o espanhol, na Gazeta Médica de Granada (11, 105-11 e 129-35).

 

A tarefa seguinte dos autores foi a preparação do material dos casos clínicos e, já em 7 de fevereiro de 1894, Freud referiu-se ao livro como“semi-acabado: o que resta a fazer é apenas uma pequena parte dos casos clínicos e dois capítulos gerais”. Num trecho não publicado da carta de 21 de maio, ele menciona que está justamente escrevendo o último caso clínico, e em 22 de junho (1950a, Carta 19) apresenta uma lista do que o “livro com Breuer” irá conter: “cinco casos clínicos, um ensaio da autoria dele, com o qual não tenho absolutamente nada a ver, sobre as teorias da histeria (resumo e crítica), e um meu sobre terapia, que ainda não comecei”. Depois disso, é óbvio que houve uma paralisação, pois só em 4 de março de 1895 (ibid., Carta 22) é que ele escreve dizendo estar “trabalhando apressadamente no ensaio sobre a terapia da histeria”, concluído em 13 de março (carta não publicada). Em outra carta não publicada, de 10 de abril, Freud envia a Fliess a segunda metade das provas tipográficas do livro, e no dia seguinte lhe diz que este sairá em três semanas.

Os Estudos sobre a Histeria parecem ter sido publicados, como se esperava, em maio de 1895, embora a data exata não seja indicada. O livro foi recebido desfavoravelmente nos círculos médicos alemães; recebeu, por exemplo, forte crítica de Adolf von Strümpell, o conhecido neurologista (Deutsch. Z. Nervenheilk., 1896, 159). Por outro lado, um escritor não-médico, Alfred von Berger, mais tarde diretor do Burgtheater de Viena, sobre ele se expressou com apreço no Neue Freie Presse (2 de fevereiro de 1896). Na Inglaterra, o livro foi alvo de longa e favorável nota de Mitchell Clarke em Brain (1896, 401) e mais uma vez Myers mostrou seu interesse pela obra numa palestra de considerável extensão, originariamente proferida em março de 1897, que acabou sendo incluída em seu Human Personality (1903).

Decorreram mais de dez anos antes que houvesse um pedido de segunda edição do livro, e já nessa época os caminhos de seus dois autores se haviam separado. Em maio de 1906 Breuer escreveu a Freud concordando com uma reimpressão, mas houve certa discussão para determinar se seria desejável um novo prefácio em conjunto. Seguiram-se outras delongas e, no final, como se verá mais adiante, foram escritos dois prefácios separados. Estes trazem a data de julho de 1908, embora a segunda edição só fosse realmente publicada em 1909. O texto continuou inalterado nessa e nas edições posteriores do livro. Mas, em 1924, Freud escreveu algumas notas de rodapé adicionais para o volume de suas obras completas que continha sua parte dos Estudos (publicado em 1925) e fez uma ou duas pequenas modificações no texto.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Freud iniciou seus estudos com vários métodos, contudo foi com a hipnose que logrou sucessos pequeninos até o método catártico e a ab-reação.

Mattanó iniciou seus estudos com o método acadêmico de ensino-aprendizagem em 1991 no 2º semestre, depois passou para a psicoterapia, que já vinha tendo experiência desde 1991 no 1º semestre, e depois passou para o Curso de Psicologia na UEL e para as pesquisas introspectivas e científicas com as ideias sobre a Pulsão Auditiva (1991) e a Psicologia da Espécie (1994), quando em 1995 iniciou seus estudos com a Pulsão Auditiva introspectivamente e telepaticamente sem conhecimento do evento e dos fatos, até que adoeceu, também em 1995, e retornou ao Curso de Psicologia em 1996 numa luta ou guerra telepática sobrenatural ou extraterrestre (como vejo-a hoje) onde permaneci sob tortura, curandeirismo, abuso e exploração sexual, roubo e lavagem cerebral até 1999, mesmo assim continuei meus estudos e logrei bons resultados a partir de dezembro de 2005 no litoral do Paraná, quando iniciei minha série de livros sobre Novas Teorias e Epistemologias Psicológicas, com o primeiro livro sobre Contribuições acerca da Audição e da Linguagem. Estes estudos foram realizados em meio a um estado de violência e sofrimento bio-psico-social muito forte e intenso, causados pela telepatia e pela lavagem cerebral, pela exposição à mídia, e pela violência, pelo terror e pelo adoecimento de meus familiares em função destes e outros eventos muito penosos e desumanos. Contudo meus esforços foram maiores do que a violência e o medo e suas consequências e volto a escrever que estou escrevendo estes livros pela moralidade e pelo respeito às instituições do Brasil e do mundo, pois o mundo não se governa na ausência de governos, ou seja, o mundo não se governa na desinstitucionalização dos governos!

 

MATTANÓ

(05/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos o trabalho de Freud que iniciou seus estudos com vários métodos, contudo foi com a hipnose que logrou sucessos pequeninos até o método catártico e a ab-reação.

Mattanó iniciou seus estudos com o método acadêmico de ensino-aprendizagem em 1991 no 2º semestre, depois passou para a psicoterapia, que já vinha tendo experiência desde 1991 no 1º semestre, e depois passou para o Curso de Psicologia na UEL e para as pesquisas introspectivas e científicas com as ideias sobre a Pulsão Auditiva (1991) e a Psicologia da Espécie (1994), quando em 1995 iniciou seus estudos com a Pulsão Auditiva introspectivamente e telepaticamente sem conhecimento do evento e dos fatos, até que adoeceu, também em 1995, e retornou ao Curso de Psicologia em 1996 numa luta ou guerra telepática sobrenatural ou extraterrestre (como vejo-a hoje) onde permaneci sob tortura, curandeirismo, abuso e exploração sexual, roubo e lavagem cerebral até 1999, mesmo assim continuei meus estudos e logrei bons resultados a partir de dezembro de 2005 no litoral do Paraná, quando iniciei minha série de livros sobre Novas Teorias e Epistemologias Psicológicas, com o primeiro livro sobre Contribuições acerca da Audição e da Linguagem. Estes estudos foram realizados em meio a um estado de violência e sofrimento bio-psico-social muito forte e intenso, causados pela telepatia e pela lavagem cerebral, pela exposição à mídia, e pela violência, pelo terror e pelo adoecimento de meus familiares em função destes e outros eventos muito penosos e desumanos. Contudo meus esforços foram maiores do que a violência e o medo e suas consequências e volto a escrever que estou escrevendo estes livros pela moralidade e pelo respeito às instituições do Brasil e do mundo, pois o mundo não se governa na ausência de governos, ou seja, o mundo não se governa na desinstitucionalização dos governos!

Da mesma forma o início dos estudos de Mattanó começou em 1991, ou mesmo antes no 1o Grau, no Colégio São Paulo, onde foi cuidado pela psicóloga do Colégio, a Ivanilce, que despertou os primeiros pensamentos e sentimentos intrapsíquicos, institucionalizados e introspectivos em Osny Mattanó Júnior, alavancando seu desejo pela Psicologia e pela Psicanálise da UEL, já a partir de 1991, na Clínica Psicológica da UEL. De fato o caminho violento que eu percorri na UEL e na Clínica Psicológica tem relação direta com minha história de vida recalcada, infantil, doméstica e familiar que elaborou conteúdos sociais e escolares, até institucionais, onde passei por violência, tortura, abuso, exploração, pedofilia e estupro, de tal modo que os ¨atores¨ da UEL, estudantes professores e funcionários, assumiram os mesmos papéis dos agressores e criminosos que já haviam praticado crimes contra mim e minha família, desde os anos 1972, reproduzindo a mesma dramatização, como numa catarse coletiva, onde cada ator se identificou com o seu personagem e com a sua função, inclusive com o seu papel, significado e sentidos, uns lutaram contra o monstro e outros aceitaram e foram engolidos e hoje estão mortos, existem histórias que são como terremotos, não deixam pedra sobre pedra, destroem tudo, se não estivermos bem equipados e preparados.

 

MATTANÓ

(27/04/2026)

 

 

 

 

 

 

(2)

 

 A RELAÇÃO DOS ESTUDOS COM A PSICANÁLISE

 

Os Estudos sobre a Histeria costumam ser considerados como o ponto de partida da psicanálise. Vale a pena considerar brevemente se essa afirmação é verdadeira, e em que sentido. Para os objetivos dessa discussão, a questão das parcelas do trabalho atribuíveis aos dois autores será posta de lado, para consideração posterior, e o livro será tratado como um todo. A investigação sobre a relação dos Estudos com o desenvolvimento subseqüente da psicanálise pode ser dividida, por conveniência, em duas partes, embora tal separação seja necessariamente artificial. Até que ponto e de que maneira os procedimentos técnicos descritos nos Estudos e as descobertas clínicas a que conduziram prepararam o terreno para a prática da psicanálise? Em que medida os pontos de vista teóricos aqui propostos foram aceitos nas doutrinas posteriores de Freud?

Raras vezes se aprecia suficientemente o fato de que a mais importante das realizações de Freud talvez tenha sido sua invenção do primeiro instrumento para o exame científico da mente humana. Um dos principais atrativos do presente volume é que ele nos permite rastrear os primeiros passos do desenvolvimento desse instrumento. O que ele nos relata não é simplesmente a história da superação de uma série de obstáculos; é a história da descoberta de uma série de obstáculos a serem superados. A própria paciente de Breuer, Anna O., demonstrou e superou o primeiro desses obstáculos - a amnésia característica dos pacientes histéricos. Quando a existência dessa amnésia foi trazida à luz, seguiu-se de imediato a compreensão de que a mente manifesta do paciente não é a mente em sua totalidade, havendo por trás uma mente inconsciente (ver em [1]). Tornou-se assim patente, desde o início, que o problema não era meramente a investigação dos processos mentais conscientes, para a qual bastariam os métodos corriqueiros de indagação empregados na vida cotidiana. Se havia também processos mentais inconscientes, era claramente necessário algum instrumento especial. O instrumento óbvio para esse fim era a sugestão hipnótica - a sugestão hipnótica utilizada não para finalidades diretamente terapêuticas, mas para persuadir o paciente a produzir material proveniente da região inconsciente da mente. Com Anna O. apenas um ligeiro uso desse instrumento se afigurou necessário. Ela produzia torrentes de material vindo de seu “inconsciente”, e tudo o que Breuer tinha de fazer era ficar sentado e ouvi-las sem interrompê-la. Mas isso não era tão fácil como parece, e o caso clínico da Sra. Emmy revela em muitos pontos como foi difícil para Freud adaptar-se a esse novo uso da sugestão hipnótica e ouvir tudo o que a paciente tinha a dizer, sem qualquer tentativa de interferir ou de levá-la a encurtar o relato (por exemplo em [1] e [2]). Nem todos os pacientes histéricos além disso eram tão dóceis quanto Anna O.; a hipnose profunda em que ela caía, aparentemente por sua própria vontade, não era tão prontamente alcançada com qualquer um. E aqui surgia outro obstáculo: conta-nos Freud que ele estava longe de ser adepto do hipnotismo. Neste livro (por exemplo em [1]), ele nos fornece vários relatos de como contornava essa dificuldade, de como pouco a pouco foi abandonando suas tentativas de provocar a hipnose e se contentava em levar os pacientes a um estado de “concentração”, com o uso ocasional da pressão na testa. Mas foi o abandono do hipnotismo que ampliou ainda mais sua compreensão dos processos mentais. Esse abandono revelou a presença de mais um obstáculo - a “resistência” dos pacientes ao tratamento (ver em [1] e [2]), sua relutância em cooperarem na própria cura. Como se deveria lidar com essa relutância? Deveria ser suprimida com gritos ou afastada pela sugestão? Ou deveria, como outros fenômenos mentais, ser simplesmente investigada? A opção de Freud por esse segundo caminho levou-o diretamente ao mundo desconhecido que iria passar a vida inteira explorando.

Nos anos que se seguiram aos Estudos, Freud abandonou cada vez mais a técnica da sugestão deliberada | ver em [1]| e passou cada vez mais a confiar no fluxo de “associações livres” do paciente. Estava aberto o caminho para a análise dos sonhos. Essa análise permitiu-lhe, em primeiro lugar, obter uma compreensão do funcionamento do “processo primário” na mente e das formas pelas quais ele influenciava os produtos de nossos pensamentos mais acessíveis, e assim Freud adquiriu um novo recurso técnico - o da “interpretação”. Mas a análise dos sonhos possibilitou, em segundo lugar, sua própria auto-análise e suas conseqüentes descobertas da sexualidade infantil e do complexo de Édipo. Todas essas questões, porém, salvo por alguns leves indícios, ainda estavam por surgir. No entanto, nas últimas páginas deste volume, Freud já se havia defrontado com outro obstáculo no caminho do pesquisador - a “transferência” (ver em [1]). Já tivera um vislumbre de sua impressionante natureza, e talvez já tivesse começando a reconhecer que ela iria revelar-se não só um obstáculo como também mais um instrumento fundamental da técnica psicanalítica.

À primeira vista, a principal posição teórica adotada pelos autores da “Comunicação Preliminar” parece simples. Eles sustentam que, no curso normal das coisas, se uma experiência for acompanhada de uma grande dose de “afeto”, esse afeto é “descarregado” numa variedade de atos reflexos conscientes, ou então vai-se desgastando gradativamente pela associação com outros materiais mentais conscientes. No caso dos pacientes histéricos, por outro lado (por motivos que logo mencionaremos), nenhuma dessas coisas acontece. O afeto permanece num estado “estrangulado”, e a lembrança da experiência a que está ligado é isolada da consciência. A partir daí, a lembrança afetiva se manifesta em sintomas histéricos, que podem ser considerados como “símbolos mnêmicos” - vale dizer, como símbolos da lembrança suprimida (ver em [1]-[2]). Sugerem-se duas razões principais para explicar a ocorrência desse resultado patológico. Uma delas é que a experiência original ocorreu enquanto o indivíduo se encontrava num particular estado de dissociação mental, descrito como “hipnóide”; a outra é que o “ego” do indivíduo considerou essa experiência como sendo “incompatível” com ele próprio e, portanto, ela teve de ser “rechaçada”. Em ambos os casos, a eficácia terapêutica do método “catártico” é explicada com base nos mesmos fundamentos: se a experiência original, juntamente com seu afeto, puder ser introduzida na consciência, o afeto é por si mesmo descarregado ou “ab-reagido”, a força que até então manteve o sintoma deixa de atuar, e o próprio sintoma desaparece.

Tudo isso parece muito claro, mas uma pequena reflexão mostra que restam ainda muitas coisas por explicar. Por que um afeto precisa ser “descarregado”? E por que são tão terríveis as conseqüências de ele não ser descarregado? Esses problemas subjacentes não são considerados de modo algum na “Comunicação Preliminar”, embora a eles se fizesse uma breve alusão em dois dos rascunhos postumamente publicados (1941a e 1940d) e já existisse uma hipótese para explicá-los. Curiosamente, na verdade essa hipótese foi formulada por Freud em sua conferência de 11 de janeiro de 1893 (veja em [1]), apesar de ter sido omitida na própria “Comunicação Preliminar”. Ele aludiu de novo a essa hipótese nos dois últimos parágrafos do seu primeiro artigo sobre “As Neuropsicoses de Defesa” (1894a), onde declara especificamente que ela fundamentava a teoria da ab-reação na “Comunicação Preliminar” de um ano antes. Mas essa hipótese básica foi formalmente enunciada e designada pela primeira vez em 1895, na segunda parte da contribuição de Breuer ao presente volume (ver em [1]). É curioso que esta, a mais fundamental das teorias de Freud, tenha sido integralmente examinada, pela primeira vez, por Breuer (se bem que, de fato, atribuída por ele a Freud), e que o próprio Freud, embora retornasse vez por outra a seu tema (como nas primeiras páginas de seu artigo sobre “As Pulsões e suas Vicissitudes”, 1915c), não a mencionasse explicitamente até escrever Além do Princípio do Prazer (1920g). Freud, como sabemos agora, referiu-se a essa hipótese pelo nome numa comunicação de data incerta a Fliess, possivelmente 1894 (Rascunho D, 1950a), e examinou-a na íntegra, embora sob outro nome (veja adiante, ver em [1]), no “Projeto para uma Psicologia Científica”, que escreveu alguns meses após a publicação dos Estudos. Mas só cinqüenta e cinco anos depois (1950a) é que o Rascunho D e o “Projeto” foram publicados.

O “princípio da constância” (pois esta foi a denominação dada à hipótese) pode ser definido nos termos empregados pelo próprio Freud em Além do Princípio do Prazer: “O aparelho mental esforça-se por manter a quantidade de excitação nele presente em um nível tão baixo quanto possível, ou pelo menos por mantê-la constante” (Edição Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1], 1ª edição, Imago). Breuer o enuncia mais adiante, neste livro (ver em [1]), em termos muito semelhantes, mas com uma inclinação neurológica, como “uma tendência a manter constante a excitação intracerebral”. Em sua discussão em [1] e segs., argumenta ele que os afetos devem sua importância na etiologia da histeria ao fato de serem acompanhados pela produção de grandes quantidades de excitação, e de estas, por sua vez, exigirem uma descarga, de acordo com o princípio da constância. De modo semelhante, também as experiências traumáticas devem sua força patogênica ao fato de produzirem quantidades de excitação grandes demais para serem tratadas da maneira normal. Assim, a posição teórica essencial subjacente aos Estudos é que a necessidade clínica da ab-reação do afeto e os resultados patogênicos que surgem quando ele fica estrangulado são explicados pela tendência muito mais geral (expressa no princípio da constância) a manter constante a quantidade de excitação.

Tem-se pensado com freqüência que os autores dos Estudos atribuíam os fenômenos da histeria apenas aos traumas e às lembranças inextirpáveis deles, e que só mais tarde é que Freud, depois de deslocar a ênfase dos traumas infantis para as fantasias infantis, chegou a sua momentosa concepção “dinâmica” dos processos da mente. Ver-se-á, contudo, pelo que acaba de ser dito, que uma hipótese dinâmica sob a forma do princípio da constância já estava subjacente à teoria do trauma e da ab-reação. E quando chegou o momento de ampliar os horizontes e atribuir uma importância muito maior às pulsões, em contraste com a experiência, não houve necessidade de modificar a hipótese básica. Na realidade, Breuer já ressalta o papel desempenhado pelas “principais necessidades e pulsões fisiológicas do organismo” na gênese dos aumentos de excitação que exigem descarga (ver em [1]), e frisa a importância da “pulsão sexual” como “a fonte mais poderosa dos acúmulos sistemáticos de excitação (e, conseqüentemente, de neuroses)” (ver em [1]). Além disso, toda a noção de conflito e do recalcamento das idéias incompatíveis é explicitamente baseada no ocorrência dos aumentos desagradáveis de excitação. Isso conduz à consideração adicional de que, como salienta Freud em Além do Princípio do Prazer (Edição Standard Brasileira, 1ª edição, Vol. XVIII, ver em [1]), o próprio “princípio do prazer” está estreitamente vinculado ao princípio da constância. Ele chega mesmo a ir mais adiante e declarar (ibid., 83) que o princípio do prazer “é uma tendência que atua a serviço de uma função cuja tarefa é libertar inteiramente da excitação o aparelho mental, ou manter constância o nível de excitação dentro dele, ou mantê-lo tão baixo quanto possível”. O caráter “conservador” que Freud atribui às pulsões em seus trabalhos posteriores, assim como a “compulsão à repetição”, também são vistos no mesmo trecho como manifestações do princípio da constância; e fica claro que a hipótese em que se basearam esses primeiros Estudos sobre a Histeria ainda continuava a ser considerada fundamental por Freud em suas últimas especulações.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Freud com seus pacientes histéricos descobriu uma série de obstáculos, o primeiro foi a amnésia deles e, quando segui-se de imediato a compreensão de que a mente manifesta não é a mente em sua totalidade, havendo por trás uma mente inconsciente, descobriu-se que os processos inconscientes é que eram o problema. Para investigar a mente inconsciente Freud usou o hipnotismo, o que o levou a compreender mais dos processos mentais. Compreendeu a ¨resistência¨, a relutância em cooperarem na própria cura. Freud, então, confiou no fluxo de ¨associações livres¨ do paciente. Isto abriu caminho para a análise dos sonhos. Freud compreendeu o ¨processo primário¨ e veio então, o novo recurso técnico, o da ¨interpretação¨. Descobriu também a sexualidade infantil e o complexo de Édipo. Outro obstáculo surgiu, a ¨transferência¨, que se revelou mais um instrumento da técnica psicanalítica.

Freud declarava que o princípio do prazer ¨é uma tendência que atua a serviço de uma função cuja tarefa é libertar inteiramente da excitação o aparelho mental, ou manter constância o nível de excitação dentro dele, ou mantê-lo tão baixo quanto possível¨. O caráter ¨conservador¨ que Freud atribui às pulsões em seus trabalhos posteriores, assim como a ¨compulsão à repetição¨, são vistos como manifestações do princípio da constância.

Para investigar a mente sob efeito da telepatia e da lavagem cerebral, Mattanó, utilizou seu estado bio-psicológico atual onde se encontra em estado de hipnose-telepática e com este recurso descobriu que a mente inconsciente pode possuir antes de seu estado inconsciente uma ¨música que não se esgota e é inconsciente¨ que só é percebida por meio da hipnose-telepática, ou seja, há uma melodia que acompanha a linguagem do inconsciente, que pode determinar seu funcionamento, ou mesmo, o modo do que pensamos e os processos inconscientes como a resistência, o recalque, a transferência, a interpretação, a associação livre, os sonhos, a sexualidade infantil, o complexo de Édipo, as pulsões, a libido, a comunhão e o exercício da força, etc..

 

MATTANÓ

(06/04/2018)

 

Assim o complexo de Édipo, segundo Mattanó, tem seu papel comportamental, isto é, formador de repertório comportamental para lidarmos com os indivíduos do sexo masculino e do sexo feminino, não somente para a escolha da sua identidade, papel e orientação sexual, mas também para dotar o indivíduo de capacidade para enfrentar e lidar com o outro, indo além da identificação e da libido, indo para a convivência, para a comunhão.

 

MATTANÓ

(22/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos o trabalho onde Freud com seus pacientes histéricos descobriu uma série de obstáculos, o primeiro foi a amnésia deles e, quando segui-se de imediato a compreensão de que a mente manifesta não é a mente em sua totalidade, havendo por trás uma mente inconsciente, descobriu-se que os processos inconscientes é que eram o problema. Para investigar a mente inconsciente Freud usou o hipnotismo, o que o levou a compreender mais dos processos mentais. Compreendeu a ¨resistência¨, a relutância em cooperarem na própria cura. Freud, então, confiou no fluxo de ¨associações livres¨ do paciente. Isto abriu caminho para a análise dos sonhos. Freud compreendeu o ¨processo primário¨ e veio então, o novo recurso técnico, o da ¨interpretação¨. Descobriu também a sexualidade infantil e o complexo de Édipo. Outro obstáculo surgiu, a ¨transferência¨, que se revelou mais um instrumento da técnica psicanalítica.

Freud declarava que o princípio do prazer ¨é uma tendência que atua a serviço de uma função cuja tarefa é libertar inteiramente da excitação o aparelho mental, ou manter constância o nível de excitação dentro dele, ou mantê-lo tão baixo quanto possível¨. O caráter ¨conservador¨ que Freud atribui às pulsões em seus trabalhos posteriores, assim como a ¨compulsão à repetição¨, são vistos como manifestações do princípio da constância.

Para investigar a mente sob efeito da telepatia e da lavagem cerebral, Mattanó, utilizou seu estado bio-psicológico atual onde se encontra em estado de hipnose-telepática e com este recurso descobriu que a mente inconsciente pode possuir antes de seu estado inconsciente uma ¨música que não se esgota e é inconsciente¨ que só é percebida por meio da hipnose-telepática, ou seja, há uma melodia que acompanha a linguagem do inconsciente, que pode determinar seu funcionamento, ou mesmo, o modo do que pensamos e os processos inconscientes como a resistência, o recalque, a transferência, a interpretação, a associação livre, os sonhos, a sexualidade infantil, o complexo de Édipo, as pulsões, a libido, a comunhão e o exercício da força, etc..

Da mesma forma o trabalho de Mattanó com sua Psicanálise da Leitura começou com descobertas epistemológicas, onde comparou a realidade operante com a realidade virtual do Livro Sagrado do Alcorão, mais especificamente com o seu significado e sentido, pois o cérebro aprende a responder segundo esta realidade virtual, como qualquer outra realidade virtual, o cérebro é plástico e moldável, suas interconexões não são plenamente programáveis, pois existem eventos como a equivalência de estímulos, os quadros relacionais, a recuperação espontânea e a inclusão de classes que nos mostram isso, ainda mais se sofrermos tortura, lavagem cerebral, despersonalização, estupro, extorsão, vingança, voyeurismo e telepatia, nosso cérebro vai se desprogramando. O mundo e a realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão obedecem a sua metáfora Profética que nos ensina que profetizar é Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo e que devemos encarar a vida como um dom do Amor do Pai que todos tem direito e dever de defender.

 

MATTANÓ

(27/04/2026)

 

 

 

 

 

 

(3)

AS DIVERGÊNCIAS ENTRE OS DOIS AUTORES

 

Não estamos interessados aqui nas relações pessoais entre Breuer e Freud, descritas com detalhes no primeiro volume da biografia escrita por Ernest Jones, mas é interessante examinarmos brevemente suas divergências científicas. A existência de tais divergências foi abertamente mencionada no prefácio à primeira edição e muitas vezes falou-se nelas com exagero nas publicações posteriores de Freud. Mas no próprio livro, por estranho que pareça, elas estão longe de ganhar preeminência e, muito embora a “Comunicação Preliminar” seja a única parte do livro de autoria explicitamente conjunta, não é fácil determinar com certeza de quem é a responsabilidade pela origem dos vários elementos componentes do trabalho como um todo.

Sem dúvida, podemos com segurança atribuir a Freud os desenvolvimentos técnicos posteriores, bem como os conceitos teóricos vitais de resistência, defesa e recalcamento que decorreram deles. É fácil ver pelo relato apresentado em [1] como esses conceitos decorreram da substituição da hipnose pela técnica da “pressão”. O próprio Freud, em sua “História do Movimento Psicanalítico” (1914d), declara que “a teoria do recalcamento é a pedra angular em que repousa toda a estrutura da psicanálise”, e dá a mesma explicação aqui apresentada sobre a maneira como se chegou a ela. Afirma também sua crença de ter chegado de forma independente a essa teoria, e a história da descoberta confirma amplamente essa crença. No mesmo trecho, Freud observa que uma sugestão da idéia do recalcamento encontra-se em Schopenhauer (1844), cujas obras, contudo, ele só veio a ler em idade avançada; e há pouco tempo se ressaltou que a palavra “Verdrängung” (“recalcamento”) ocorre nos escritos do psicólogo Herbart (1824), do início do século XIX, cujas idéias tiveram grande influência sobre numerosas pessoas que faziam parte do círculo de Freud, em particular seu professor imediato de psiquiatria, Meynert. Mas nenhuma dessas sugestões diminui de modo significativo a originalidade da teoria de Freud, com sua base empírica, que encontrou sua primeira expressão na “Comunicação Preliminar” (ver em [1]-[2]).

Em contraposição a isso, não há nenhuma dúvida de que Breuer deu origem à noção dos “estados hipnóides”, ponto a que voltaremos dentro em breve, e parece possível que tenha sido responsável pelos termos “catarse” e “ab-reação”.

Todavia, muitas das conclusões teóricas dos Estudos devem ter sido produto de discussões entre os dois autores durante seus anos de colaboração, e o próprio Breuer comenta (ver em [1]-[2]) sobre a dificuldade de determinar a prioridade em tais casos. Afora a influência de Charcot, sobre a qual Freud jamais deixou de insistir, deve-se também recordar que tanto Breuer como Freud eram basicamente fiéis à escola de Helmholz, da qual um professor deles, Ernst Brücke, foi membro preeminente. Grande parte da teoria subjacente aos Estudos sobre a Histeria deriva da doutrina daquela escola, teoria que diz serem todos os fenômenos naturais, em última análise, explicáveis em função de forças físicas e químicas.

 

Já vimos (em [1]) que, embora Breuer fosse o primeiro a mencionar o “princípio da constância” pelo nome, ele atribuiu essa hipótese a Freud. De modo semelhante, ele ligou o nome de Freud ao termo “conversão”, mas (como será explicado mais adiante, em [1]), o próprio Freud declarou que isso se aplicava apenas à palavra e que se chegou em conjunto ao conceito.

 

Por outro lado, há um grande número de conceitos muito importantes que parecem ser corretamente atribuíveis a Breuer: a idéia de a alucinação ser uma “retrogressão” das imagens mentais para a percepção (ver em [1]), a tese de que as funções da percepção e da memória não podem ser realizadas pelo mesmo aparelho (ver em [1]), e, finalmente, causando grande surpresa, a distinção entre a energia psíquica ligada (tônica) e a não-ligada (móvel) e a distinção correlata entre os processos psíquicos primário e secundário (ver em [1]).

O emprego do termo “Besetzung” (“catexia”), que aparece pela primeira vez em [1]-[2] com o sentido que iria tornar-se tão familiar na teoria psicanalítica, provavelmente deve ser atribuído a Freud. Como é natural, a idéia de todo o aparelho mental, ou parte dele, transportar uma carga de energia é pressuposta pelo princípio da constância. E embora o termo real que iria transformar-se no padrão fosse empregado pela primeira vez neste volume, a idéia fora antes expressa por Freud sob outras formas. Assim, encontramo-lo utilizando expressões tais como “mit Energie ausgestattet” (“suprido de energia”) (1895b), “mit einer Erregungssumme behaftet (“carregado de uma soma de excitação”) (1894a), “munie d’une valeur affective” (“provido de uma cota de afeto”) (1893c), “Verschiebungen von Erregungs summen” (“deslocamentos de somas de excitação”) (1941a |1892|) e, já no prefácio a sua primeira tradução de Bernheim (1888-9) “Verschiebungen von Erregbarkeit im Nervensystem” (deslocamentos de excitabilidade no sistema nervoso”).

Esta última citação, porém, constitui um lembrete de algo de grande importância que pode muito facilmente ser desprezado. Não há dúvida alguma de que, na época da publicação dos Estudos, Freud considerava o termo “catexia” como puramente fisiológico. Isso é comprovado pela definição do termo dada por ele na Parte I, Seção 2, de seu “Projeto para uma Psicologia Científica”, com o qual sua mente já estava ocupada (como se verifica nas cartas a Fliess) e que foi escrito apenas alguns meses depois. Ali, após fornecer uma explicação sobre uma entidade neurológica recém-descoberta, o “neurônio”, prossegue ele: “Se combinarmos esta descrição dos neurônios com uma abordagem nos moldes da teoria da quantidade, chegaremos à idéia de uma neurônio ‘catexizado’, cheio de certa quantidade, embora em outras ocasiões possa estar vazio.” A propensão neurológica das teorias de Freud nesse período é indicada ainda pela forma como o princípio da constância é enunciado no mesmo trecho do “Projeto”. Recebe a designação de “o princípio da inércia neuronal” e é definido como indicativo de “que os neurônios tendem a desembaraçar-se da quantidade”. Revela-se assim um notável paradoxo. Breuer, como veremos adiante (ver em [1]), declara sua intenção de tratar o assunto da histeria em moldes puramente psicológicos: “No que se segue, pouca menção será feita ao cérebro e absolutamente nenhuma às moléculas. Os processos psíquicos serão tratados na linguagem da psicologia.” Na verdade, porém, seu capítulo teórico versa basicamente sobre as “excitações intracerebrais” e sobre paralelos entre o sistema nervoso e as instalações elétricas. Por outro lado, Freud dedicava todas as suas energias a explicar os fenômenos mentais em termos fisiológicos e químicos. Não obstante, como ele próprio confessa com pesar (ver em [1]), seus casos clínicos têm a forma de contos e suas análises são psicológicas.

A verdade é que, em 1895, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar das explicações fisiológicas dos estados psicopatológicos para as explicações psicológicas. Por um lado, propunha o que era, em linhas gerais, uma explicação química das neuroses “atuais” - neurastenia e neurose de angústia - (em seus dois artigos sobre neurose de angústia, 1895b e 1895f), e, por outro, propunha uma explicação essencialmente psicológica - em termos de “defesa” e “recalcamento” - para a histeria e as obsessões (em seus dois artigos sobre “As Neuropsicoses de Defesa”, 1894a e 1896b). Sua formação anterior e sua carreira como neurologista levavam-no a resistir à aceitação das explicações psicológicas como definitivas; e ele estava empenhado em elaborar uma estrutura complexa de hipóteses destinadas a possibilitar a descrição dos eventos mentais em termos puramente neurológicos. Essa tentativa culminou no “Projeto” e foi abandonada não muito depois. Até o fim da vida, porém, Freud continuou adepto da etiologia química das neuroses “atuais” e a acreditar que se acabaria encontrando uma base física para todos os fenômenos mentais. Entrementes, ele chegou pouco a pouco ao ponto de vista expresso por Breuer de que os processos psíquicos só podem ser tratados na linguagem da psicologia.  Foi só em 1905 (em seu livro sobre o chiste, Capítulo V) que ele pela primeira vez repudiou de forma explícita qualquer intenção de empregar o termo “catexia” em algum sentido que não fosse o psicológico e abandonou todas as tentativas de relacionar os tratos nervosos ou os neurônios com as vias de associação mental.

 

Quais eram, porém, as divergências científicas essenciais entre Breuer e Freud? Em seu Estudo Autobiográfico (1925d) Freud afirma que a primeira delas relacionava-se com a etiologia da histeria e poderia ser descrita como “os estados hipnóides versus as neuroses de defesa”. Mais uma vez, no entanto, aqui mesmo neste volume, o problema é menos nítido. Na “Comunicação Preliminar” elaborada em conjunto, ambas as etiologias são aceitas (ver em [1]). Breuer, em seu capítulo teórico, evidentemente dá maior ênfase aos estados hipnóides (ver em [1]), mas também acentua a importância da “defesa” (ver em [1] e [2]), embora de modo pouco entusiástico. Freud parece aceitar a noção dos “estados hipnóides” no caso clínico de “Katharina” (ver em [1]) e, de modo menos definitivo, no da Sra. Elisabeth (ver em [1]). É só no capítulo final que seu ceticismo começa a tornar-se evidente (ver em [1]). Num artigo sobre “A Etiologia da Histeria”, publicado no ano seguinte (1896c), esse ceticismo é expresso de forma ainda mais franca e, numa nota de rodapé ao caso de “Dora” (1905e), Freud declara que a expressão “estados hipnóides” é “desnecessária e confusa” e que a hipótese “decorreu inteiramente da iniciativa de Breuer” (Edição Standard Brasileira, 1ª edição, Vol. VII, pág. 25n).

Mas a principal diferença de opinião entre os dois autores, na qual Freud posteriormente insistiu, dizia respeito ao papel desempenhado pelos impulsos sexuais na causação da histeria. Também aqui, contudo, verificaremos que a divergência expressa aparece de uma forma menos clara do que seria de se esperar. A crença de Freud na origem sexual da histeria pode ser inferida com bastante clareza a partir da discussão em seu capítulo sobre a psicoterapia (ver em. [1]), mas em nenhum ponto ele chega a afirmar, como faria mais tarde, que uma etiologia sexual se mostra invariavelmente presente nos casos de histeria. Por outro lado, Breuer fala em vários pontos, e usando os termos mais incisivos, sobre a importância do papel desempenhado pela sexualidade nas neuroses, e o faz em especial no longo trecho em [1] e segs. Diz ele, por exemplo (como já se observou, em [1]), que “a pulsão sexual é sem dúvida a fonte mais poderosa dos aumentos persistentes de excitação (e, conseqüentemente, das neuroses)” (ver em [1]), e declara (ver em [1]) que “a grande maioria das neuroses graves nas mulheres tem sua origem no leito conjugal”.

Parece que, para encontrarmos uma explicação satisfatória para a dissolução dessa parceria científica, deveríamos olhar o que está atrás da palavra impressa. As cartas de Freud a Fliess mostram Breuer como um homem cheio de dúvidas e reservas, sempre inseguro em suas conclusões. Há um exemplo extremo disso numa carta de 8 de novembro de 1895 (1950a, Carta 35), cerca de seis meses após a publicação dos Estudos: “Não faz muito tempo, no Colégio de Medicina, Breuer fez um longo discurso falando de mim, no qual anunciou sua conversão à crença na etiologia sexual |das neuroses|. Quando o chamei de lado para agradecer-lhe, ele estragou meu prazer, dizendo: ‘Ainda assim não creio nisso.’ Você consegue entender isso? Eu, não.” Algo dessa natureza pode ser lido nas entrelinhas das contribuições de Breuer aos Estudos, onde temos o quadro de um homem meio temeroso de suas próprias descobertas notáveis. Era inevitável que ele ficasse ainda mais desconcertado pelo pressentimento das descobertas ainda mais inquietantes que estavam por vir; e era inevitável que Freud, por sua vez, se sentisse prejudicado e irritado com as incômodas hesitações de seu companheiro de trabalho.

Seria enfadonho enumerar os muitos trechos, nas obras posteriores de Freud, nos quais ele se refere aos Estudos sobre a Histeria e a Breuer; porém, algumas citações ilustrarão a variação da ênfase em sua atitude para com eles.

Nos numerosos relatos abreviados de seus métodos terapêuticos e das teorias psicológicas que publicou durante os anos logo após o lançamento dos Estudos, Freud se esforçou por ressaltar as diferenças entre a “psicanálise” e o método catártico - as inovações técnicas, a extensão de seu processo quanto às outras neuroses que não a histeria, o estabelecimento da motivação da “defesa”, a insistência numa etiologia sexual e, como já vimos, a rejeição final dos “estados hipnóides”. Ao chegarmos à primeira série das obras principais de Freud - os volumes sobre sonhos (1900a), parapraxias (1901b), chistes (1905c) e sexualidade (1905d) - naturalmente há pouco ou nenhum material retrospectivo; e é somente nas cinco conferências proferidas na Universidade de Clark (1910a) que vamos encontrar um levantamento histórico extenso. Nessas conferências, Freud parecia ansioso por estabelecer a continuidade entre sua obra e a de Breuer. Toda a primeira conferência e grande parte da segunda são dedicadas a um resumo dos Estudos, e a impressão da era a de que não Freud, e sim Breuer era o verdadeiro fundador da psicanálise.

O longo levantamento retrospectivo seguinte, na “História do Movimento Psicanalítico” (1914d), teve um tom muito diferente. Todo o artigo, naturalmente, teve uma intenção polêmica, e não é de surpreender que, ao esboçar a história inicial da psicanálise, Freud frisasse mais suas divergências com Breuer do que sua dívida para com ele, e que revogasse explicitamente sua visão de Breuer como o fundador da psicanálise. Também nesse artigo Freud discorreu largamente sobre a incapacidade de Breuer para enfrentar a transferência sexual e revelou o “lastimável evento” que encerrou a análise de Anna O (ver em [1]).

A seguir veio o que parece ser quase uma amende- já mencionada na ver em [1]: a inesperada atribuição a Breuer da distinção entre a energia psíquica ligada e a não-ligada e entre os processos primário e secundário. Não tinha havido nenhuma sugestão dessa atribuição quando essas hipóteses foram originalmente introduzidas por Freud (em A Interpretação dos Sonhos); ela foi feita pela primeira vez numa nota de rodapé à Seção V do artigo metapsicológico sobre “O Inconsciente” (1915e) e repetida em Além do Princípio do Prazer (1920g); (Edição Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1] e [2]). Não muito tempo depois houve algumas frases de louvor num artigo preparado por Freud para o Handwörterbuch de Marcuse (1923a; Edição Standard Brasileira, Vol. XVIII, em [1]): “Numa seção teórica dos Estudos, Breuer propôs algumas idéias especulativas sobre os processos de excitação da mente. Essas idéias determinaram a direção das futuras linhas de pensamento…” Mais ou menos na mesma orientação, Freud escreveu, um pouco depois, numa contribuição para uma publicação norte-americana (1924f): “O método catártico foi o precursor imediato da psicanálise e, apesar de toda amplitude da experiência e de todas as modificações de teoria, ainda se acha contido nela como seu núcleo.”

O longo levantamento histórico de Freud que se seguiu, Um Estudo Autobiográfico (1925d), pareceu mais uma vez afastar-se da obra conjunta: “Se o relato que fiz até agora”, escreveu, “levou o leitor a esperar que os Estudos sobre a Histeria, em todos os pontos essenciais de seu conteúdo, tenham sido um produto da mente de Breuer, isso é precisamente o que eu mesmo sempre sustentei… No tocante à teoria formulada no livro, fui parcialmente responsável, mas numa medida que hoje não é mais possível determinar. Aquela teoria, de qualquer modo, era despretensiosa e mal foi além da descrição direta das observações.” E acrescentou que “teria sido difícil adivinhar, pelos Estudos sobre a Histeria, a importância que tem a sexualidade na etiologia das neuroses”, passando mais uma vez a descrever a relutância de Breuer em reconhecer esse fator.

Logo depois disso Breuer faleceu, e talvez seja apropriado encerrar esta introdução à obra conjunta com uma citação do necrológio feito por Freud sobre seu colaborador (1925g). Depois de comentar a relutância de Breuer em publicar os Estudos e de declarar que o principal mérito dele próprio em relação a essa obra fora o de haver persuadido Breuer a concordar com seu lançamento, prosseguiu: “Na época em que ele aceitou minha influência e estava elaborando os Estudos para publicação, seu julgamento do significado da obra pareceu confirmar-se. ‘Creio’, disse-me ele, ‘que esta é a coisa mais importante que nós dois temos a dar ao mundo’. Além do caso clínico de sua primeira paciente, Breuer redigiu um artigo teórico para os Estudos. Esse texto está muito longe de ser desatualizado; pelo contrário, oculta pensamentos e sugestões que não foram suficientemente levados em conta. Qualquer um que se aprofunde nesse ensaio especulativo formará uma verdadeira impressão da estatura mental desse homem cujos interesses científicos, infelizmente, só foram orientados na direção de nossa psicopatologia por um curto episódio de sua longa vida.”

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):
A Freud atribuímos os conceitos teóricos vitais de resistência, defesa e recalcamento.

Breuer deu origem à noção dos ¨estados hipnóides¨, sendo o responsável, provavelmente, pelos termos ¨catarse¨ e ¨ab-reação¨.

Em 1895, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar das explicações fisiológicas dos estados psicopatológicos para as explicações psicológicas.

A principal diferença entre Freud e Breuer dizia respeito ao papel desempenhado pelos impulsos sexuais na causação da histeria. Breuer fala de vários pontos e usa termos mais incisivos, sobre a importância do papel desempenhado da sexualidade.

 

MATTANÓ

(07/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos o trabalho onde a Freud atribuímos os conceitos teóricos vitais de resistência, defesa e recalcamento.

Breuer deu origem à noção dos ¨estados hipnóides¨, sendo o responsável, provavelmente, pelos termos ¨catarse¨ e ¨ab-reação¨.

Em 1895, Freud encontrava-se a meio caminho no processo de passar das explicações fisiológicas dos estados psicopatológicos para as explicações psicológicas.

A principal diferença entre Freud e Breuer dizia respeito ao papel desempenhado pelos impulsos sexuais na causação da histeria. Breuer fala de vários pontos e usa termos mais incisivos, sobre a importância do papel desempenhado da sexualidade.

Da mesma forma Osny Mattanó Júnior criou e descobriu novos termos para sua nova psicanálise, a Psicanálise da Leitura, que estuda o mundo e a realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que nos ensina significados e sentidos que substituem a realidade operante pela realidade do Alcorão que nos atualiza com o Amor do Pai que nos pede que amemos todas as coisas como se estivéssemos amando o próprio Pai, pois tudo é do Pai, o homem e a servidão da mulher, que agora se transforma em liberdade, pois conhecemos o Verdadeiro Amor do Pai e cada criança ou adolescente que não deve ser sequestrada e nem estuprada, pois é do Amor do Pai em suas orações, inclusive familiares, cada estrangeiro, cada ser vivo, tudo é do Pai, inclusive o que odiamos e que agora se transforma em Amor do Pai, pois o Pai nos Ama!

 

MATTANÓ

(27/04/2026)

 

 

 

 

 

PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO

 

Em 1893 publicamos a “Comunicação Preliminar” sobre um novo método de examinar e tratar os fenômenos histéricos. A ela acrescentamos, de forma tão concisa quanto possível, as conclusões teóricas a que havíamos chegado. Estamos aqui reimprimindo essa “Comunicação Preliminar” para servir como a tese que temos por finalidade ilustrar e provar.

Anexamos a ela uma série de casos clínicos cuja seleção, infelizmente, não pôde ser determinada em bases puramente científicas. Nossa experiência provém da clínica particular numa classe social culta e letrada, e o assunto com que lidamos muitas vezes aborda a vida e a história mais íntimas de nossos pacientes. Constituiria grave quebra de confiança publicar material dessa espécie, com o risco de os pacientes serem identificados e seus conhecidos ficarem a par de fatos confiados apenas ao médico. Foi-nos portanto impossível fazer uso de algumas das nossas observações mais instrutivas e convincentes. Isso naturalmente se aplica de forma especial a todos os casos em que as relações sexuais e maritais desempenham um importante papel etiológico. Assim, ocorre que só conseguimos apresentar provas muito incompletas em favor de nosso ponto de vista de que a sexualidade parece desempenhar um papel fundamental na patogênese da histeria, como fonte de traumas psíquicos e como motivação para a “defesa” - isto é, para que as idéias sejam recalcadas da consciência. Foram precisamente as observações de natureza marcadamente sexual que nos vimos obrigados a não publicar.

Os casos clínicos são seguidos de diversas considerações teóricas e, num capítulo final sobre terapia, propõe-se a técnica do “método catártico” tal como se desenvolveu nas mãos do neurologista.

Se em algumas ocasiões se expressam opiniões divergentes e até mesmo contraditórias, isso não deve ser considerado como prova de qualquer vacilação em nossos pontos de vista. Decorre das divergências naturais e justificáveis entre as opiniões dos dois observadores que estão de acordo quanto aos fatos e à leitura básica dos mesmos, mas que nem sempre concordam invariavelmente em suas interpretações e conjeturas.

 

  1. BREUER, S. FREUD

Abril de 1895

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):
Mattanó utilizou como técnica de investigação a Ciência e a Educação e foi a partir daqui que ele criou os Avatares, figuras e representações de imagens com histórias cheias de significado e sentido, conceito, contexto, funcionalidade e comportamento para auxiliar o paciente na dramatização e interpretação da cena problemática ou traumática, de modo que a Ciência e a Educação cheguem aonde ainda não chegou a Saúde.

Com esta técnica dos Avatares é possível lidar melhor com a loucura da Pulsão Auditiva que está justamente na interpretação do ouvinte, que acede as regras do falante, como que por sugestão.

É possível lidar também com a destruição do superego e da moral por meio da Pulsão Auditiva, gerando imoralidade, crueldade e criminalidade, desconforto bio-psico-social que quando associado a telepatia e a lavagem cerebral tornam-se incuráveis, porém tratáveis, ou seja, deixam sequelas na psique, no comportamento e nas relações sociais dos indivíduos para o resto de suas vidas, como por exemplo, a paranoia, a esquizofrenia e a hipererosia.

Por meio dos Avatares podemos imaginar que se Jesus Cristo estivesse aqui certamente Ele não distribuiria cadeados e nem formas de prisões; como podemos imaginar aquele soldado que chega em casa e diz ¨estou feliz porque matei milhares de pessoas, porque destruí nações, porque me vinguei, porque destruí Igrejas e crianças, mulheres, trabalhadores e doentes, famílias e casas, estou feliz porque a minha nação é violenta e protege quem é violento!¨ Por meio desta técnica Educativa podemos salvar vidas e evitar tragédias se a Misericórdia, o Amor e a humanidade prevalecerem sobre a violência, o medo e o desrespeito.

 

MATTANÓ

(07/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos que Mattanó utilizou como técnica de investigação a Ciência e a Educação e foi a partir daqui que ele criou os Avatares, figuras e representações de imagens com histórias cheias de significado e sentido, conceito, contexto, funcionalidade e comportamento para auxiliar o paciente na dramatização e interpretação da cena problemática ou traumática, de modo que a Ciência e a Educação cheguem aonde ainda não chegou a Saúde.

Com esta técnica dos Avatares é possível lidar melhor com a loucura da Pulsão Auditiva que está justamente na interpretação do ouvinte, que acede as regras do falante, como que por sugestão.

É possível lidar também com a destruição do superego e da moral por meio da Pulsão Auditiva, gerando imoralidade, crueldade e criminalidade, desconforto bio-psico-social que quando associado a telepatia e a lavagem cerebral tornam-se incuráveis, porém tratáveis, ou seja, deixam sequelas na psique, no comportamento e nas relações sociais dos indivíduos para o resto de suas vidas, como por exemplo, a paranoia, a esquizofrenia e a hipererosia.

Por meio dos Avatares podemos imaginar que se Jesus Cristo estivesse aqui certamente Ele não distribuiria cadeados e nem formas de prisões; como podemos imaginar aquele soldado que chega em casa e diz ¨estou feliz porque matei milhares de pessoas, porque destruí nações, porque me vinguei, porque destruí Igrejas e crianças, mulheres, trabalhadores e doentes, famílias e casas, estou feliz porque a minha nação é violenta e protege quem é violento!¨ Por meio desta técnica Educativa podemos salvar vidas e evitar tragédias se a Misericórdia, o Amor e a humanidade prevalecerem sobre a violência, o medo e o desrespeito.

Da mesma forma os Avatares auxiliam no mundo e na realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que substituem a realidade operante pela de significados e sentidos do mundo e da realidade virtuais do Alcorão, dentre elas a do Psicanalista que já nomeamos em outros momentos de Amor de Deus, de Jesus e de Maria, pois a cura se processa pela escuta e pela amor transferencial na sessão de psicanálise, portanto o Amor de Deus, de Jesus e de Maria pode ser entendido como esse amor transferencial que cura através da escuta na sessão psicanalítica. Através dos Avatares podemos educar e treinar o comportamento do paciente e assim evitar tragédias como guerras e terrorismo, mortes, destruição e caos, fome, doenças, mutilações e pobreza, problemas políticos e administrativos, melhorar nossas escolhas e nossas decisões, pautá-las, por exemplo, com certeza no mundo e na realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua mensagem metafórica que nos ensina significados e sentidos de maneira Profética e auto-atualizada, auto-realizada, buscando o processo de individuação, a psicossexualidade e a trajetória dos heróis e da vida como meta para os nossos Avatares, que são construídos a partir da nossa consciência, cultura, conhecimento e realidade, oferecidas pela interconectividade cerebral e corporal, porém fundamentando-se pela cerebral que utiliza o tronco cerebral, o córtex cerebral e o tálamo para exercer sua funcionalidade e adaptação.

 

MATTANÓ

(14/05/2026)

 

 

 

 

 

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

 

O interesse que, em grau sempre crescente, vem se voltando para a psicanálise parece agora estar-se estendendo a estes Estudos sobre a Histeria. O editor deseja publicar nova edição do livro, que no momento se acha esgotado. Aparece ele agora numa reimpressão sem quaisquer alterações, embora as opiniões e os métodos apresentados na primeira edição tenham desde então passado por desenvolvimentos de longo alcance e profundidade. No que me diz respeito, pessoalmente, desde aquela época não lidei ativamente com o assunto; não tive nenhuma participação em seu importante desenvolvimento e nada poderia acrescentar de novo ao que foi escrito em 1895. Assim, nada pude fazer além de expressar o desejo de que minhas duas contribuições ao volume fossem reimpressas sem alteração.

 

BREUER

 

Também quanto a minha participação no livro, a única decisão possível é que o texto da primeira edição seja reimpresso sem alteração. Os desenvolvimentos e mudanças ocorridos em meus pontos de vista no decorrer de treze anos de trabalho foram extensos demais para que seja possível vinculá-los a minha anterior exposição sem destruir inteiramente seu caráter essencial. Tampouco tenho qualquer motivo para desejar eliminar esta prova de meus conceitos iniciais. Ainda hoje não os considero como erros, mas como valiosas primeiras aproximações de um conhecimento que só poderia ser plenamente adquirido após longos e continuados esforços. O leitor atento será capaz de descobrir neste livro os germes de tudo aquilo que desde então foi acrescentado à teoria da catarse; por exemplo, o papel desempenhado pelos fatores psicossexuais e pelo infantilismo, e a importância dos sonhos e do simbolismo inconsciente. E não posso dar melhor conselho a qualquer interessado no desenvolvimento da catarse até chegar à psicanálise do que começar pelos Estudos sobre a Histeria e, desse modo, seguir o caminho que eu próprio trilhei.

 

FREUD

VIENA, julho de 1908

 

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Mattanó escreve esta sua releitura das Obras de Sigmund Freud atendendo a demanda de suas Novas Teorias e Epistemologias Psicológicas, sobretudo à incompletude delas, à falta de aprofundamentos, de aproximações com a teoria freudiana, de relações com as Obras Completas de Sigmund Freud.

 

MATTANÓ

(08/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos que Mattanó escreve esta sua releitura das Obras de Sigmund Freud atende a demanda de suas Novas Teorias e Epistemologias Psicológicas, sobretudo à incompletude delas, à falta de aprofundamentos, de aproximações com a teoria freudiana, de relações com as Obras Completas de Sigmund Freud. Da mesma forma esta obra, a Psicanálise da Leitura, começa atendendo a necessidade de demanda, de incompletude e de aprofundamentos da teoria de Mattanó e das suas Novas Teorias e Epistemologias Psicológicas que tem relações com esta obra, pois abordam o inconsciente, o comportamento, a cognição, a aprendizagem, o estilo de vida, a vida escolar, o trabalho, a institucionalização, a vida social, a transcendência, a gestalt, os arquétipos, a auto-atualização, a auto-realização, a espécie, o grupo e o indivíduo, a existência e as essências ou a fenomenologia, a filogênese, a ontogênese, a mundo virtual, a cultura, a espiritualidade, a vida e o universo como eventos evolutivos, seletivos, competitivos e involutivos.

 

MATTANÓ

(14/05/2026)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

I - SOBRE O MECANISMO PSÍQUICO DOS FENÔMENOS HISTÉRICOS:

COMUNICAÇÃO PRELIMINAR (1893)

(BREUER E FREUD)

 

 

I

Uma observação casual levou-nos, durante vários anos, a pesquisar uma grande variedade de diferentes formas e sintomas de histeria, com vistas a descobrir sua causa precipitante - o fato que teria provocado a primeira ocorrência, muitos anos antes com freqüência, do fenômeno em questão. Na grande maioria dos casos não é possível estabelecer o ponto de origem através da simples interrogação do paciente, por mais minuciosamente que seja levada a efeito. Isso se verifica, em parte, porque o que está em questão é, muitas vezes, alguma experiência que o paciente não gosta de discutir; mas ocorre principalmente porque ele é de fato incapaz de recordá-la e, muitas vezes, não tem nenhuma suspeita da conexão causal entre o evento desencadeador e o fenômeno patológico. Via de regra, é necessário hipnotizar o paciente e provocar, sob hipnose, suas lembranças da época em que o sintoma surgiu pela primeira vez; feito isso, torna-se possível demonstrar a conexão causal da forma mais clara e convincente.

Esse método de exame tem produzido, num grande número de casos, resultados que se afiguram valiosos tanto do ponto de vista teórico como do ponto de vista prático.

Eles são teoricamente valiosos porque nos ensinaram que os fatos externos determinam a patologia da histeria numa medida muito maior do que se sabe e reconhece. Naturalmente, é óbvio que, nos casos de histeria “traumática”, o que provoca os sintomas é o acidente. A ligação causal evidencia-se igualmente nos ataques histéricos quando é possível deduzir dos enunciados do paciente que, em cada ataque, ele está alucinando o mesmo evento que provocou o primeiro deles. A situação é mais obscura no caso de outros fenômenos.

Nossas experiências, porém, têm demonstrado que os mais variados sintomas, que são ostensivamente espontâneos e, como se poderia dizer, produtos idiopáticos da histeria, estão tão estritamente relacionados com o trauma desencadeador quanto os fenômenos a que acabamos de aludir e que exibem a conexão causal de maneira bem clara. Os sintomas cujo rastro pudemos seguir até os referidos fatores desencadeadores deste tipo abrangem nevralgias e anestesias de naturezas muito diversas, muitas das quais haviam persistido durante anos, contraturas e paralisias, ataques histéricos e convulsões epileptóides, que os observadores consideravam como epilepsia verdadeira, petit mal e perturbações da ordem dos tiques, vômitos crônicos e anorexia, levados até o extremo de rejeição de todos os alimentos, várias formas de perturbação da visão, alucinações visuais constantemente recorrentes, etc. A desproporção entre os muitos anos de duração do sintoma histérico e a ocorrência isolada que o provocou é o que estamos invariavelmente habituados a encontrar nas neuroses traumáticas. Com grande freqüência, é algum fato da infância que estabelece um sintoma mais ou menos grave, que persiste durante os anos subseqüentes.

Muitas vezes, a ligação é tão nítida que se torna bem evidente como foi que o fato desencadeante produziu um dado fenômeno específico, de preferência a qualquer outro. Nesse caso, o sintoma foi de forma bem óbvia determinado pela causa desencadeadora. Podemos tomar como exemplo muito comum uma emoção penosa surgida durante uma refeição, mas suprimida na época, e que produz então náuseas e vômitos que persistem por meses sob a forma de vômitos histéricos. Uma jovem que velava o leito de um enfermo, atormentada por uma grande angústia, caiu num estado crepuscular e teve uma alucinação aterrorizante, enquanto seu braço direito, que pendia sobre o dorso da cadeira, ficou dormente; disso proveio uma paresia do mesmo braço, acompanhada de contratura e anestesia. Ela tentou rezar, mas não conseguiu encontrar as palavras; por fim, conseguiu repetir uma oração para crianças em inglês. Posteriormente, ao surgir uma histeria grave e altamente complicada, ela só conseguia falar, escrever e compreender o inglês, enquanto sua língua materna permaneceu ininteligível para ela por dezoito meses. - A mãe de uma criança muito doente, que finalmente adormecera, concentrou toda a sua força de vontade em manter-se imóvel a fim de não despertá-la. Precisamente por causa da sua intenção, produziu um ruído de “estalo” com a língua. (Um exemplo de “contravontade histérica”.) Esse ruído se repetiu numa ocasião subseqüente em que ela desejava manter-se perfeitamente imóvel, tendo dele surgido um tique que, sob a forma de um estalido com a língua, ocorreu durante um período de muitos anos sempre que ela se sentia excitada. - Um homem muito inteligente estava presente quando uma articulação da coxa anquilosada de seu irmão foi submetida a uma manobra de extensão sob a ação de um anestésico. No momento em que a articulação cedeu com um estalido, ele sentiu uma dor violenta em sua própria articulação, que persistiu por quase um ano. - Outros exemplos poderiam ser citados.

Em outros casos a conexão causal não é tão simples. Consiste apenas no que se poderia denominar uma relação “simbólica” entre a causa precipitante e o fenômeno patológico - uma relação do tipo da que as pessoas saudáveis formam nos sonhos. Por exemplo, uma nevralgia pode sobrevir após um sofrimento mental, ou vômitos após um sentimento de repulsa moral. Temos estudado pacientes que costumavam fazer o mais abundante uso dessa espécie de simbolização. Noutros casos ainda, não é possível compreender à primeira vista como os sintomas podem ser determinados à maneira como sugerimos. São precisamente os sintomas histéricos típicos que se enquadram nessa classe, tais como a hemianestesia, a contração do campo visual, as convulsões epileptiformes e assim por diante. Uma explicação de nossos pontos de vista sobre esse grupo deve ser reservada para um exame mais acurado do assunto.

Observações como essas nos parecem estabelecer uma analogia entre a patogênese da histeria comum e a das neuroses traumáticas e justificar uma extensão do conceito de histeria traumática. Nas neuroses traumáticas, a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto - o trauma psíquico. De maneira análoga, nossas pesquisas revelam para muitos, se não para a maioria dos sintomas histéricos, causas desencadeadoras que só podem ser descritas como traumas psíquicos. Qualquer experiência que possa evocar afetos aflitivos - tais como os de susto, angústia, vergonha ou dor física - pode atuar como um trauma dessa natureza; e o fato de isso acontecer de verdade depende, naturalmente, da suscetibilidade da pessoa afetada (bem como de outra condição que será mencionada adiante). No caso da histeria comum não é rara a ocorrência, em vez de um trauma principal isolado, de vários traumas parciais que formam um grupo de causas desencadeadoras. Essas causas só puderam exercer um efeito traumático por adição e constituem um conjunto por serem, em parte, componentes de uma mesma história de sofrimento. Existem outros casos em que uma circunstância aparentemente trivial se combina com o fato realmente atuante ou ocorre numa ocasião de peculiar suscetibilidade ao estímulo e, dessa forma, atinge a categoria de um trauma, que de outra forma não teria tido, mas que daí por diante persiste.

Mas a relação causal entre o trauma psíquico determinante e o fenômeno histérico não é de natureza a implicar que o trauma atue como mero agent provocateur na liberação do sintoma, que passa então a levar uma existência independente. Devemos antes presumir que o trauma psíquico - ou, mais precisamente, a lembrança do trauma - age como um corpo estranho que, muito depois de sua entrada, deve continuar a ser considerado como um agente que ainda está em ação; encontramos a prova disso num fenômeno invulgar que, ao mesmo tempo, traz um importante interesse prático para nossas descobertas.

É que verificamos, a princípio com grande surpresa, que cada sintoma histérico individual desaparecia, de forma imediata e permanente, quando conseguíamos trazer à luz com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente havia descrito esse fato com o maior número de detalhes possível e traduzido o afeto em palavras. A lembrança sem afeto quase invariavelmente não produz nenhum resultado. O processo psíquico originalmente ocorrido deve ser repetido o mais nitidamente possível; deve ser levado de volta a seu status nascendi e então receber expressão verbal. Quando aquilo com que estamos lidando são fenômenos que envolvem estímulos (espasmos, nevralgias e alucinações), estes reaparecem mais uma vez com intensidade máxima e a seguir desaparecem para sempre. As deficiências funcionais, tais como paralisias e anestesias, desaparecem da mesma maneira, embora, é claro, sem que a intensificação temporária seja discernível.

 

É plausível supor que se trata aqui de sugestão inconsciente: o paciente espera ser aliviado de seus sofrimentos por esse procedimento, e é essa expectativa, e não a expressão verbal, o fator operativo. Mas não é isso que ocorre. O primeiro caso dessa natureza a ser objeto de observação remonta ao ano de 1881, isto é, à era da “pré-sugestão”. Um caso muito complicado de histeria foi analisado dessa maneira, e os sintomas que decorriam de causas distintas foram distintamente eliminados. Essa observação foi possibilitada por auto-hipnoses espontâneas por parte do paciente, e surgiu com uma grande surpresa para o observador.

Podemos inverter a máxima “cessante causa cessat effectus” |“cessando a causa cessa o efeito”| e concluir dessas observações que o processo determinante continua a atuar, de uma forma ou de outra, durante anos - não indiretamente, através de uma corrente de elos causais intermediários, mas como uma causa diretamente liberadora - da mesma forma que um sofrimento psíquico que é recordado no estado consciente de vigília ainda provoca uma secreção lacrimal muito tempo depois de ocorrido o fato. Os histéricos sofrem principalmente de reminiscências.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

O método do exame, sob hipnose, nos casos de histeria ¨traumática¨ nos ensina que os sintomas são provocados pelo acidente.

Com grande frequência, algum fato da infância que estabelece algum sintoma ou mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.

Há casos em que a conexão causal não é tão simples. Consiste numa relação ¨simbólica¨ entre a causa precipitante e o fenômeno patológico, uma relação que as pessoas saudáveis formam nos sonhos.

Nas neuroses traumáticas a causa da doença é o afeto do susto, o trauma psíquico.

A lembrança sem afeto quase invariavelmente não produz resultado. Os histéricos sofrem de reminiscências.

Com relação à Pulsão Auditiva de Mattanó de 1995 a conexão não é tão simples. Ela consiste numa relação ¨simbólica¨ entre a causa precipitante e o fenômeno patológico, uma relação que as pessoas doentes ou transtornadas formam invariavelmente através da lavagem cerebral sem conseguir discriminar a causa precipitante e nem o fenômeno patológico, já as pessoas saudáveis discriminam a causa precipitante e o fenômeno patológico. Com o progresso ou acúmulo dos traumas pela lavagem cerebral notamos que o indivíduo fica com sua lembrança sem que o afeto seja liberado, produzindo tortura psicológica por acúmulo de traumas nos indivíduos, seja aonde for.

 

MATTANÓ

(09/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura apontamos que o método do exame, sob hipnose, nos casos de histeria ¨traumática¨ nos ensina que os sintomas são provocados pelo acidente.

Com grande frequência, algum fato da infância que estabelece algum sintoma ou mais ou menos grave, que persiste durante os anos subsequentes.

Há casos em que a conexão causal não é tão simples. Consiste numa relação ¨simbólica¨ entre a causa precipitante e o fenômeno patológico, uma relação que as pessoas saudáveis formam nos sonhos.

Nas neuroses traumáticas a causa da doença é o afeto do susto, o trauma psíquico.

A lembrança sem afeto quase invariavelmente não produz resultado. Os histéricos sofrem de reminiscências.

Com relação à Pulsão Auditiva de Mattanó de 1995 a conexão não é tão simples. Ela consiste numa relação ¨simbólica¨ entre a causa precipitante e o fenômeno patológico, uma relação que as pessoas doentes ou transtornadas formam invariavelmente através da lavagem cerebral sem conseguir discriminar a causa precipitante e nem o fenômeno patológico, já as pessoas saudáveis discriminam a causa precipitante e o fenômeno patológico. Com o progresso ou acúmulo dos traumas pela lavagem cerebral notamos que o indivíduo fica com sua lembrança sem que o afeto seja liberado, produzindo tortura psicológica por acúmulo de traumas nos indivíduos, seja aonde for.

Da mesma forma na histeria traumática existe algum acontecimento na infância que persiste nos anos subsequentes, gerando uma relação simbólica ou em pessoas saudáveis, onírica. Já nas neuroses traumáticas o afeto do susto causa a doença e o trauma psíquico, vemos que uma lembrança sem afeto não produz resultado. Os histéricos sofrem de reminiscências. Na lavagem cerebral e na despersonalização provocada pela pulsão auditiva de Mattanó existe uma relação simbólica entre causa precipitante e fenômenos patológico, as pessoas doentes não discriminam estas relações e as pessoas saudáveis conseguem discriminá-las. Com o aumento dos traumas pela lavagem cerebral gera-se a tortura psicológica por acúmulo de traumas que levam a loucura ou a despersonalização, a alienação do indivíduo, podendo gerar tortura física que pode se espalhar para o mundo e a realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua mensagem Profética que gera significados e sentidos para a solução de problemas e adversidades ambientais, inclusive o sofrimento físico e psicológico oriundo da tortura provocada pela lavagem cerebral e pela despersonalização.

 

MATTANÓ

(14/05/2026)

 

 

 

 

 

II

 

À primeira vista parece extraordinário que fatos experimentados há tanto tempo possam continuar a agir de forma tão intensa - que sua lembrança não esteja sujeita ao processo de desgaste a que, afinal de contas, vemos sucumbirem todas as nossas recordações. Talvez as considerações que se seguem possam tornar isso um pouco mais inteligível.

O esmaecimento de uma lembrança ou a perda de seu afeto dependem de vários fatores. O mais importante destes é se houve uma reação energética ao fato capaz de provocar um afeto. Pelo termo “reação” compreendemos aqui toda a classe de reflexos voluntários e involuntários - das lágrimas aos atos de vingança - nos quais, como a experiência nos mostra, os afetos são descarregados. Quando essa reação ocorre em grau suficiente, grande parte do afeto desaparece como resultado. O uso da linguagem comprova esse fato de observação cotidiana com expressões como “desabafar pelo pranto” |“sich ausweinen”| e “desabafar através de um acesso de cólera” |“sich austoben”, literalmente “esvair-se em cólera”|. Quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança. Uma ofensa revidada, mesmo que apenas com palavras, é recordada de modo bem diferente de outra que teve que ser aceita. A linguagem também reconhece essa distinção, em suas conseqüências mentais e físicas; de maneira bem característica, ela descreve uma ofensa sofrida em silêncio como “uma mortificação” |“Kränkung”, literalmente, um “fazer adoecer”|. - A reação da pessoa insultada em relação ao trauma só exerce um efeito inteiramente “catártico” se for uma reação adequada - como, por exemplo, a vingança. Mas a linguagem serve de substituta para a ação; com sua ajuda, um afeto pode ser “ab-reagido” quase com a mesma eficácia. Em outros casos, o próprio falar é o reflexo adequado: quando, por exemplo, essa fala corresponde a um lamento ou é a enunciação de um segredo torturante, por exemplo, uma confissão. Quando não há uma reação desse tipo, seja em ações ou palavras, ou, nos casos mais benignos, por meio de lágrimas, qualquer lembrança do fato preserva sua tonalidade afetiva do início.

A “ab-reação”, contudo, não é o único método de lidar com a situação para uma pessoa normal que tenha experimentado um trauma psíquico. Uma lembrança desse trauma, mesmo que não tenha sido ab-reagida, penetra no grande complexo de associações, entra em confronto com outras experiências que possam contradizê-la, e está sujeita à retificação por outras representações. Depois de um acidente, por exemplo, a lembrança do perigo e a repetição (mitigada) do medo é associada à lembrança do que ocorreu depois - o socorro e a situação consciente da segurança atual. Da mesma forma, a lembrança de uma humilhação é corrigida quando a pessoa situa os fatos no devidos lugares, considerando seu próprio valor, etc. Desse modo, uma pessoa normal é capaz de provocar o desaparecimento do afeto concomitante por meio do processo de associação.

A isso devemos acrescentar a obliteração geral das impressões, o evanescimento das lembranças a que chamamos “esquecimento” e que desgasta as representações não mais afetivamente atuantes.

Nossas observações demonstraram, por outro lado, que as lembranças que se tornaram os determinantes de fenômenos histéricos persistem por longo tempo com surpreendente vigor e com todo o seu colorido afetivo. Devemos, contudo, mencionar outro fato notável do qual posteriormente poderemos tirar proveito, a saber, que essas lembranças, em contraste com outras de sua vida passada, não se acham à disposição do paciente. Pelo contrário, essas experiências estão inteiramente ausentes da lembrança dos pacientes quando em estado psíquico normal, ou só se fazem presentes de forma bastante sumária. Apenas quando o paciente é inquirido sob hipnose é que essas lembranças emergem com a nitidez inalterada de um fato recente.

Assim, durante nada menos de seis meses, uma de nossas pacientes reproduziu sob hipnose, com uma nitidez alucinatória, tudo o que a havia excitado no mesmo dia no ano anterior (durante um ataque de histeria aguda). Um diário mantido por sua mãe sem o conhecimento da paciente provou a inteireza da reprodução |ver em [1]|. Outra paciente, em parte sob hipnose e em parte durante ataques espontâneos, reviveu com clareza alucinatória todos os fatos de uma psicose histérica que experimentara dez anos antes e que havia esquecido, em sua maior parte, até o momento em que ela ressurgiu. Além disso, verificou-se que certas lembranças de importância etiológica que datavam dos quinze aos vinte e cinco anos estavam surpreendentemente intactas e possuíam uma intensidade sensorial notável, e que, ao retornarem, atuaram com toda a força afetiva das experiências novas |ver em [1]-[2]|.

Isso só pode ser explicado pelo fato de que essas lembranças constituem uma exceção em sua relação com todos os processos de desgaste que examinamos atrás. Em outras palavras: parece que essas lembranças correspondem a traumas que não foram suficientemente ab-reagidos; e se penetrarmos mais a fundo nos motivos que impediram isso, encontraremos pelo menos dois grupos de condições sob as quais a reação ao trauma deixa de ocorrer.

No primeiro grupo acham-se os casos em que os pacientes não reagiram a um trauma psíquico porque a natureza do trauma não comportava reação, como no caso da perda obviamente irreparável de um ente querido, ou porque as circunstâncias sociais impossibilitavam uma reação, ou porque se tratava de coisas que o paciente desejava esquecer, e portanto, recalcara intencionalmente do pensamento consciente, inibindo-as e suprimindo-as. São precisamente as coisas aflitivas dessa natureza que, sob hipnose, constatamos serem a base dos fenômenos histéricos (por exemplo, os delírios histéricos de santos e freiras, de mulheres que guardam a castidade e de crianças bem-educadas).

O segundo grupo de condições é determinado, não pelo conteúdo das lembranças, mas pelos estados psíquicos em que o paciente recebeu as experiências em questão, pois encontramos sob hipnose, dentre as causas dos sintomas histéricos, representações que em si mesmas não são importantes, mas cuja persistência se deve ao fato de que se originaram durante a prevalência de afetos gravemente paralisantes, tais como o susto, ou durante estados psíquicos positivamente anormais, como o estado crepuscular semi-hipnótico dos devaneios, a auto-hipnose, etc. Em tais casos, é a natureza dos estados que torna impossível uma reação ao acontecimento.

É claro que ambas as espécies de condições podem estar presentes ao mesmo tempo, e isso de fato ocorre com freqüência. É o que acontece quando um trauma que é atuante por si mesmo ocorre enquanto predomina um afeto gravemente paralisante, ou durante um estado de alteração da consciência. Mas também parece ser verdade que em muitas pessoas um trauma psíquico produz um desses estados anormais, o que, por sua vez, torna a reação impossível.

 

Ambos os grupos de condições, porém, possuem em comum o fato de que os traumas psíquicos que não foram eliminados pela reação também não podem sê-lo pela elaboração por meio da associação. No primeiro grupo, o paciente está decidido a esquecer as experiências aflitivas e, por conseguinte, as exclui tanto quanto possível da associação; já no segundo grupo, a elaboração associativa deixa de ocorrer porque não existe nenhuma vinculação associativa abrangente entre o estado normal da consciência e os estados patológicos em que as representações surgiram. Logo teremos ocasião de nos aprofundarmos nesse assunto.

Assim, pode-se dizer que as representações que se tornaram patológicas persistiram com tal nitidez e intensidade afetiva porque lhes foram negados os processos normais de desgaste por meio da ab-reação e da reprodução em estados de associação não inibida.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança.

A ¨ab-reação¨ não é o único método para lidar com essa situação, outro método é a hipnose. A hipnose torna impossível uma reação ao acontecimento.

Os traumas psíquicos que não foram eliminados pela reação também não podem sê-lo pela elaboração por meio da associação.

Os traumas psíquicos da Pulsão Auditiva de Mattanó de 1995 podem ser combatidos e reelaborados pelo método da resignificação, dando novo significado, novo sentido, recorrendo ao conceito original, percebendo o contexto real e não o ideal e muito menos o animal, analisando a funcionalidade e adotando o comportamento adaptado para se relacionar com o meio ambiente e suas relações.

 

MATTANÓ

(09/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança.

A ¨ab-reação¨ não é o único método para lidar com essa situação, outro método é a hipnose. A hipnose torna impossível uma reação ao acontecimento.

Os traumas psíquicos que não foram eliminados pela reação também não podem sê-lo pela elaboração por meio da associação.

Os traumas psíquicos da Pulsão Auditiva de Mattanó de 1995 podem ser combatidos e reelaborados pelo método da resignificação, dando novo significado, novo sentido, recorrendo ao conceito original, percebendo o contexto real e não o ideal e muito menos o animal, analisando a funcionalidade e adotando o comportamento adaptado para se relacionar com o meio ambiente e suas relações.

Da mesma forma quando a reação é reprimida, o afeto permanece vinculado à lembrança, e somente pela ab-reação e pela hipnose que podemos lidar com essa situação, contudo existem os traumas gerados pelas metáforas e metonímias, ou significados e sentidos das palavras que apenas escutamos e acabamos assimilando e acomodando cognitivamente, para lidar com estes traumas devemos aprender a ressignificar, dar um novo significado e um novo sentido para as nossas palavras e enunciados, isto também se passa no mundo e na realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que surgem como substitutos de uma realidade operante por outra virtual e agora Profética em sua mensagem, que trabalha como metáfora de uma ab-reação, hipnose ou ressignificação.

 

MATTANÓ

(22/05/2026)

 

 

 

 

 

III

 

Mencionamos as condições que, como demonstra nossa experiência, são responsáveis pelo desenvolvimento de fenômenos histéricos provenientes de traumas psíquicos. Ao fazê-lo, já fomos obrigados a falar nos estados anormais de consciência em que surgem essas representações patogênicas e a ressaltar o fato de que a lembrança do trauma psíquico atuante não se encontra na memória normal do paciente, mas em sua memória ao ser hipnotizado. Quanto mais nos ocupamos desses fenômenos, mais nos convencemos de que a divisão da consciência, que é tão marcante nos casos clássicos conhecidos sob a forma de “double conscience”, acha-se presente em grau rudimentar em toda histeria, e que a tendência a tal dissociação, e com ela ao surgimento dos estados anormais da consciência que (reuniremos sob a designação de “hipnóides”), constitui o fenômeno básico dessa neurose. Quanto a esses concordamos com Binet e com os dois Janets, embora não tenhamos tido nenhuma experiência das notáveis descobertas que eles fizeram com pacientes anestésicos.

Gostaríamos de contrabalançar a conhecida tese de que a hipnose é uma histeria artificial com uma outra - a de que a base e condição sine qua non da histeria é a existência de estados hipnóides. Esses estados hipnóides partilham uns com os outros e com a hipnose, por mais que difiram sob outros aspectos, uma característica comum: as representações que neles surgem são muito intensas, mas estão isoladas da comunicação associativa com o restante do conteúdo da consciência. Podem ocorrer associações entre esses estados hipnóides, e seu conteúdo representativo pode, dessa forma, atingir um grau mais ou menos elevado de organização psíquica. Além disso, deve-se supor que a natureza desses estados e a extensão em que ficam isolados dos demais processos da consciência variam do mesmo modo que ocorre na hipnose, que vai desde uma leve sonolência até o sonambulismo, de uma lembrança completa até a amnésia total.

Quando os estados hipnóides dessa natureza já se acham presentes antes da instalação da doença manifesta, eles fornecem o terreno em que o afeto planta a lembrança patogênica com suas conseqüentes manifestações somáticas. Isso corresponde à histeria disposicional. Verificamos, todavia, que um trauma grave (tal como ocorre numa neurose traumática) ou uma supressão trabalhosa (como a de um afeto sexual, por exemplo) podem ocasionar uma divisão expulsiva de grupos de representações mesmo em pessoas que, sob outros aspectos, não estão afetadas; e esse seria o mecanismo da histeria psiquicamente adquirida. Entre os extremos dessas duas formas devemos presumir a existência de uma série de casos dentro dos quais a tendência à dissociação do indivíduo e a magnitude afetiva do trauma variam numa proporção inversa.

Nada temos de novo a dizer sobre a questão da origem desses estados hipnóides disposicionais. Ao que parece, eles freqüentemente emergem dos devaneios que são tão comuns até mesmo nas pessoas sadias e aos quais os trabalhos de costura e ocupações semelhantes tornam as mulheres particularmente propensas. Por que é que as “associações patológicas” surgidas nesses estados são tão estáveis, e por que é que exercem uma influência tão maior sobre os processos somáticos do que costumam fazer as representações, são perguntas que coincidem com o problema geral da eficácia das sugestões hipnóticas. Nossas observações não trazem nenhuma nova contribuição para esse assunto, mas lançam luz sobre a contradição entre a máxima “a histeria é uma psicose” e o fato de que, entre os histéricos, podem-se encontrar pessoas da mais lúcida inteligência, da maior força de vontade, do melhor caráter e da mais alta capacidade crítica. Essa caracterização é válida em relação a seus pensamentos em estado de vigília, mas, em seus estados hipnóides, elas são insanas, como somos todos nos sonhos. Todavia, enquanto nossas psicoses oníricas não exercem nenhum efeito sobre nosso estado de vigília, os produtos dos estados hipnóides intrometem-se na vigília sob a forma de sintomas histéricos.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Os histéricos em seus pensamentos, podem encontrar-se pessoas da mais lúcida inteligência, da mais alta capacidade crítica, da maior força de vontade e do melhor caráter, mas, em seus estados hipnóides, elas são insanas, como somos todos nos sonhos.

Para Mattanó, essas pessoas insanas, como todos nós, nas contingências da Pulsão Auditiva, porém não necessariamente como somos todos nos sonhos, podendo continuar com sua capacidade crítica, inteligência, força de vontade e bom caráter, permanecem insanas, sob lavagem cerebral.

 

MATTANÓ

(10/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura os histéricos em seus pensamentos, podem encontrar-se pessoas da mais lúcida inteligência, da mais alta capacidade crítica, da maior força de vontade e do melhor caráter, mas, em seus estados hipnóides, elas são insanas, como somos todos nos sonhos.

Para Mattanó, essas pessoas insanas, como todos nós, nas contingências da Pulsão Auditiva, porém não necessariamente como somos todos nos sonhos, podendo continuar com sua capacidade crítica, inteligência, força de vontade e bom caráter, permanecem insanas, sob lavagem cerebral.

Da mesma forma tornam-mo-nos insanos diante do mundo e da realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética quando adotamos a hipnose, os sonhos, a telepatia, a paranormalidade e a lavagem cerebral através das contingências da Pulsão Auditiva de Mattanó.

 

MATTANÓ

(22/05/2026)

 

 

 

 

 

IV

 

O que afirmamos sobre os sintomas histéricos crônicos pode ser aplicado quase que integralmente aos ataques histéricos. Charcot, como se sabe, deu-nos uma descrição esquemática do “grande” ataque histérico, segundo a qual se podem distinguir quatro fases num ataque completo: (1) a fase epileptóide, (2) a fase dos movimentos amplos, (3) a fase das “atittudes passionnelles” (fase alucinatória) e (4) a fase de delírio terminal. Charcot deduz todas as formas de ataque histérico que, na prática, são encontradas com maior freqüência do que o “grande attaque” completo, a partir da abreviação ou do prolongamento, da ausência ou do isolamento dessas quatro fases distintas.

Nossa tentativa de explicação tem como ponto de partida a terceira dessas fases, a das “atittudes passionnelles”. Quando esta se acha presente numa forma bem acentuada, ela apresenta a reprodução alucinatória de uma lembrança que foi importante no desencadeamento da histeria - a lembrança de um grande trauma isolado (que encontramos par excellence no que é denominado histeria traumática) ou de uma série de traumas parciais interligados (como os subjacentes à histeria comum). Ou, finalmente, o ataque pode reviver os fatos que se tornaram relevantes em virtude de sua coincidência com um momento de predisposição especial ao trauma.

Entretanto, há também ataques que parecem consistir exclusivamente em fenômenos motores e nos quais a fase de atittudes passionnelles se acha ausente. Quando se consegue entrar em rapport com o paciente durante um ataque como esse, de espasmos clônicos generalizados ou rigidez cataléptica, ou durante um attaque de sommeil |acesso de sono| - ou quando, melhor ainda, se consegue provocar o acesso sob hipnose - verifica-se que também aqui há uma lembrança subjacente do trauma psíquico ou da série de traumas, que, de modo geral, chama nossa atenção numa fase alucinatória.

Dessa forma, durante anos, uma menina sofreu ataques de convulsões generalizadas que poderiam ser, e realmente foram, considerados como epilépticos. Ela foi hipnotizada com vistas a um diagnóstico diferencial, e de imediato teve um de seus acessos. Perguntaram-lhe o que estava vendo e ela respondeu: “O cachorro! O cachorro está vindo!”; e de fato verificou-se que tivera o primeiro de seus ataques após ter sido perseguida por um cão feroz. O êxito do tratamento confirmou o diagnóstico.

Por sua vez, um funcionário que ficara histérico em decorrência de ser maltratado por seu superior sofria de ataques em que caía no chão e tinha acessos de raiva, mas sem dizer uma só palavra ou demonstrar qualquer sinal de alucinação. Foi possível provocar um ataque sob hipnose, e o paciente então revelou estar revivendo a cena em que seu patrão o insultara na rua e batera nele com a bengala. Dias depois o paciente voltou e queixou-se de ter tido outro ataque da mesma natureza. Nessa ocasião, verificou-se sob hipnose que ele estivera revivendo a cena com que estava relacionada a instalação real da doença: a cena no tribunal em que ele não conseguira obter reparação pelas injúrias sofridas.

Também em todos os demais aspectos as lembranças que emergem ou podem ser provocadas nos ataques histéricos correspondem às causas desencadeadoras que temos encontrado na raiz dos sintomas histéricos crônicos. Tais como estas últimas causas, as lembranças subjacentes aos ataques histéricos relacionam-se com traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela atividade associativa do pensamento. À semelhança delas, estas estão, quer inteiramente, quer em seus elementos essenciais, fora do alcance da lembrança da consciência normal, e mostram pertencer ao conteúdo representativo dos estados hipnóides de consciência, com associação restrita. Por fim, também o teste terapêutico pode ser aplicado a elas. Nossas observações nos têm com freqüência ensinado que uma recordação dessa espécie, que até então havia provocado ataques, deixa de ser capaz de fazê-lo depois que os processos de reação e de correção associativa são a ela aplicados sob hipnose.

Os fenômenos motores dos ataques histéricos podem ser parcialmente interpretados como formas universais de reação apropriadas ao afeto que acompanha a lembrança (tais como espernear e agitar os braços e pernas, o que até mesmo os bebês de tenra idade fazem), e em parte como uma expressão direta dessas lembranças; mas em parte, como no caso dos estigmas histéricos verificados entre os sintomas crônicos, não podem ser explicadas dessa maneira.

Os ataques histéricos, além disso, são especialmente interessantes se tivermos em mente uma teoria que mencionamos atrás, a saber, que na histeria certos grupos de representações que se originam nos estados hipnóides estão presentes e são isolados da ligação associativa com as outras representações, mas podem associar-se entre si, formando assim o rudimento mais ou menos altamente organizado de uma segunda consciência, uma condition seconde. Se assim for, um sintoma histérico crônico corresponderá à intrusão desse segundo estado na inervação somática, que, em geral, se acha sob o controle da consciência normal. O ataque histérico, por outro lado, é prova de uma organização mais elevada desse segundo estado. Quando o ataque surge pela primeira vez, indica um momento em que essa consciência hipnóide adquiriu controle sobre toda a existência do indivíduo - indica, em outras palavras, uma histeria aguda; quando ocorre em ocasiões subseqüentes e contém uma lembrança, indica um retorno daquele momento. Charcot já sugeriu que os ataques histéricos constituem uma forma rudimentar de uma condition seconde. Durante o ataque, o controle sobre toda a inervação somática passa para a consciência hipnóide. A consciência normal, como o demonstram observações bem conhecidas, nem sempre é inteiramente recalcada. Ela pode até mesmo perceber os fenômenos motores do ataque, enquanto os fatos psíquicos concomitantes ficam fora de seu conhecimento.

O curso característico de um caso grave de histeria é, como sabemos, o seguinte: de início, forma-se um conteúdo representativo durante os estados hipnóides; quando esse conteúdo aumenta de forma suficiente, ele assume o controle, durante um período de “histeria aguda”, da inervação somática e de toda a existência do paciente, criando sintomas crônicos e ataques; depois disso, desaparece, a não ser por certos resíduos. Quando a personalidade normal consegue recuperar o controle, o que resta do conteúdo representativo hipnóide reaparece em ataques histéricos e, de tempos em tempos, leva o sujeito de volta a estados semelhantes, eles próprios novamente influenciáveis a traumas. Um estado de equilíbrio, por assim dizer, pode então ser estabelecido entre os dois grupos psíquicos que se combinam na mesma pessoa: os ataques histéricos e a vida normal prosseguem lado a lado sem que um interfira no outro. O ataque ocorre de modo espontâneo, como fazem as lembranças nas pessoas normais; contudo, é possível provocá-lo, do mesmo modo que qualquer lembrança pode ser suscitada de acordo com as leis da associação. Pode-se provocá-lo, quer pela estimulação de uma zona histerogênica, quer por uma nova experiência que o desencadeia graças a uma semelhança com a experiência patogênica. Esperamos poder demonstrar que essas duas espécies de determinantes, embora pareçam tão diferentes, não diferem quanto aos pontos essenciais, mas que em ambas uma lembrança hiperestésica é evocada.

Em outros casos esse equilíbrio é muito instável. O ataque surge como manifestação do resíduo da consciência hipnóide sempre que a personalidade está esgotada e incapacitada. Não se pode afastar a possibilidade de que, nessa situação, o ataque tenha sido despojado de seu significado original e esteja recorrendo como uma reação motora sem qualquer conteúdo.

Cabe a uma pesquisa ulterior descobrir o que é que determina se uma personalidade histérica se manifestará em ataques, em sintomas crônicos ou numa mistura de ambos.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Os ataques histéricos relacionam-se com traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela atividade associativa do pensamento.

Os ataques da lavagem cerebral e da telepatia caracterizados por agitação, gritaria, voz alta, descontrole, autoagressão, automutilação, violência física e verbal, violência sexual e moral, relacionam-se com traumas psíquicos, que pela ab-reação e pela atividade associativa do pensamento e da linguagem (da fala e da escuta pelo outro) diminuem e até extinguem os ataques da lavagem cerebral e da telepatia, pois permitem sua reelaboração psíquica e afetiva, reorganizando a mente e o comportamento do indivíduo, contudo, torna-se necessária a interpretação psicológica dos eventos para a resignificação efetiva dos significados, sentidos, conceitos, contextos, funcionalidades e comportamentos.

 

MATTANÓ

(10/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura os ataques histéricos relacionam-se com traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela atividade associativa do pensamento.

Os ataques da lavagem cerebral e da telepatia caracterizados por agitação, gritaria, voz alta, descontrole, autoagressão, automutilação, violência física e verbal, violência sexual e moral, relacionam-se com traumas psíquicos, que pela ab-reação e pela atividade associativa do pensamento e da linguagem (da fala e da escuta pelo outro) diminuem e até extinguem os ataques da lavagem cerebral e da telepatia, pois permitem sua reelaboração psíquica e afetiva, reorganizando a mente e o comportamento do indivíduo, contudo, torna-se necessária a interpretação psicológica dos eventos para a resignificação efetiva dos significados, sentidos, conceitos, contextos, funcionalidades e comportamentos.

Da mesma forma os ataques histéricos relacionam-se com os traumas psíquicos que não foram eliminados pela ab-reação ou pela associação do pensamento. Assim os ataques oriundos da lavagem cerebral e da telepatia tem sua origem nos ataques histéricos que relacionam-se com traumas psíquicos ainda não eliminados pela ab-reação ou pela associação do pensamento, até pelo mundo e pela realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que passa a ter valor de conteúdo inconsciente traumático nos casos de ataques histéricos que se relacionam com traumas psíquicos que não são elaborados pela ab-reação e nem pela associação do pensamento.

 

MATTANÓ

(22/05/2026)

 

 

 

 

V

 

Agora poderá ficar claro por que o método psicoterápico que descrevemos nestas páginas tem um efeito curativo. Ele põe termo à força atuante da representação que não fora ab-reagida no primeiro momento, ao permitir que seu afeto estrangulado encontre uma saída através da fala; e submete essa representação à correção associativa, ao introduzi-la na consciência normal (sob hipnose leve) ou eliminá-la por sugestão do médico, como se faz no sonambulismo acompanhado de amnésia.

Em nossa opinião, as vantagens terapêuticas desse método são consideráveis. Naturalmente, é verdade que não curamos a histeria na medida em que ela dependa de fatores disposicionais. Nada podemos fazer contra a recorrência dos estados hipnóides. Além disso, durante a fase produtiva de uma histeria aguda, nosso método não pode impedir que os fenômenos tão laboriosamente eliminados sejam imediatamente substituídos por outros. Tão logo passa essa fase aguda, porém, quaisquer resíduos que possam ter ficado sob a forma de sintomas crônicos ou ataques costumam ser removidos de forma permanente por nosso método, porque ele é radical; e nesse sentido ele nos parece muito superior em sua eficácia à remoção através da sugestão direta, tal como é hoje praticada pelos psicoterapeutas.

Se, ao descobrirmos o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, demos um passo à frente na trilha inicialmente aberta com tanto êxito por Charcot, com sua explicação e sua imitação artificial das paralisias hístero-traumáticas, não podemos ocultar de nós mesmos que isso só nos aproximou um pouco mais da compreensão do mecanismo dos sintomas histéricos, e não das causas internas da histeria. Não fizemos mais do que tocar de leve na etiologia da histeria e, a rigor, só conseguimos lançar luz sobre suas formas adquiridas - sobre a importância dos fatores acidentais nessa neurose.

 

VIENA, dezembro de 1892

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

O método psicoterápico proposto por Freud tem um efeito curativo. Ele põe à termo à força atuante da representação que não fora ab-reagida no primeiro momento, ao permitir que seu afeto estrangulado encontre uma saída através da fala, e submete essa representação à correção associativa ou eliminá-la por sugestão do médico.

 

MATTANÓ

(10/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura o método psicoterápico proposto por Freud tem um efeito curativo. Ele põe à termo à força atuante da representação que não fora ab-reagida no primeiro momento, ao permitir que seu afeto estrangulado encontre uma saída através da fala, e submete essa representação à correção associativa ou eliminá-la por sugestão do médico. Da mesma maneira o método psicoterápico de Freud possui um efeito curativo, pois através da fala acaba submetendo a representação à correção associativa ou a sua eliminação pela sugestão do médico, quando abordamos o mundo e a realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que substitui a realidade operante pela virtual, com seus significados e sentidos que muitas vezes decorrem da sugestão do médico ou psicólogo.

 

MATTANÓ

(13/06/2026)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

II - CASOS CLÍNICOS

(BREUER E FREUD)

 

 

CASO 1 - SRTA. ANNA O. (BREUER)

 

Na ocasião em que adoeceu (em 1880), a Srta. Anna O. contava vinte e um anos de idade. Pode-se considerar que era portadora de uma hereditariedade neuropática moderadamente grave, visto que algumas psicoses haviam ocorrido entre seus parentes mais distantes. Seus pais eram normais nesse aspecto. A própria paciente fora sempre saudável até então e não havia mostrado nenhum sinal de neurose durante seu período de crescimento. Era dotada de grande inteligência e aprendia as coisas com impressionante rapidez e intuição aguçada. Possuía um intelecto poderoso, que teria sido capaz de assimilar um sólido acervo mental e que dele necessitava - embora não o recebesse desde que saíra da escola. Anna tinha grandes dotes poéticos e imaginativos, que estavam sob o controle de um agudo e crítico bom senso. Graças a esta última qualidade, ela era inteiramente não sugestionável, sendo influenciada apenas por argumentos e nunca por meras asserções. Sua força de vontade era vigorosa, tenaz e persistente; algumas vezes, chegava ao extremo da obstinação, que só cedia pela bondade e consideração para com as outras pessoas.

Um de seus traços de caráter essenciais era a generosa solidariedade. Mesmo durante a doença, pôde ajudar muito a si mesma por ter conseguido cuidar de grande número de pessoas pobres e enfermas, pois assim satisfazia a um poderoso instinto. Seus estados de espírito sempre tenderam para um leve exagero, tanto na alegria como na tristeza; por conseguinte, era às vezes sujeita a oscilações de humor. A noção da sexualidade era surpreendentemente não desenvolvida nela. A paciente, cuja vida se tornou conhecida por mim num grau em que raras vezes a vida de uma pessoa é conhecida de outra, nunca se apaixonara; e em todo o imenso número de alucinações que ocorreram durante sua doença a noção da sexualidade nunca emergiu.

Essa moça, cheia de vitalidade intelectual, levava uma vida extremamente monótona no ambiente de sua família de mentalidade puritana. Embelezava sua vida de um modo que provavelmente a influenciou de maneira decisiva em direção à doença, entregando-se a devaneios sistemáticos que descrevia como seu “teatro particular”. Enquanto todos pensavam que ela estava prestando atenção, ela se imaginava vivendo contos de fada; mas estava sempre alerta quando lhe dirigiam a palavra, de modo que ninguém se dava conta de seu estado. Exercia essa atividade de modo quase ininterrupto enquanto se ocupava de seus afazeres domésticos, dos quais se desincumbia de forma irrepreensível. Terei a seguir que descrever a maneira pela qual esses devaneios habituais, no período em que ela estava com saúde, foram-se convertendo gradativamente em doença.

O curso da doença enquadrou-se em várias fases nitidamente separáveis:

(A)Incubação latente. De meados de julho até cerca de 10 de dezembro de 1880. Essa fase da doença costuma ficar omissa para nós; mas, nesse caso, graças a seu caráter peculiar, foi-nos completamente acessível; esse fato, por si só, traz um apreciável interesse patológico para o caso. Descreverei esta fase em seguida.

(B)A doença manifesta. Uma psicose de natureza peculiar, com parafasia, estrabismo convergente, graves perturbações da visão, paralisias (sob a forma de contraturas) completa na extremidade superior direita e em ambas as extremidades inferiores, e parcial na extremidade superior esquerda, e paresia dos músculos do pescoço. Redução gradual da contratura nas extremidades da mão direita. Alguma melhora, interrompida por um grave trauma psíquico (a morte do pai da paciente) em abril, depois do que se seguiram:

(C)Um período de sonambulismo persistente, alternando-se subseqüentemente com estados mais normais. Grande número de sintomas crônicos perduraram até dezembro de 1881.

(D)Cessação gradual dos estados e sintomas patológicos até junho de 1882.

Em julho de 1880, o pai da paciente, a quem ela era extremamente afeiçoada, adoeceu de um abscesso peripleurítico que não sarou e do qual veio a morrer em abril de 1881. Durante os primeiros meses da doença, Anna dedicou todas as suas energias a cuidar do pai, e ninguém ficou muito surpreso quando, pouco a pouco, sua própria saúde foi-se deteriorando de forma acentuada. Ninguém, talvez nem mesmo a própria paciente, sabia o que lhe estava acontecendo; mas afinal, o estado de debilidade, anemia e aversão pelos alimentos se agravou a tal ponto que, para seu grande pesar, não lhe permitiram mais que continuasse a cuidar do paciente. A causa imediata dessa proibição foi uma tosse muito intensa, razão pela qual a examinei pela primeira vez. Era uma tussis nervosa típica. Anna logo começou a mostrar uma pronunciada necessidade de repouso durante a tarde, continuada, ao anoitecer, por um estado semelhante a sono e, a seguir, por uma condição de intensa excitação.

No início de dezembro apareceu um estrabismo convergente. Um oftalmologista o explicou (erroneamente) como decorrente da paresia de um dos abdutores. Em 11 de dezembro a paciente caiu de cama e assim permaneceu até 1º de abril.

Surgiu em rápida sucessão uma série de perturbações graves que eram aparentemente novas: dor de cabeça occipital esquerda; estrabismo convergente (diplopia), acentuadamente aumentado pela excitação; queixas de que as paredes do quarto pareciam estar vindo abaixo (afecção do nervo oblíquo); perturbações da visão difíceis de ser analisadas; paresia dos músculos anteriores do pescoço, de modo que, afinal, a paciente só conseguia mover a cabeça pressionando-a para trás entre os ombros erguidos e movendo as costas inteiramente; contratura e anestesia da extremidade superior direita e, depois de certo tempo, da extremidade inferior direita. Esta última sofreu total extensão, adução e rotação para dentro. Posteriormente, surgiu o mesmo sintoma na extremidade inferior esquerda e, por fim, no braço esquerdo, cujos dedos, contudo conservaram até certo ponto a capacidade de movimento. De igual modo, também não havia uma rigidez completa nas articulações do ombro. A contratura atingiu seu ponto máximo nos músculos dos braços. Da mesma forma, a região dos cotovelos revelou-se a mais atingida pela anestesia quando, num estágio posterior, tornou-se possível fazer um exame mais cuidadoso da sensibilidade. No início da doença a anestesia não pôde ser testada de modo eficiente em virtude da resistência da paciente em decorrência de sentimentos de angústia.

Foi enquanto a paciente se achava nesse estado que comecei a tratá-la, havendo logo reconhecido a gravidade da perturbação psíquica com que teria de lidar. Havia dois estados de consciência inteiramente distintos, que se alternavam, de modo freqüente e súbito e que se tornaram cada vez mais diferenciados no curso da doença. Num desses estados ela reconhecia seu ambiente; ficava melancólica e angustiada, mas relativamente normal. No outro, tinha alucinações e ficava “travessa” - isto é, agressiva, e jogava almofadas nas pessoas, tanto quanto o permitiam as contraturas, arrancava botões da roupa de cama e de suas roupas com os dedos que conseguia movimentar, e assim por diante. Nesse estágio da doença, se alguma coisa tivesse sido tirada do lugar no quarto ou alguém tivesse entrado ou saído dele |durante seu outro estado de consciência|, ela se queixava de haver “perdido” tempo e tecia comentários sobre as lacunas na seqüência de seus pensamentos conscientes. Visto que as pessoas que a cercavam tentavam negar isso e confortá-la quando ela se queixava de estar ficando louca, Anna, depois de jogar os travesseiros, acusava as pessoas de fazerem coisas contra ela e de a deixarem num estado de confusão, etc.

Essas “absences” já tinham sido observadas antes de ela cair de cama; costumava parar no meio de uma frase, repetir as últimas palavras e, depois de uma breve pausa, continuar a falar. Essas interrupções aumentaram de forma gradual até atingirem as dimensões que acabam de ser descritas; e no auge da doença, quando as contraturas se haviam estendido até o lado esquerdo do corpo, só durante um curto período do dia é que ela apresentava certo grau de normalidade. Mas as perturbações invadiram até mesmo seus momentos de consciência relativamente clara. Haveria modificações muitíssimo rápidas de humor, que levavam a uma fase de animação intensa, mas bastante passageira, e em outras ocasiões havia uma angústia acentuada, uma oposição tenaz a qualquer esforço terapêutico e alucinações assustadoras com cobras negras, que eram a maneira como Anna via seus cabelos, fitas e coisas semelhantes. Ao mesmo tempo, ficava dizendo a si mesma para deixar de ser tão tola: o que na verdade via eram apenas seus cabelos, etc. Em certos momentos, quando sua mente estava inteiramente lúcida, queixava-se da profunda escuridão na cabeça, de não conseguir pensar, de ficar cega e surda, de ter dois eus, um real e um mau, que a forçava a comportar-se mal, e assim por diante.

Às tardes caía num estado de sonolência que durava até cerca de uma hora depois do pôr-do-sol. Então despertava e se queixava de que algo a estava atormentando - ou melhor, ficava a repetir na forma impessoal: “atormentando, atormentando”, e isso porque, paralelamente ao desenvolvimento das contraturas, surgiu uma profunda desorganização funcional da fala. A princípio, ficou claro que ela sentia dificuldade de encontrar as palavras, e essa dificuldade foi aumentando de maneira gradativa. Posteriormente, ela perdeu o domínio da gramática e da sintaxe; não mais conjugava verbos e acabou por empregar apenas os infinitivos, em sua maioria formados incorretamente a partir dos particípios passados, e omitia tanto o artigo definido quanto o indefinido. Com o passar do tempo, ficou quase totalmente desprovida de palavras. Juntava-as penosamente a partir de quatro ou cinco idiomas e tornou-se quase ininteligível. Quando tentava escrever (até que as contraturas a impediram totalmente de fazê-lo), empregava o mesmo jargão. Durante duas semanas emudeceu por completo e, apesar de envidar grandes e contínuos esforços, foi incapaz de emitir uma única sílaba. E então, pela primeira vez, o mecanismo psíquico do distúrbio ficou claro. Como eu sabia, ela se sentira extremamente ofendida com alguma coisa e tomara a deliberação de não falar a esse respeito. Quando adivinhei isso e a obriguei a falar sobre o assunto, a inibição, que também tornara impossível qualquer outra forma de expressão, desapareceu.

Essa mudança coincidiu com a volta da capacidade de movimento das extremidades do lado esquerdo do corpo, em março de 1881. A parafasia regrediu, mas daí por diante ela passou a falar apenas inglês - só que, aparentemente, sem saber que o estava fazendo. Tinha discussões com a enfermeira, que, como é lógico, não conseguia entendê-la. Só alguns meses depois é que pude convencê-la de que estava falando inglês. Não obstante, ela própria ainda compreendia as pessoas a seu redor que falavam alemão. Só em momentos de extrema ansiedade é que sua capacidade de falar a abandonava por completo, ou então ela utilizava uma mistura de toda sorte de línguas. Às vezes, quando se encontrava em seu melhor estado e com a máxima liberdade, falava francês e italiano. Havia uma amnésia total entre essas ocasiões e aquelas em que falava inglês. Também nessa época seu estrabismo começou a diminuir e passou a se apresentar apenas nos momentos de grande excitação. Ela voltou a conseguir sustentar a cabeça. No dia 1º de abril, levantou-se pela primeira vez.

No dia 5 de abril morreu seu adorado pai. Durante a doença da paciente ela o vira muito raramente e por períodos curtos. Esse foi talvez o trauma psíquico mais grave que ela poderia ter experimentado. Uma violenta explosão de excitação foi acompanhada de um profundo estupor, que durou cerca de dois dias e do qual ela emergiu num estado acentuadamente modificado. No começo, ficou muito mais tranqüila e seus sentimentos de angústia tiveram uma redução considerável. A contratura do braço e perna direitos persistiu, bem como a anestesia de ambos, embora esta não fosse profunda. Houve um alto grau de restrição do campo visual: num buquê de flores que lhe proporcionou muito prazer, só pôde ver uma flor de cada vez. Queixava-se de não conseguir reconhecer as pessoas. Normalmente, dizia, fora capaz de reconhecer os rostos sem ter de fazer nenhum esforço deliberado; agora era obrigada a fazer um laborioso“recognizing work” e tinha que dizer a si mesma: “o nariz dessa pessoa é assim e assim e o cabelo é assim ou assado, de modo que deve ser fulano”. Todas as pessoas que via pareciam figuras de cera, sem qualquer ligação com ela. Achava muito aflitiva a presença de alguns de seus parentes próximos, e essa atitude negativa foi-se acentuando cada vez mais. Quando alguém a quem comumente via com prazer entrava no quarto, ela o reconhecia e ficava consciente das coisas por um curto espaço de tempo, mas logo mergulhava de novo em suas elucubrações, e o visitante se apagava. Eu era a única pessoa que ela sempre reconhecia quando entrava; enquanto eu conversava com ela, a paciente permanecia animada e em contato com as coisas exceto pelas súbitas interrupções causadas por uma de suas “absences” alucinatórias.

Nesses momentos, só falava inglês e não conseguia compreender o que lhe diziam em alemão. Os que a cercavam eram obrigados a dirigir-lhe a palavra em inglês, e até a enfermeira aprendeu, até certo ponto, a se fazer entender dessa maneira. Anna, porém, conseguia ler em francês e italiano. Se tivesse que ler uma dessas línguas em voz alta, o que produzia, com extraordinária fluência, era uma admirável tradução improvisada do inglês.

Ela recomeçou a escrever, mas de maneira peculiar. Escrevia com a mão esquerda, a menos rígida, e empregava letras de forma romanas, copiando o alfabeto da sua edição de Shakespeare.

Anteriormente, ela costumava comer muito pouco, mas agora recusava qualquer alimento. Entretanto, permitiu-me que a alimentasse, de modo que logo começou a se alimentar mais. Mas nunca consentia em comer pão. Após a refeição, lavava invariavelmente a boca, e o fazia até mesmo quando, por qualquer motivo, nada era comido - o que indica como era distraída a respeito dessas coisas.

Seus estados de sonolência à tarde e seu sono profundo depois do crepúsculo persistiram. Quando, depois disso, ela se havia esgotado de tanto falar (terei que explicar depois o que quero dizer com isso), ficava com a mente clara, calma e alegre.

Esse estado relativamente tolerável não durou muito. Cerca de dez dias após a morte do pai, chamou-se um médico para opinar sobre o caso, a quem, como fazia com todos os estranhos, ela ignorou inteiramente enquanto eu demonstrava a ele todas as peculiaridades da paciente. “That’s like an examination”, disse ela a rir quando fiz com que lesse em inglês, em voz alta, um texto escrito em francês. O outro médico interveio na conversa e tentou atrair-lhe a atenção, mas foi inútil. Era uma autêntica “alucinação negativa” do tipo que, desde então, vem sendo produzida com freqüência em caráter experimental. No fim, ele conseguiu romper a alucinação ao soprar fumaça no rosto da paciente. De súbito, ela viu diante de si um estranho, precipitou-se para a porta a fim de retirar a chave e caiu no chão, inconsciente. Seguiu-se um breve acesso de raiva e depois uma grave crise de angústia, que tive grande dificuldade em acalmar. Infelizmente, tive que sair de Viena naquela noite e, ao retornar, passados vários dias, encontrei a paciente muito pior. Ela ficara sem qualquer alimentação durante todo aquele tempo, estava extremamente angustiada e, em suas absences alucinatórias, via figuras aterradoras, caveiras e esqueletos. Dado que se comportava diante dessas coisas como se as estivesse vivenciando e em parte as traduzia em palavras, as pessoas em torno dela ficaram amplamente cientes do conteúdo dessas alucinações.

A ordem habitual das coisas era: o estado sonolento à tarde, seguido, após o pôr-do-sol, pela hipnose profunda, para a qual ela inventou o nome técnico de “clouds”. Quando, durante a hipnose, ela conseguia narrar as alucinações que tivera no decorrer do dia, despertava com a mente desanuviada, calma e alegre. Sentava-se para trabalhar e escrever ou desenhar até altas horas da noite, de maneira bem racional. Por volta das quatro horas ia deitar-se. No dia seguinte, toda a série de fatos se repetia. Era um contraste realmente notável: durante o dia, a paciente irresponsável, perseguida por alucinações, e à noite a moça com a mente inteiramente lúcida.

Apesar de sua euforia noturna, seu estado psíquico continuava a se deteriorar. Surgiram fortes impulsos suicidas, que tornaram desaconselhável que ela permanecesse morando no terceiro andar. Contra sua vontade, portanto, foi transferida para uma casa de campo nas imediações de Viena (em 7 de junho de 1881). Eu nunca a havia ameaçado com essa mudança de seu lar, que ela encarava com horror, mas ela, sem o dizer, havia esperado e temido tal medida. Esse fato deixou claro, mais uma vez, até que ponto o afeto de angústia dominava seu distúrbio psíquico. Assim como se havia instalado um estado de maior tranqüilidade logo após a morte do pai da paciente, também agora, quando o que ela temia de fato ocorreu, de novo ela ficou mais calma. Não obstante, a mudança foi imediatamente seguida por três dias e três noites sem qualquer sono e sem alimento, por numerosas tentativas de suicídio (embora, como Anna ficasse num jardim, tais tentativas não fossem perigosas), pela quebra de janelas e assim por diante, e por alucinações não acompanhadas de absences - que ela era capaz de distinguir facilmente de suas outras alucinações. Depois disso, ficou mais calma, passou a deixar que a enfermeira a alimentasse e chegou até a tomar cloral à noite.

 

Antes de prosseguir em meu relato do caso, preciso voltar mais uma vez para descrever uma de suas peculiaridades, que até agora só mencionei de passagem. Já disse que ao longo de toda a doença, até esse ponto, a paciente caía num estado de sonolência todas as tardes, e que, após o pôr-do-sol, esse período passava para um sono mais profundo - “clouds”. (Parece plausível atribuir essa seqüência regular dos acontecimentos apenas à experiência dela enquanto cuidava do pai, o que teve de fazer por vários meses. Durante as noites, ela velava à cabeceira do paciente ou ficava acordada, escutando ansiosamente até amanhecer; às tardes, deitava-se para um ligeiro repouso, como é o costume habitual das enfermeiras. Esse padrão de ficar acordada à noite e dormir à tarde parece ter sido transposto para sua própria doença e persistido muito depois de o sono ter sido substituído por um estado hipnótico.) Após cerca de uma hora de sono profundo, ela ficava irrequieta, virava de um lado para outro e repetia “atormentando, atormentando”, com os olhos fechados o tempo todo. Também se observou como, durante suas absences diuturnas, ela obviamente criava alguma situação ou episódio para o qual dava uma pista murmurando algumas palavras. Acontecia então - de início por acaso, mas depois a propósito - que alguém perto dela repetia uma dessas suas frases enquanto ela se queixava do “atormentando”. Ela imediatamente fazia coro e começava a retratar alguma situação ou a narrar alguma história, a princípio com hesitação e no seu jargão parafásico; mas, quanto mais se estendia, mais fluente se tornava, até que por fim falava um alemão bem fluente. (Isso se aplica ao período inicial, antes que começasse a falar somente em inglês |ver em [1]|.) As histórias eram sempre tristes, e algumas delas, encantadoras, no estilo do Álbum de Figuras sem Figuras, de Hans Andersen, e de fato é provável que se estruturassem sobre aquele modelo. Via de regra, seu ponto de partida ou situação central era o de uma moça ansiosamente sentada à cabeceira de um doente. Mas ela também construía suas histórias com outros temas bem diversos. - Alguns momentos depois de haver concluído a narrativa, ela despertava, obviamente acalmada, ou, como dizia, “gehaeglich”. Durante a noite, tornava a ficar irrequieta, e pela manhã, após algumas horas de sono, estava visivelmente envolvida em algum outro grupo de representações. - Quando, por qualquer motivo, não podia narrar-me a história durante a hipnose do anoitecer, não conseguia acalmar-se depois, e no dia seguinte tinha que me contar duas histórias para que isso acontecesse.

As características essenciais desse fenômeno - o aumento e a intensificação de suas absences até sua auto-hipnose do anoitecer, o efeito dos produtos de sua imaginação como estímulos psíquicos e o afrouxamento e a remoção de seu estado de estimulação quando os expressava verbalmente em sua hipnose - permaneceram constantes durante todos os dezoito meses em que a paciente ficou em observação.

As histórias naturalmente se tornaram ainda mais trágicas após a morte do pai. Contudo, foi só depois da deterioração do estado mental da paciente, o que se seguiu quando seu estado de sonambulismo sofreu uma interrupção abrupta, da maneira já descrita, que suas narrativas do anoitecer deixaram de ter o caráter de composições poéticas, criadas de forma mais ou menos livre, e se transformaram numa cadeia de alucinações medonhas e apavorantes. (Já era possível chegar a elas a partir do comportamento da paciente durante o dia). Já descrevi | [1]-[2]| como sua mente ficava inteiramente aliviada depois que, trêmula de medo e horror, havia reproduzido essas imagens assustadoras e dado expressão verbal a elas.

 

Enquanto Anna ficou no campo, ocasião em que não pude fazer-lhe as visitas diárias, a situação processou-se da seguinte maneira. Visitava-a à tardinha, quando sabia que a encontraria em hipnose, e então a aliviava de toda a carga de produtos imaginativos que ela havia acumulado desde minha última visita. Era essencial que isso fosse feito de forma completa se se quisesse alcançar bons resultados. Quando isso era levado a efeito, ela ficava perfeitamente calma e, no dia seguinte, mostrava-se agradável, fácil de lidar, diligente e até mesmo alegre; no segundo dia, porém, tornava-se cada vez mais mal-humorada, voluntariosa e desagradável, o que se acentuava ainda mais no terceiro dia. Quando ficava assim, nem sempre era fácil fazê-la falar, mesmo em seu estado hipnótico. Ela descrevia de modo apropriado esse método, falando a sério, como uma “talking cure, ao mesmo tempo em que se referia a ele, em tom de brincadeira, como “chimney-sweeping”. A paciente sabia que, depois que houvesse dado expressão a suas alucinações, perderia toda a sua obstinação e aquilo que descrevia como sua “energia”; e quando, após um intervalo relativamente longo, ficava de mau humor, recusava-se a falar, sendo eu obrigado a superar sua falta de disposição encarecendo e suplicando, e até usando recursos como repetir uma fórmula com a qual ela estava habituada a iniciar suas histórias. Mas ela jamais começava a falar antes de haver confirmado plenamente minha identidade, apalpando-me as mãos com cuidado. Nas noites em que não se acalmava pela enunciação verbal, era necessário recorrer novamente ao cloral. Eu já o havia experimentado em algumas ocasiões anteriores, mas vi-me obrigado a aplicar-lhe 5 gramas, sendo o sono precedido por um estado de intoxicação que durava algumas horas. Quando me achava presente, esse estado era de euforia, mas em minha ausência era altamente desagradável e caracterizado por angústia e excitação. (Pode-se observar, a propósito, que esse estado de intoxicação aguda não fazia nenhuma diferença quanto a suas contraturas.) Eu havia conseguido evitar o uso de narcóticos, visto que a expressão verbal de suas alucinações a tranqüilizava, ainda que não induzisse ao sono; entretanto, quando ela estava no campo, as noites em que não conseguia alívio hipnótico eram tão insuportáveis que, apesar de tudo, era necessário recorrer ao cloral. Mas foi possível reduzir a dose, de forma gradual.

O sonambulismo persistente não reapareceu, mas, por outro lado, a alternância entre os dois estados de consciência perdurou. Ela costumava ter alucinações no meio de uma conversa, sair correndo, subir numa árvore, etc. Quando alguém a agarrava, com grande rapidez retomava a frase interrompida, sem tomar nenhum conhecimento do que acontecera no intervalo. Todas essas alucinações, contudo, sobrevinham e eram relatadas em sua hipnose.

Seu estado, de modo geral, experimentou melhoras. Ela ingeria alimentos sem dificuldades e permitia que a enfermeira a alimentasse com exceção do pão, que pedia mas rejeitava no momento em que lhe tocava os lábios. A paralisia espástica da perna teve uma diminuição acentuada. Verificaram-se também melhoras em sua capacidade de julgamento, e ela ficou muito apegada a um amigo meu, o Dr. B., médico que a visitava. Beneficiou-se muito da presença de um cão terra-nova que lhe tinha sido presenteado e pelo qual tinha uma afeição apaixonada. Em certa ocasião, porém, seu animal de estimação atacou um gato, e foi extraordinário ver a forma como a frágil moça tomou de um chicote na mão esquerda e afastou a chicotadas o enorme animal para salvar sua vítima. Mais tarde, cuidou de algumas pessoas pobres e doentes, e isto a ajudou.

Foi após minha volta de uma viagem de férias, que durou várias semanas, que tive a prova mais convincente do efeito patogênico e excitante ocasionado pelos complexos de representações produzidos durante suas absences, ou condition seconde, e do fato de que esses complexos eram eliminados ao receberem expressão verbal durante a hipnose. Nesse intervalo não fora efetuada nenhuma “cura pela fala”, porque foi impossível persuadi-la a confiar o que tinha a dizer a qualquer pessoa senão eu - nem mesmo ao Dr. B., a quem, sob outros aspectos, ela se havia afeiçoado. Encontrei-a num estado moral deplorável, inerte, intratável, mal-humorada e até mesmo malévola. Tornou-se claro por suas histórias noturnas que sua veia imaginativa e poética se estava esgotando. O que ela relatava dizia respeito, cada vez mais, a suas alucinações e, por exemplo, às coisas que a haviam aborrecido nos últimos dias. Estas eram revestidas de uma forma imaginativa, mas apenas formuladas em imagens estereotipadas, e não elaboradas em produções poéticas. Mas a situação só ficou tolerável depois de eu haver providenciado o retorno da paciente a Viena por uma semana e de, noite após noite, fazer com que ela me contasse três a cinco histórias. Quando levei isso a termo, tudo o que se acumulara durante as semanas de minha ausência fora descarregado. Foi só então que se restabeleceu o ritmo anterior: no dia seguinte àquele em que dava expressão verbal a suas fantasias, ela ficava amável e alegre; no segundo dia, mais irritadiça e menos agradável e, no terceiro, verdadeiramente “detestável”. Seu estado moral era uma função do tempo decorrido desde a última expressão oral. Isso ocorria porque cada um dos produtos espontâneos de sua imaginação e todos os fatos que tinham sido assimilados pela parte patológica de sua mente persistiam como um estímulo psíquico até serem narrados em sua hipnose, após o que deixavam inteiramente de atuar.

Quando, no outono, a paciente retornou a Viena (embora para uma casa diferente daquela em que adoecera), sua condição era suportável, tanto física como mentalmente, pois pouquíssimas de suas experiências - de fato, apenas as mais marcantes - eram transformadas em estímulos psíquicos de maneira patológica. Eu tinha esperança de uma melhora contínua e progressiva, desde que o permanente carregamento de sua mente com novos estímulos pudesse ser evitado através da expressão verbal dada a eles. Mas, de início, fiquei decepcionado. Em dezembro houve um agravamento acentuado de seu estado psíquico. Ela voltou a ficar excitada, taciturna e irritável. Não tinha mais nenhum “dia realmente bom”, mesmo quando era impossível detectar alguma coisa que estivesse permanecendo “presa” dentro dela. Em fins de dezembro, na época do Natal, a paciente ficou particularmente inquieta e por uma semana inteira, nos fins de tarde, nada me disse de novo além dos produtos imaginativos que havia elaborado dia a dia sob pressão de uma angústia e emoção intensas durante o Natal de 1880 |um ano antes|. Quando as séries eram concluídas, ela sentia um enorme alívio.

Já havia transcorrido um ano desde que Anna se separara do pai e caíra de cama, e a partir dessa época seu estado tornou-se mais claro e foi sistematizado de maneira muito peculiar. Seus estados de consciência alternados, que se caracterizavam pelo fato de que, a partir da manhã, suas absences (isto é, o surgimento de sua condition seconde) sempre se tornavam mais freqüentes à medida que o dia avançava e exerciam seu domínio absoluto até o anoitecer - esses estados alternados tinham diferido um do outro, no passado, pelo fato de o primeiro ser normal, e o segundo, alienado; agora, porém, eles diferiam ainda mais pelo fato de que, no primeiro, ela estava vivendo, como o restante de nós, no inverno de 1881-2, ao passo que, no segundo, vivia no inverno de 1880-1 e se esquecera por completo de todos os eventos subseqüentes. A única coisa que, não obstante, parecia permanecer consciente a maior parte do tempo era o fato de que o pai morrera. Ela se via transportada ao ano anterior com tal intensidade que, na casa nova, tinha alucinações com seu antigo quarto, de modo que quando queria ir até a porta, tropeçava na estufa, que ficava situada em relação à janela do mesmo modo que a porta em seu antigo quarto. A transição de um estado para outro ocorria de forma espontânea, mas também podia ser facilmente promovida por qualquer impressão sensorial que lembrasse o ano anterior com nitidez. Bastava segurar uma laranja diante dos olhos dela (essa fruta tinha constituído seu principal alimento durante a primeira parte da doença) para que ela se visse transportada para o ano de 1881. Mas essa transferência ao passado não ocorria de modo geral ou indefinido; ela revivia o inverno anterior dia a dia. Eu só teria podido suspeitar de que isso estava acontecendo, não fosse pelo fato de que todas as noites, durante a hipnose, ela falava sobre o que a havia excitado no mesmo dia em 1881, e não fosse pelo fato de um diário particular mantido pela mãe dela em 1881 ter confirmado, sem sombra de dúvida, a ocorrência dos fatos subjacentes. Essa revivescência do ano anterior continuou até que a doença chegasse a seu final, em junho de 1882.

Também foi interessante observar, nesse aspecto, a forma pela qual esses estímulos psíquicos revividos, pertencentes a seu estado secundário, insinuavam-se em seu primeiro estado, mais normal. Aconteceu, por exemplo, que certa manhã a paciente me disse rindo que não tinha nenhuma idéia de qual era o problema, mas estava com raiva de mim. Graças ao diário eu sabia o que estava ocorrendo, e dito e feito, a situação foi revivida na hipnose do anoitecer; eu tinha aborrecido muito a paciente na mesma noite, em 1881. Houve outra ocasião em que ela me disse que havia algo errado com seus olhos: estava vendo as cores erradas. Sabia estar usando um vestido marrom, mas o via como se fosse azul. Logo verificamos que ela sabia distinguir todas as cores das folhas de teste visual de forma correta e clara, e que a perturbação só se relacionava com o material do vestido. O motivo foi que, durante o mesmo período em 1881, ela estivera muito atarefada com a confecção de um roupão para o pai, que era feito do mesmo material de seu atual vestido, porém era azul em vez de marrom. A propósito, constatava-se com freqüência que essas lembranças emergentes revelavam de antemão seu efeito; a perturbação do estado normal ocorria mais cedo, e a lembrança era despertada de forma gradativa apenas em sua condition seconde.

Sua hipnose da noite ficava assim intensamente sobrecarregada, pois tínhamos que escoar pela fala não só seus produtos imaginários contemporâneos, como também os eventos e “vexations” de 1881. (Felizmente, nessa época eu já a havia aliviado dos produtos imaginários daquele ano.) Mas, além de tudo isso, o trabalho a ser executado pela paciente e por seu médico era imensamente aumentado por um terceiro grupo de perturbações isoladas, que tinham de ser eliminadas da mesma maneira. Tratava-se dos eventos psíquicos em jogo no período de incubação da moléstia, entre julho e dezembro de 1880; eles é que haviam produzido todos os fenômenos histéricos e, quando receberam expressão verbal, os sintomas desapareceram.

Quando isso aconteceu pela primeira vez - quando, em decorrência de um enunciado acidental e espontâneo dessa natureza, durante a hipnose da noite, uma perturbação que havia persistido por um tempo considerável veio a desaparecer - fiquei extremamente surpreso. Era verão, numa época de calor intenso, e a paciente sofria de uma sede horrível, pois, sem que pudesse explicar a causa, viu-se de repente impossibilitada de beber. Apanhava o copo de água desejado, mas, assim que o tocava com os lábios, repelia-o como alguém que sofresse de hidrofobia. Ao fazê-lo, ficava obviamente numa absence por alguns segundos. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, como melões, etc. Quando isso já durava perto de seis semanas, um dia, durante a hipnose, ela resmungou qualquer coisa a respeito de sua dama de companhia inglesa, de quem não gostava, e começou então a descrever, com demonstrações da maior repugnância, como fora certa vez ao quarto dessa senhora e como lá pudera ver o cãozinho dela - criatura nojenta! - bebendo num copo. A paciente não tinha dito nada, pois quisera ser gentil. Depois de exteriorizar energicamente a cólera que havia contido,pediu para beber alguma coisa, bebeu sem qualquer dificuldade uma grande quantidade de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A partir daí, a perturbação desapareceu de uma vez por todas. Vários outros caprichos extremamente obstinados foram eliminados de forma semelhante, depois de ela haver descrito as experiências que os tinham ocasionado. A paciente deu um grande passo à frente quando o primeiro de seus sintomas crônicos desapareceu da mesma maneira - a contratura da perna direita, que, é verdade, já havia diminuído muito. Esses achados - de que, no caso dessa paciente, os fenômenos histéricos desapareciam tão logo o fato que os havia provocado era reproduzido em sua hipnose - tornaram possível chegar-se a uma técnica terapêutica que nada deixava a desejar em sua coerência lógica e sua aplicação sistemática. Cada sintoma individual nesse caso complicado era considerado de forma isolada; todas as ocasiões em que tinha surgido eram descritas na ordem inversa, começando pela época em que a paciente ficara acamada e retrocedendo até o fato que levara à sua primeira aparição. Quando este era descrito, o sintoma era eliminado de maneira permanente.

Dessa forma, suas paralisias espásticas e anestesias, os diferentes distúrbios da visão e da audição, as nevralgias, tosses, tremores, etc., e por fim seus distúrbios da fala foram “removidos pela fala”. Entre suas perturbações da visão, os seguintes, por exemplo, foram eliminados um de cada vez: o estrabismo convergente com diplopia; o desvio de ambos os olhos para a direita, de modo que quando a mão se estendia para apanhar algo, sempre se dirigia para a esquerda do objeto; a restrição do campo visual; a ambliopia central; a macropsia; a visão de uma caveira em vez do pai; e a incapacidade para a leitura. Apenas alguns fenômenos dispersos (como, por exemplo, a extensão das paralisias espásticas para o lado esquerdo do corpo), que surgiram enquanto ela estava confinada ao leito, permaneceram intocados por esse processo de análise, sendo provável, na realidade, que de fato não tivessem nenhuma causa psíquica imediata | ver em [1]-[2]|.

Revelou-se inteiramente impraticável abreviar o trabalho pela tentativa de evocar de imediato em sua memória a primeira causa provocadora de seus sintomas. Ela era incapaz de descobri-la, ficava confusa e as coisas se processavam ainda com maior lentidão do que se lhe fosse permitido, de modo tranqüilo e firme, retomar o fio retrospectivo das recordações em que se havia envolvido. Dado que este último método, porém, levava muito tempo na hipnose noturna, em vista de ela estar muito tensa e profundamente perturbada por “eliminar pela fala” os dois outros grupos de experiências -e também em virtude do fato de que as reminiscências precisavam de tempo antes para poderem atingir uma nitidez suficiente - elaboramos o seguinte método. Eu costumava visitá-la pela manhã e hipnotizá-la. (Alguns métodos muito simples para isso foram obtidos de forma empírica.) A seguir, pedia-lhe que concentrasse os pensamentos no sintoma que estávamos tratando no momento e me dissesse as ocasiões em que ele surgira. A paciente passava a descrever em rápida sucessão e em frases sucintas os fatos externos em causa, os quais eu anotava. Durante sua subseqüente hipnose noturna, ela então me fazia, com a ajuda de minhas anotações, um relato razoavelmente minucioso dessas circunstâncias.

Um exemplo revelará a forma completa pela qual ela realizava isso. Nossa experiência comum era que a paciente não ouvisse quando lhe era dirigida a palavra. Foi possível diferenciar da seguinte forma esse hábito passageiro de não ouvir:

(a) Não ouvir quando alguém entrava, enquanto se abstraía em seus pensamentos. 108 exemplos detalhados e isolados desses casos, com menção das pessoas e circunstâncias, muitas vezes com datas. Primeiro exemplo: não ouvir o pai entrar.

(b) Não compreender quando várias pessoas conversavam. 27 exemplos. Primeiro exemplo: o pai, mais uma vez, e um conhecido.

(c) Não ouvir quando estava sozinha e lhe dirigiam a palavra diretamente. 50 exemplos. Origem: o pai tendo em vão lhe pedido vinho.

(d) Surdez ocasionada por ter sido sacudida (numa carruagem, etc.). 15 exemplos. Origem: por ter sido sacudida com raiva pelo irmão mais novo quando este a surpreendeu, certa noite, com o ouvido colado ao quarto do doente.

(e) Surdez provocada ao assustar-se com um ruído. 37 exemplos. Origem: um acesso de sufocação do pai, causado por ter engolido mal.

(f) Surdez durante absence profunda. 12 exemplos.

(g) Surdez ocasionada por ouvir mal durante muito tempo, de modo que, quando lhe dirigiam a palavra, deixava de ouvir. 54 exemplos.

É claro que todos esse episódios eram, numa ampla medida, idênticos, no sentido de que era possível relacioná-los com estados de alheamento, absences ou susto. Mas, na memória da paciente, eram diferenciados de modo tão claro que, se acontecia ela cometer algum erro em sua seqüência, era obrigada a corrigir-se e pô-los na ordem certa; se isso não fosse feito, seu relato ficava paralisado. Os fatos que ela descrevia eram tão sem interesse e significação, e narrados com tanta riqueza de detalhes, que não se poderia suspeitar de que tivessem sido inventados. Muitos desses incidentes consistiam em experiências puramente internas e, assim, não podiam ser verificados; outros (ou as circunstâncias que os cercavam) estavam na lembrança das pessoas do ambiente de Anna.

Também esse exemplo apresentava uma característica que era sempre observável quando um sintoma estava sendo “eliminado pela fala”: o sintoma específico surgia com maior intensidade enquanto ela o abordava. Assim, durante a análise de sua incapacidade de ouvir, ela ficou tão surda que numa parte do tempo fui obrigado a comunicar-me com ela por escrito. A primeira causa provocadora costumava ser um susto de alguma espécie, experimentado enquanto ela cuidava do pai - alguma negligência da parte dela, por exemplo.

O trabalho de recordação nem sempre era fácil e, algumas vezes, a paciente tinha que fazer grandes esforços. Certa ocasião, todo o nosso progresso ficou obstruído por algum tempo porque uma lembrança recusava-se a emergir. Tratava-se de uma alucinação particularmente pavorosa. Quando cuidava do pai, vira seu rosto como se fosse uma caveira. Ela e as pessoas a seu redor lembravam que, certa vez, enquanto parecia ainda gozar de boa saúde, ela fizera uma visita a um de seus parentes. Abrira a porta e imediatamente caíra no chão, inconsciente. Para superar a obstrução a nosso progresso, ela tornou a visitar o mesmo lugar e, ao entrar no quarto, mais uma vez caiu no chão, inconsciente. Durante a hipnose noturna seguinte, o obstáculo foi superado. Ao entrar no quarto, ela vira seu rosto pálido refletido num espelho que pendia defronte à porta, mas não fora a si mesma que tinha visto, e sim o pai com um rosto de caveira. - Muitas vezes observamos que seu pavor de uma lembrança, como no presente exemplo, inibia o surgimento da mesma, e esta precisava ser provocada à força pela paciente ou pelo médico.

O seguinte incidente, entre outros, ilustra o alto grau de coerência lógica de seus estados. Durante esse período, como já se teve ocasião de explicar, a paciente estava sempre em sua condition seconde - isto é, no ano de 1881 - à noite. Certa ocasião, despertou durante a noite, declarando ter sido levada para longe de casa mais uma vez, e ficou de tal forma excitada que todas as pessoas da casa se alarmaram. A razão foi simples. Na noite anterior, a cura pela fala havia dissipado o distúrbio da visão, e isso também se aplicava a sua condition seconde. Assim, ao acordar durante a noite, ela se viu num quarto estranho, pois a família se mudara na primavera de 1881. Acontecimentos desagradáveis dessa espécie eram evitados por mim pelo fato de (a pedido da paciente) eu sempre fechar seus olhos à noite e dar-lhe a sugestão de que ela não poderia abri-los até que eu próprio o fizesse na manhã seguinte. Essa perturbação só se repetiu uma vez, quando a paciente gritou num sonho e abriu os olhos ao despertar dele.

Visto que essa trabalhosa análise de seus sintomas versou sobre os meses do verão de 1880, o período preparatório de sua doença, consegui uma compreensão completa da incubação e patogênese desse caso de histeria, que agora passarei a descrever de forma sucinta.

Em julho de 1880, quando se encontrava no campo, o pai de Anna adoeceu gravemente em decorrência de um abscesso subpleural. Ela dividia com a mãe as tarefas de cuidar do enfermo. Certa vez, acordou de madrugada, muito ansiosa pelo doente, que estava com febre alta; e ela estava sob a tensão de aguardar a chegada de um cirurgião de Viena que iria operá-lo. Sua mãe se ausentara por algum tempo, e Anna, sentada à cabeceira do doente, pôs o braço direito sobre o espaldar da cadeira. Entrou num estado de devaneio e viu, como se viesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermo para mordê-lo. (É muito provável que, no terreno situado atrás da casa, algumas cobras tivessem de fato aparecido anteriormente, assustando a moça e fornecendo agora o material para a alucinação.) Ela tentou manter a cobra a distância, mas estava como que paralisada. O braço direito, que pendia sobre o espaldar da cadeira, ficara dormente, insensível e parético; e quando ela o contemplou seus dedos se transformaram em cobrinhas cujas cabeças eram caveiras (as unhas). (É provável que ela tenha tentado afugentar a cobra com o braço direito paralisado e por isso a anestesia e a paralisia do braço se associaram com a alucinação da cobra.) Quando a cobra desapareceu, Anna, aterrorizada, tentou rezar. Mas não achou palavras em idioma algum, até que, lembrando-se de um poema infantil em inglês, pôde pensar e rezar nessa língua. O apito do trem que trazia o médico por ela esperado desfez o encanto.

No dia seguinte, durante um jogo, Anna atirou uma argola em alguns arbustos e, quando foi buscá-la, um galho recurvado fez com que ela revivesse a alucinação da cobra, e ao mesmo tempo seu braço direito ficou distendido com rigidez. A partir de então, ocorria invariavelmente a mesma coisa sempre que a alucinação era recordada por algum objeto com aparência mais ou menos semelhante à de uma cobra. Essa alucinação, contudo, bem como a contratura, só apareciam durante as curtas absences, que se tornaram cada vez mais freqüentes a partir daquela noite. (A contratura só veio a se estabilizar em dezembro, quando a paciente ficou inteiramente prostrada e acamada de forma permanente.) Como resultado de algum fato particular cujo registro não consigo encontrar em minhas anotações e do qual não me recordo mais, a contratura da perna direita foi acrescida à do braço direito.

Sua tendência às absences auto-hipnóticas fixou-se a partir daquele momento. Na manhã seguinte à noite que descrevi, enquanto esperava a chegada do cirurgião, Anna caiu num tal estado de alheamento que ele por fim chegou ao quarto sem que ela o ouvisse aproximar-se. Sua angústia persistente interferia com a ingestão de alimentos e conduziu aos poucos a intensas sensações de náusea. Afora isso, a rigor, cada um de seus sintomas histéricos surgiu sob a ação de um afeto. Não é bem certo se em cada um dos casos houve um estado momentâneo de absence, mas isso parece provável em vista do fato de que, em seu estado de vigília, a paciente ficava totalmente alheia ao que havia acontecido.

Alguns de seus sintomas, contudo, parecem não haver surgido em suas absences, mas apenas quando de algum afeto durante sua vida de vigília; se foi esse o caso, porém, eles reapareciam da mesma forma. Assim pudemos rastrear todas as suas diversas perturbações da visão até diferentes causas determinantes mais ou menos claras. Por exemplo, certa ocasião, quando, com lágrimas nos olhos, se achava sentada à cabeceira do pai, ele de repente lhe perguntou que horas eram. Ela não conseguia enxergar com nitidez; fez um grande esforço e aproximou o relógio dos olhos. O mostrador pareceu-lhe então muito grande, explicando assim sua macropsia e seu estrabismo convergente. Ou então ela se esforçou para reprimir as lágrimas para que o doente não as visse.

Uma discussão, durante a qual Anna reprimiu uma resposta à altura, provocou um espasmo de glote, e isso se repetia em todas as ocasiões semelhantes.

Perdeu a capacidade de falar (a) como resultado do medo, depois de sua primeira alucinação à noite, (b) após haver reprimido uma observação noutra ocasião (por inibição ativa), (c) depois de ter sido injustamente culpada de algo e (d) em todas as ocasiões análogas (quando se sentia mortificada). Começou a tossir pela primeira vez quando, certa feita, sentada à cabeceira do pai, ouviu o som de música para dançar que vinha de uma casa vizinha sentiu um súbito desejo de estar lá e foi dominada por auto-recriminações. A partir de então, durante toda a sua doença, reagia a qualquer música acentuadamente ritmada com uma tussis nervosa.

Não lamento muito que o fato de minhas anotações serem incompletas torne impossível para mim enumerar todas as ocasiões em que seus vários sintomas histéricos apareciam. Ela própria os relatava a mim em cada caso isolado, com uma única exceção por mim mencionada |em [1] e também mais adiante, em [1]-[2]|; e, como já disse, todos os sintomas desapareciam depois de ela descrever sua primeira ocorrência.

Também dessa maneira toda a doença desapareceu. A própria paciente formara o firme propósito de que todo o tratamento deveria terminar no dia em que fizesse um ano da data em que foi levada para o campo |7 de junho (ver em [1])|. Por conseguinte, no começo de junho, ela iniciou a “cura pela fala” com a maior energia. No último dia - recorrendo, como ajuda, a uma nova arrumação do quarto, a fim de assemelhá-lo ao quarto de doente do pai - ela reproduziu a aterrorizante alucinação já descrita acima e que constitui a raiz de toda a sua doença. Durante a cena original, Anna só havia conseguido pensar e rezar em inglês; mas, logo após sua reprodução, pôde falar alemão. Além disso, libertou-se das inúmeras perturbações que exibira antes. Depois, saiu de Viena e viajou por algum tempo, mas passou-se um período considerável antes que recuperasse inteiramente seu equilíbrio mental. Desde então tem gozado de perfeita saúde.

Embora eu tenha suprimido um grande número de detalhes bem interessantes, este caso clínico de Anna O. tornou-se mais volumoso do que pareceria necessário para uma doença histérica que, em si mesma, não foi de caráter inusitado. Entretanto, foi impossível descrever o caso sem entrar em pormenores, e suas características me parecem suficientemente importantes para justificar esta exposição extensa. Da mesma maneira, os ovos dos equinodermos são importantes na embriologia, não porque o ouriço-do-mar seja um animal interessante, mas porque o protoplasma de seus ovos é transparente e porque o que neles observamos lança luz, desse modo, sobre o provável curso dos acontecimentos nos ovos cujo protoplasma é opaco. O interesse do presente caso me parece residir, acima de tudo, na extrema clareza e inteligibilidade de sua patogênese.

Havia nessa moça, enquanto ainda gozava de perfeita saúde, duas características psíquicas que atuaram como causas de predisposição para sua subseqüente doença histérica:

(1)Sua vida familiar monótona e a ausência de ocupação intelectual adequada deixavam-na com um excedente não utilizado de vivacidade e energia mentais, tendo esse excedente encontrado uma saída na atividade constante de sua imaginação.

(2)Isso a levou ao hábito dos devaneios (seu “teatro particular”), que lançou as bases para uma dissociação de sua personalidade mental. Não obstante, uma dissociação desse grau ainda se acha nos limites da normalidade. Os devaneios e as reflexões durante ocupações mais ou menos mecânicas não implicam, em si mesmos, uma divisão patológica da consciência visto que, ao serem interrompidos - quando, por exemplo, alguém dirige a palavra à pessoa - a unidade normal da consciência é restaurada; não implicam tampouco a existência de amnésia. No caso de Anna O., porém, esse hábito preparou o terreno em que o afeto de angústia e pavor pôde estabelecer-se na forma que descrevi, tão logo esse afeto transformou os devaneios habituais da paciente numa absence alucinatória. É notável que a primeira manifestação da doença em seus primórdios já exibisse de modo tão completo suas principais características, que depois permaneceram inalteradas por quase dois anos. Estas compreendiam a existência de um segundo estado de consciência, que surgiu primeiro como uma absence temporária e depois se organizou sob a forma de uma “double conscience”; uma inibição da fala, determinada pelo afeto de angústia, que encontrou uma descarga fortuita nos versos em língua inglesa; posteriormente, a parafasia e a perda da língua materna, que foi substituída por um inglês excelente; e, por fim, a paralisia acidental do braço direito, em virtude da pressão, que depois evoluiu para uma paresia espástica e anestesia do lado direito. O mecanismo pelo qual esta segunda afecção veio a existir mostrou-se em inteira consonância com a teoria da histeria traumática de Charcot - um ligeiro trauma ocorrido durante um estado de hipnose.

 

Mas, enquanto a paralisia experimentalmente provocada por Charcot em seus pacientes se estabilizava de imediato, e enquanto a paralisia causada em vítimas de neuroses traumáticas devidas a grave choque traumático logo se estabelece, o sistema nervoso dessa moça ofereceu uma resistência bem-sucedida durante quatro meses. Sua contratura, bem como as outras perturbações que se acompanharam, só se estabeleceu durante as curtas absences e em sua condition seconde, deixando-a, durante seu estado normal, com pleno controle do corpo, e em posse de seus sentidos, de modo que nada foi observado nem por ela própria nem por aqueles que a cercavam, se bem que a atenção deles estivesse enfocada no pai enfermo da paciente e, por conseguinte, desviada dela.

Entretanto, uma vez que suas absences, com sua amnésia total, e fenômenos histéricos concomitantes, tornaram-se cada vez mais freqüentes a partir da época de sua primeira auto-hipnose alucinatória, as oportunidades se multiplicaram para a formação de novos sintomas da mesma espécie, e os que já se haviam formado tornaram-se mais fortemente entrincheirados pela freqüente repetição. Além disso, qualquer afeto angustiante súbito passou gradativamente a ter o mesmo resultado de uma absence (embora, a rigor, seja possível que esses afetos causassem de fato uma absence temporária em todos os casos); algumas coincidências fortuitas formaram associações patológicas e perturbações sensoriais ou motoras, que daí por diante passaram a surgir junto com o afeto. Mas até então isso só havia ocorrido durante momentos passageiros. Antes de ficar permanentemente acamada, a paciente já havia desenvolvido todo o conjunto de fenômenos histéricos, sem que ninguém o soubesse. Só depois de ela ter entrado em colapso completo, graças ao esgotamento acarretado pela falta de alimentos, insônia e angústia constante, e só depois de ter começado a passar mais tempo em sua condition seconde do que em seu estado normal, foi que os fenômenos histéricos se estenderam a este último e passaram da condição de sintomas agudos intermitentes à de sintomas crônicos.

Surge agora a questão de determinar até que ponto se pode confiar nas declarações da paciente e de saber se as ocasiões e o modo de origem dos fenômenos foram realmente tais como ela os representou. Quanto aos fatos mais importantes e fundamentais, o grau de confiabilidade de seu relato me parece estar fora de dúvida. Quanto ao fato de os sintomas desaparecerem depois de “verbalizados”, não posso empregar isso como prova; é bem possível que isso se explique pela sugestão. Mas sempre achei que a paciente era inteiramente fiel à verdade e digna de toda confiança. As coisas que me relatou estavam intimamente vinculadas com o que lhe era mais sagrado. O que quer que pudesse ser verificado através de outras pessoas era plenamente confirmado. Até mesmo a moça mais bem-dotada seria incapaz de engendrar uma trama de dados com tal grau de coerência interna como o exibido na história deste caso. Não se pode duvidar, contudo, de que precisamente sua coerência talvez a tenha levado (em absoluta boa-fé) a atribuir a alguns dos seus sintomas uma causa desencadeadora que na verdade não possuíam. Mas também a essa suspeita considero injustificada. A própria insignificância de tantas dessas causas e o caráter irracional de tantas das conexões envolvidas depõem a favor de sua realidade. A paciente não conseguia entender como é que a música para dançar a fazia tossir; uma construção dessa natureza é por demais destituída de sentido para ter sido deliberada. (Pareceu-me muito provável, aliás, que cada um de seus dramas de consciência acarretasse um de seus habituais espasmos da glote e que os impulsos motores que sentia - pois ela gostava muito de dançar - transformassem o espasmo numa tussis nervosa.) Por conseguinte, em minha opinião, as declarações da paciente mereciam toda a confiança e correspondiam aos fatos.

E agora devemos considerar até que ponto é justificável supor que a histeria se produza de maneira análoga em outros pacientes e que o processo seja semelhante quando nenhuma condition seconde tão claramente distinta tenha-se organizado. Para sustentar esse ponto de vista, posso assinalar o fato de que, também no presente caso, a história da evolução da doença teria permanecido inteiramente desconhecida, tanto da paciente quanto do médico, se não fosse a peculiaridade de a paciente se recordar de coisas na hipnose, como descrevi, e de conseguir relacioná-las. Enquanto estava em seu estado de vigília, ela não tinha nenhum conhecimento de tudo isso. Portanto, é impossível, nos outros casos, chegar-se ao que está acontecendo através de um exame dos pacientes em estado de vigília, pois, com a melhor boa vontade do mundo, eles não podem dar informação alguma a ninguém. E já ressaltei como as pessoas que cercavam a paciente eram pouco capazes de observar aquilo que estava acontecendo. Por conseguinte, só seria possível descobrir o estado de coisas em outros pacientes por meio de um método semelhante ao que foi proporcionado, no caso de Anna O., por suas auto-hipnoses. Por enquanto, podemos apenas externar o ponto de vista de que seqüências de fatos semelhantes aos aqui descritos ocorrem com maior freqüência do que nos levou a supor nossa ignorância do mecanismo patogênico em causa.

Quando a paciente ficou de cama e sua consciência passou a oscilar de forma constante entre o estado normal e o “secundário”, toda a série de sintomas histéricos, que haviam surgido isoladamente e até então se achavam latentes, tornou-se manifesta, como já vimos, como sintomas crônicos. Acrescentou-se então a estes um novo grupo de fenômenos que pareciam ter tido uma origem diferente: as paralisias espásticas das extremidades esquerdas e a paresia dos músculos elevadores da cabeça. Eu os distingo dos outros fenômenos porque, uma vez que tivessem desaparecido, nunca mais retornavam, mesmo na forma mais breve ou branda, ou durante a fase conclusiva e de recuperação, quando todos os outros sintomas se tornaram de novo ativos após terem ficado inativos por algum tempo. Da mesma forma, jamais vieram à tona nas análises hipnóticas e não foram rastreados até as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-me a pensar, portanto, que seu surgimento não se deveu ao mesmo processo psíquico dos outros sintomas, mas que cabe atribuí-lo a uma extensão secundária daquela condição desconhecida que constitui o fundamento somático dos fenômenos histéricos.

Durante toda a doença seus dois estados de consciência persistiram lado a lado: o primário, em que ela era bastante normal psiquicamente, e o secundário, que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vista de sua abundância de produções imaginárias e alucinações, suas grandes lacunas de memória e a falta de inibição e controle em suas associações. Nesse estado secundário, a paciente ficava numa situação de alienação. O fato de que toda a condição mental da paciente estava na dependência da intrusão desse estado secundário no normal parece lançar uma considerável luz sobre pelo menos um tipo de psicose histérica. Cada uma de suas hipnoses à noite oferecia provas de que a paciente estava inteiramente lúcida e bem ordenada em sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volição, desde que nenhum dos produtos de seu estado secundário atuasse como um estímulo “no inconsciente”. A psicose extremamente acentuada que surgia sempre que havia um intervalo considerável nesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtos influenciavam os fatos psíquicos de seu estado latentes, tornou-se manifesta, como já vimos, como sintomas crônicos. Acrescentou-se então a estes um novo grupo de fenômenos que pareciam ter tido uma origem diferente: as paralisias espásticas das extremidades esquerdas e a paresia dos músculos elevadores da cabeça. Eu os distingo dos outros fenômenos porque, uma vez que tivessem desaparecido, nunca mais retornavam, mesmo na forma mais breve ou branda, ou durante a fase conclusiva e de recuperação, quando todos os outros sintomas se tornaram de novo ativos após terem ficado inativos por algum tempo. Da mesma forma, jamais vieram à tona nas análises hipnóticas e não foram rastreados até as fontes emocionais ou imaginativas. Inclino-me a pensar, portanto, que seu surgimento não se deveu ao mesmo processo psíquico dos outros sintomas, mas que cabe atribuí-lo a uma extensão secundária daquela condição desconhecida que constitui o fundamento somático dos fenômenos histéricos.

Durante toda a doença seus dois estados de consciência persistiram lado a lado: o primário, em que ela era bastante normal psiquicamente, e o secundário, que bem pode ser assemelhado a um sonho, em vista de sua abundância de produções imaginárias e alucinações, suas grandes lacunas de memória e a falta de inibição e controle em suas associações. Nesse estado secundário, a paciente ficava numa situação de alienação. O fato de que toda a condição mental da paciente estava na dependência da intrusão desse estado secundário no normal parece lançar uma considerável luz sobre pelo menos um tipo de psicose histérica. Cada uma de suas hipnoses à noite oferecia provas de que a paciente estava inteiramente lúcida e bem ordenada em sua mente e normal no tocante a seus sentimentos e a sua volição, desde que nenhum dos produtos de seu estado secundário atuasse como um estímulo “no inconsciente”. A psicose extremamente acentuada que surgia sempre que havia um intervalo considerável nesse processo de desabafo revelou o grau em que esses produtos influenciavam os fatos psíquicos de seu estado “normal”. É difícil evitar expressar a situação afirmando que a paciente estava dividida em duas personalidades, das quais uma era mentalmente normal, e a outra, insana. Em minha opinião, a nítida divisão entre os dois estados nessa paciente só vem revelar com maior clareza aquilo que ocasionou um grande número de problemas inexplicados em muitos outros pacientes histéricos. Foi especialmente observável, em Anna O., o grau em que os produtos de seu “mau eu”, conforme ela própria o denominava, afetavam seu senso ético mental. Se esses produtos não tivessem sido continuamente eliminados, ter-nos-íamos confrontado com uma histérica do tipo malévolo - teimosa, indolente, desagradável e rabugenta; mas o que se passava era que, após a remoção desses estímulos, seu verdadeiro caráter, que era o oposto de tudo isso, sempre ressurgia de imediato.

Não obstante, embora seus dois estados fossem assim nitidamente separados, não só o estado secundário invadia o primeiro, como também - e isso se dava com freqüência em todas as ocasiões, mesmo quando ela se encontrava numa condição muito ruim - um observador lúcido e calmo ficava sentado, conforme ela dizia, num canto de seu cérebro, contemplando toda aquela loucura a seu redor. Essa persistência do pensamento claro enquanto a psicose estava em pleno processo encontrava expressão numa forma muito curiosa. Numa ocasião em que, depois de terem cessado os fenômenos histéricos, a paciente estava atravessando uma depressão temporária, ela apresentou grande número de temores e auto-recriminações infantis, entre eles a idéia de que de modo algum estivera doente e tudo aquilo fora simulado. Observações semelhantes, como sabemos, têm sido feitas com freqüência. Depois que um distúrbio dessa natureza desapareceu e os dois estados de consciência voltaram a se fundir num só, os pacientes, lançando um olhar retrospectivo para o passado, se vêem como a personalidade única e indivisa que se dava conta de todo aquele absurdo; acham que poderiam tê-lo impedido se assim tivessem desejado e se sentem como se tivessem praticado todo o mal de forma deliberada. - Deve-se acrescentar que esse raciocínio normal que persistia durante o estado secundário deve ter variado enormemente de intensidade e, muitas vezes, até deve ter estado ausente de todo.

Já descrevi o surpreendente fato de que, do começo ao fim da doença, todos os estímulos decorrentes do estado secundário, junto com suas conseqüências, eram eliminados de maneira permanente ao receberem expressão verbal na hipnose, e resta-me apenas acrescentar a certeza de que isso não foi uma invenção minha imposta à paciente por sugestão. Fui apanhado inteiramente de surpresa, e só depois de todos os sintomas serem assim eliminados em toda uma série de situações é que desenvolvi uma técnica terapêutica a partir dessa experiência.

A cura final da histeria merece mais algumas palavras. Ela foi acompanhada, como já tive oportunidade de dizer, por perturbações consideráveis e uma deterioração do estado mental da paciente. Tive impressão muito forte de que os numerosos produtos do seu estado secundário que ficaram latentes forçavam agora sua entrada na consciência; e embora de início fossem recordados apenas em seu estado secundário, estavam ainda assim sobrecarregando e perturbando seu estado normal. Resta verificar se não deveríamos procurar a mesma origem nos outros casos em que a histeria crônica termina numa psicose.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

A Srta. Anna O. tinha 21 anos de idade e era bastante saudável, com grande inteligência. Conseguia cuidar de um grande número de pessoas pobres e enfermas, porém nunca se apaixonara, teve alucinações e a noção de sexualidade nunca emergiu.

Essa vitalidade intelectual descrevia um ¨teatro intelectual¨, onde ela se imaginava vivendo um conto de fadas. Esses devaneios foram-se convertendo gradualmente em doença.

Ela teve que cuidar de seu pai que não sarou e veio a morrer. A paciente, em seu estado de debilidade, anemia e aversão se agravou com uma tosse muito intensa.

Surgiram uma série de perturbações graves. Começou a acusar as pessoas de fazerem coisas contra ela e de a deixarem num estado de confusão. Com o tempo ficou quase totalmente desprovida de palavras e tornou-se quase ininteligível.

Tendo ficado vários dias sem atendimento, ela ficou muito pior. Teve absences alucinatórias de figuras assustadoras, caveiras e esqueletos. Surgiram impulsos suicidas. Após a morte de seu pai ela teve um estado de maior tranquilidade e ficou mais calma.

Freud descobriu que toda a sua doença tinha relação com o que ela vivia naquele momento, com sua sociedade e seu modos de viver. Mattanó e Freud acreditam que a sonolência e toda a sua doença se justificam em padrões sociais, das enfermeiras de sua época, do papel desempenhado e do papel prescrito delas, e do contexto, a hipnose, de modo geral, segundo Freud, gerou melhoras.

Quando os fenômenos histéricos receberam expressão verbal, os sintomas desapareceram, segundo a hipnose.

A paciente deve empenhar-se no trabalho de recordar, que por algum tempo fica obstruído, porque a lembrança recusa-se a emergir, mesmo na hipnose.

As alucinações, de certo modo, tem relação com a história de vida da paciente, com suas experiências e vivências, com seus significados e sentidos atribuídos aos objetos de relação.

Durante sua doença permaneceram dois estados de consciência: o primário (bastante normal psiquicamente), e o secundário (assemelhado ao sonho) abundante de produções imaginárias e alucinações, com grandes lacunas de memória, falta de inibição e controle em suas associações. Nesse estado secundário a paciente fica em estado de alienação.

As forças se unem para o bem-aventurado. As forças se unem para fortalecer o herói que

aceita sua viagem, seu chamado, e a ele será entregue amuletos e objetos com forças e poderes que o fazem crer ser e estar preparado para a jornada contra as forças adversárias e contrárias a sua ida aventurada. Surgem eventos e personagens que lhe darão o poder através desses amuletos ou objetos de poder ou transformação. O poder benigno e protetor será seu destino e o próprio destino. Passará por limiares e pelos despertares da vida, o santuário será o seu coração e todas as formas do inconsciente estarão ao seu favor, nenhuma força da humanidade poderá agir contra ele, o herói.

Vemos aqui que a paciente é o herói que aceita sua missão, cuidar de seu pai como uma enfermeira, mesmo que venham forças adversárias, sintomas histéricos, a sua ida aventurada. Ela alcançará os despertares da vida alcançando tranquilidade e calma após a morte de seu pai, onde seu santuário passa a ser seu coração e seu inconsciente que estão a seu favor.

A travessia: se consumir. A vida do herói possui limites e um dia encontrará o

guardião dos limites que aumentará sua força para ir além dos horizontes já explorados com passos na direção do não conhecido, para um oceano sem limites.

As regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, cavernas subterrâneas, inferno, etc.). A energia sexual incestuosa e  a destruição do pai, sereias de beleza nostálgica e sedutora, ogros, mulheres selvagens da floresta. O guardião do limiar ou dos limites é um aspecto que se movimenta como proteção, porém somente com a passagem desse limiar que o sujeito passa durante a vida ou a morte para um novo movimento de experiência. A aventura está em todos os ambientes, ela é um movimento pelo véu que separa o conhecido do desconhecido, e as forças que guardam os limites são perigosas e lidar com elas envolvem riscos, porém aqueles que têm talento, competência e coragem verão o perigo se dissipar como a água no mar.

A paciente fará sua travessia após a morte de seu pai, pois terá que elaborar seu luto, que fazer um ritual de passagem, uma transformação, uma travessia, onde as regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente, onde a aventura, a travessia envolve riscos que se dissiparão no inconsciente.

 

MATTANÓ

(11/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura a Srta. Anna O. tinha 21 anos de idade e era bastante saudável, com grande inteligência. Conseguia cuidar de um grande número de pessoas pobres e enfermas, porém nunca se apaixonara, teve alucinações e a noção de sexualidade nunca emergiu.

Essa vitalidade intelectual descrevia um ¨teatro intelectual¨, onde ela se imaginava vivendo um conto de fadas. Esses devaneios foram-se convertendo gradualmente em doença.

Ela teve que cuidar de seu pai que não sarou e veio a morrer. A paciente, em seu estado de debilidade, anemia e aversão se agravou com uma tosse muito intensa.

Surgiram uma série de perturbações graves. Começou a acusar as pessoas de fazerem coisas contra ela e de a deixarem num estado de confusão. Com o tempo ficou quase totalmente desprovida de palavras e tornou-se quase ininteligível.

Tendo ficado vários dias sem atendimento, ela ficou muito pior. Teve absences alucinatórias de figuras assustadoras, caveiras e esqueletos. Surgiram impulsos suicidas. Após a morte de seu pai ela teve um estado de maior tranquilidade e ficou mais calma.

Freud descobriu que toda a sua doença tinha relação com o que ela vivia naquele momento, com sua sociedade e seu modos de viver. Mattanó e Freud acreditam que a sonolência e toda a sua doença se justificam em padrões sociais, das enfermeiras de sua época, do papel desempenhado e do papel prescrito delas, e do contexto, a hipnose, de modo geral, segundo Freud, gerou melhoras.

Quando os fenômenos histéricos receberam expressão verbal, os sintomas desapareceram, segundo a hipnose.

A paciente deve empenhar-se no trabalho de recordar, que por algum tempo fica obstruído, porque a lembrança recusa-se a emergir, mesmo na hipnose.

As alucinações, de certo modo, tem relação com a história de vida da paciente, com suas experiências e vivências, com seus significados e sentidos atribuídos aos objetos de relação.

Durante sua doença permaneceram dois estados de consciência: o primário (bastante normal psiquicamente), e o secundário (assemelhado ao sonho) abundante de produções imaginárias e alucinações, com grandes lacunas de memória, falta de inibição e controle em suas associações. Nesse estado secundário a paciente fica em estado de alienação.

As forças se unem para o bem-aventurado. As forças se unem para fortalecer o herói que aceita sua viagem, seu chamado, e a ele será entregue amuletos e objetos com forças e poderes que o fazem crer ser e estar preparado para a jornada contra as forças adversárias e contrárias a sua ida aventurada. Surgem eventos e personagens que lhe darão o poder através desses amuletos ou objetos de poder ou transformação. O poder benigno e protetor será seu destino e o próprio destino. Passará por limiares e pelos despertares da vida, o santuário será o seu coração e todas as formas do inconsciente estarão ao seu favor, nenhuma força da humanidade poderá agir contra ele, o herói.

Vemos aqui que a paciente é o herói que aceita sua missão, cuidar de seu pai como uma enfermeira, mesmo que venham forças adversárias, sintomas histéricos, a sua ida aventurada. Ela alcançará os despertares da vida alcançando tranquilidade e calma após a morte de seu pai, onde seu santuário passa a ser seu coração e seu inconsciente que estão a seu favor.

A travessia: se consumir. A vida do herói possui limites e um dia encontrará o guardião dos limites que aumentará sua força para ir além dos horizontes já explorados com passos na direção do não conhecido, para um oceano sem limites.

As regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, cavernas subterrâneas, inferno, etc.). A energia sexual incestuosa e  a destruição do pai, sereias de beleza nostálgica e sedutora, ogros, mulheres selvagens da floresta. O guardião do limiar ou dos limites é um aspecto que se movimenta como proteção, porém somente com a passagem desse limiar que o sujeito passa durante a vida ou a morte para um novo movimento de experiência. A aventura está em todos os ambientes, ela é um movimento pelo véu que separa o conhecido do desconhecido, e as forças que guardam os limites são perigosas e lidar com elas envolvem riscos, porém aqueles que têm talento, competência e coragem verão o perigo se dissipar como a água no mar.

A paciente fará sua travessia após a morte de seu pai, pois terá que elaborar seu luto, que fazer um ritual de passagem, uma transformação, uma travessia, onde as regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente, onde a aventura, a travessia envolve riscos que se dissiparão no inconsciente.

Da mesma forma a paciente através do mundo e da realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que substitui a realidade operante e contingencial, determinada pela Trajetoria dos Heróis, pela realidade virtual, também orientada, ordenada e organizada pela Trajetória dos Heróis que toma conta do seu psiquismo e do seu comportamento, de tal maneira que a paciente emerge em sua realidade mantida pelo Alcorão e pela sua metáfora que definem o papel e o caminho a serem tomados e seguidos pelo paciente em sua jornada psicológica e comportamental.

 

MATTANÓ

(13/06/2026)

 

CASO 2 - SRA EMMY VON N., IDADE 40 ANOS, DA LIVÔNIA (FREUD)

 

Em 1º de maio de 1889, comecei o tratamento de uma senhora de cerca de quarenta anos, cujos sintomas e personalidade me interessaram de tal forma que lhe dediquei grande parte de meu tempo e decidi fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para recuperá-la. Era histérica e podia ser posta com a maior facilidade num estado de sonambulismo; ao tomar ciência disso, resolvi fazer uso da técnica de investigação sob hipnose, de Breuer, que eu viera a conhecer pelo relato que ele me fizera do bem-sucedido tratamento de sua primeira paciente. Essa foi minha primeira tentativa de lidar com aquele método terapêutico | ver em [1] e [2]|. Estava ainda longe de tê-lo dominado; de fato, não fui bastante à frente na análise dos sintomas, nem o segui de maneira suficientemente sistemática. Talvez possa apresentar melhor um quadro da condição da paciente e de minha conduta clínica reproduzindo as anotações que fiz todas as noites durante as três primeiras semanas do tratamento. Onde quer que a experiência posterior me haja proporcionado melhor compreensão, eu a incorporarei em notas de rodapé e comentários intercalados.

1º de maio de 1889. - Essa senhora, quando a vi pela primeira vez, estava deitava num sofá com a cabeça repousando numa almofada de couro. Parecia ainda jovem e as feições eram delicadas e marcantes. O rosto tinha uma expressão tensa e penosa, as pálpebras estavam cerradas e os olhos, baixos; a testa apresentava profundas rugas e as dobras nasolabiais eram acentuadas. Falava em voz baixa, como se tivesse dificuldade, e a fala ficava de tempos em tempos sujeita a interrupções espásticas, a ponto de ela gaguejar. Conservava os dedos firmemente entrelaçados, e eles exibiam uma agitação incessante, parecida com a que ocorre na atetose. Havia freqüentes movimentos convulsivos semelhantes a tiques, no rosto e nos músculos do pescoço, durante os quais alguns destes, especialmente o esternoclidomastóideo direito, se tornavam muito salientes. Além disso, ela interrompia com freqüência suas observações emitindo um curioso “estalido” com a boca, um som impossível de imitar.

O que a paciente me dizia era perfeitamente coerente e revelava um grau inusitado de instrução e inteligência. Isso fazia com que parecesse ainda mais estranho que, a cada dois ou três minutos, ela de súbito se calasse, contorcesse o rosto numa expressão de horror e nojo, estendesse a mão em minha direção, abrindo e entortando os dedos, e exclamasse numa voz alterada, carregada de angústia: “Fique quieto! - Não diga nada! - Não me toque!” É provável que estivesse sob a influência de alguma alucinação recorrente de natureza apavorante e que, com essa fórmula, estivesse mantendo afastado o material intromissivo. Essas interpolações chegavam ao fim tão de súbito quanto começavam, e a paciente retomava seu relato anterior, sem dar continuidade a sua excitação momentânea e sem explicar ou pedir desculpas por seu comportamento - provavelmente, portanto, sem que ela própria notasse a interpolação.

Tomei conhecimento do seguinte sobre as circunstâncias de sua vida: Sua família era originária da Alemanha Central, mas duas de suas gerações haviam fixado residência nas províncias bálticas da Rússia, onde possuía grandes propriedades. Ela era a décima terceira de quatorze filhos. Apenas quatro dentre eles sobreviveram. A paciente recebeu uma educação cuidadosa, mas sob a disciplina rígida de uma mãe excessivamente enérgica e severa. Quando contava vinte e três anos, casou-se com um homem muito bem-dotado e capaz, que alcançara uma posição elevada como grande industrial, mas que era muito mais velho do que ela. Depois de um casamento de curta duração, ele morreu de derrame cerebral. A esse fato, bem como à tarefa de educar as duas filhas, então com dezesseis e quatorze anos, muitas vezes enfermas e que sofriam de distúrbios nervosos, ela atribuía sua própria doença. Desde a morte do marido, quatorze anos antes, vivera constantemente doente, com variados graus de gravidade. Há quatro anos, seu estado sofrera uma melhora temporária com uma série de massagens combinadas com banhos elétricos. Afora isso, todos os seus esforços para melhorar de saúde têm sido infrutíferos. Ela viajou muito e tem um vivo interesse por muitas coisas. Atualmente, mora numa casa de campo num ponto do Báltico, perto de uma grande cidade. Há vários meses tem estado outra vez muito doente, sofrendo de depressão e insônia e atormentada por dores; foi até Abbazia na vã esperança de obter melhoras, e nas últimas seis semanas está em Viena, até agora sob os cuidados de um médico de excelente reputação.

Sugeri que ela se separasse das duas filhas, que têm governanta, e se internasse numa casa de saúde, onde eu poderia vê-la todos os dias. Concordou com isso sem levantar a menor objeção.

 

Na noite de 2 de maio visitei-a na casa de saúde. Notei que se assustava muito sempre que a porta se abria de modo inesperado. Assim, providenciei para que, ao visitá-la, as enfermeiras e os médicos internos batessem com força na porta e só entrassem depois de ela dizer que podiam fazê-lo. Mesmo assim, ela ainda fazia trejeitos faciais e dava um pulo toda vez que alguém entrava.

Sua principal queixa hoje foi sobre sensações de frio e dor na perna esquerda, que se originavam nas costas, acima da crista do ilíaco. Ordenei que lhe dessem banhos quentes e lhe aplicarei massagens por todo o corpo duas vezes ao dia.

Ela é uma excelente paciente para o hipnotismo. Bastou eu levantar um dedo diante dela e ordenar-lhe que dormisse para que se reclinasse com uma expressão atordoada e confusa. Sugeri que ela dormiria bem, que todos os seus sintomas melhorariam, e assim por diante. Ela ouviu tudo isso com os olhos fechados, mas sem dúvida com uma atenção inconfundivelmente concentrada, e suas feições aos poucos se relaxaram e assumiram uma aparência pacífica. Depois dessa primeira hipnose, conservou uma tênue lembrança de minhas palavras, mas, já na segunda, houve completo sonambulismo (com amnésia). Tinha-a avisado de que pretendia hipnotizá-la, ao que ela não opusera nenhuma dificuldade. Ela nunca fora hipnotizada antes, mas pode-se supor que já leu sobre o hipnotismo, embora eu não saiba dizer quais são suas idéias sobre o estado hipnótico.

Esse tratamento à base de banhos quentes, massagens duas vezes ao dia e sugestão hipnótica prosseguiu por mais alguns dias. Ela dormia bem, melhorava a olhos vistos e passava a maior parte do dia tranqüilamente deitada. Não lhe foi proibido ver as filhas, ler, ou cuidar da correspondência.

 

8 de maio, manhã. - Ela me entreteve, num estado que parecia normal, com histórias aterradoras sobre animais. Lera no Frankfurter Zeitung, que estava na mesa em frente a ela, uma história de como um aprendiz amarrara um menino e lhe pusera na boca um rato branco. O menino morrera de susto. O Dr. K. lhe dissera ter mandado uma caixa cheia de ratos brancos para Tiflis. Ao narrar-me isso, ela demonstrava todos os sinais de horror. Torcia e retorcia as mãos várias vezes. “Fique quieto! - Não diga nada! - Não me toque! - Imagine só se houvesse uma criatura dessas na cama!” (Estremeceu.) “Pense só, quando for aberta! Há um rato morto entre eles - um que foi ro-o-í-do!”

Durante a hipnose tentei eliminar essas alucinações com animais. Enquanto ela dormia, apanhei o Frankfurter Zeitung. Achei a história do menino que fora maltratado, mas sem nenhuma referência a camundongos ou ratos. Logo, ela os havia introduzido a partir de seu delírio enquanto lia. (À noite, falei-lhe de nossa conversa sobre os ratos brancos. Ela não sabia de nada daquilo, ficou muito surpresa e deu boas risadas.)

À tarde teve o que chamou de uma “cãibra no pescoço”, que no entanto, como disse, “só durou pouco tempo - umas poucas horas”.

 

Noite. - Pedi-lhe que, sob hipnose, falasse, o que, depois de certo esforço, ela conseguiu fazer. Falava baixo e refletia por um momento, cada vez, antes de responder. Sua expressão se alterava de acordo com o tema de suas observações e se acalmava tão logo minha sugestão punha termo à impressão nela causada pelo que dizia. Perguntei-lhe por que se assustava com tanta facilidade e ela respondeu: “Está relacionado com as lembranças de minha meninice.” “Quando?” “Primeiro, quando eu tinha cinco anos e meus irmãos e irmãs costumavam atirar animais mortos em mim. Foi aí que tive meu primeiro desmaio e espasmos. Mas minha tia disse que aquilo era uma vergonha e que eu não devia ter daqueles ataques, de modo que eles pararam. Depois me assustei de novo quando tinha sete anos, e inesperadamente, vi minha irmã no caixão; e outra vez quando contava oito anos e meu irmão me aterrorizou uma porção de vezes, enrolando-se em lençóis como um fantasma; e também quando tinha nove anos e vi minha tia no caixão e de repente o queixo dela caiu.”

É claro que essa série de causas desencadeadoras traumáticas que ela citou em resposta a minha pergunta sobre a razão de ser tão propensa a se assustar já estava pronta em sua memória. Ela não poderia ter reunido tão depressa esses episódios de diferentes períodos de sua infância no curto intervalo transcorrido entre minha pergunta e sua resposta. No fim de cada uma das histórias ela se crispava toda e assumia uma expressão de medo e horror. Ao final da última, escancarou a boca e ficou ofegante. As palavras com que descreveu o tema pavoroso de sua experiência foram pronunciadas com dificuldade e entremeadas de estertores. Depois, suas feições se tranqüilizaram.

Em resposta a uma pergunta, disse-me que enquanto descrevia essas cenas via-as diante de si, numa forma plástica e em suas cores naturais. Contou que, em geral, pensava nessas experiências com muita freqüência e o fizera nos últimos dias. Sempre que isso acontecia, via essas cenas com toda a nitidez da realidade. Compreendo agora por que tantas vezes ela me entretém com cenas de animais e quadros de cadáveres. Minha terapia consiste em eliminar esses quadros, de modo que ela não possa mais vê-los diante de si. Para reforçar minha sugestão, passei suavemente a mão por seus olhos várias vezes.

 

9 de maio, |manhã.| - Sem que lhe tivesse dado nenhuma outra sugestão, ela dormiu bem. Mas sentiu dores gástricas pela manhã. Estas surgiram ontem, no jardim, onde ela permaneceu muito tempo com as filhas. Concordou em que eu limitasse as visitas das moças a duas horas e meia. Alguns dias atrás recriminara a si própria por deixar as filhas sozinhas. Encontrei-a um tanto agitada hoje; a testa estava enrugada, a fala era hesitante e ela produzia aqueles estalidos característicos. Enquanto era massageada, disse-me apenas que a governanta das filhas lhe levara um atlas etnológico e que algumas fotografias de índios norte-americanos vestidos como animais lhe produziram um grande choque. “Pense só se eles ganhassem vida!” (Estremeceu.)

Sob hipnose perguntei-lhe por que se assustara tanto com essas fotografias, visto já não ter mais medo de animais. Respondeu que a tinham feito recordar as visões que tivera (aos dezenove anos) na época da morte do irmão. (Deixarei para depois as indagações sobre essa lembrança.) A seguir, perguntei-lhe se sempre gaguejara e há quanto tempo tinha o tique (o estalido peculiar): A gagueira, disse, surgira quando estava doente; tinha o tique há cinco anos, desde o tempo em que estivera sentada à cabeceira da filha mais nova, quando esta esteve muito doente, e desejara ficar absolutamente quieta. Tentei reduzir a importância dessa lembrança, ressaltando que, afinal de contas, nada acontecera à filha, e assim por diante. A coisa surgia, disse-me ela, sempre que ficava apreensiva ou assustada. Dei-lhe instruções para que não se assustasse com os retratos dos peles-vermelhas, mas que risse à vontade deles e até chamasse para eles minha atenção. E isso de fato aconteceu depois de ela despertar: olhou para o livro, perguntou-me se o tinha visto, abriu-o na página e riu alto das figuras grotescas, sem o menor indício de medo e sem que suas feições denotassem a menor tensão. O Dr. Breuer entrou subitamente com o médico interno para visitá-la. Ela se assustou e começou a produzir o estalido característico, de modo que eles logo se retiraram. A paciente me explicou que ficara agitada daquela maneira por ser desagradavelmente afetada pelo fato de o médico interno também entrar a todo instante.

Eu também havia eliminado suas dores gástricas durante a hipnose, tocando-a levemente no abdome, e lhe disse que, embora ela esperasse pelo retorno da dor depois do almoço, isso não aconteceria.

Noite. - Pela primeira vez ela se mostrou alegre e falante e deu mostras de um senso de humor que eu não teria esperado numa mulher tão séria; e entre outras coisas, com a acentuada sensação de estar melhor, zombou do tratamento feito por meu antecessor. De há muito pretendia, segundo me disse, desistir daquele tratamento, mas não conseguia encontrar o método certo de fazê-lo, até que uma observação fortuita feita pelo Dr. Breuer, numa ocasião em que a visitou, indicou-lhe a solução. Quando pareci surpreso com isso, assustou-se e começou a recriminar-se asperamente por ter sido indiscreta. Ao que parece, porém, consegui reassegurá-la. - Ela não tinha sentido as dores gástricas, embora as houvesse esperado.

Sob hipnose pedi-lhe que me contasse outras experiências que tivessem dado margem a um medo duradouro. Ela forneceu uma segunda seqüência dessa espécie, que datava do final de sua juventude, com a mesma rapidez da primeira seqüência, e me assegurou mais uma vez que todas essas cenas surgiram diante dela muitas vezes, nitidamente e em cores. Uma delas era de como viu uma prima ser levada para um asilo de loucos (quando ela estava com quinze anos). Ela havia tentado pedir socorro, mas não conseguira e perdera a capacidade de falar até a noite do mesmo dia. Visto que ela falava em hospícios com muita freqüência em seu estado de vigília, interrompi-a e perguntei em que outras ocasiões ela se preocupara com a loucura. Ela me contou que sua própria mãe tinha passado algum tempo num hospício. Em certa época, tiveram uma empregada cuja antiga patroa estivera muito tempo internada numa dessas instituições e que costumava contar-lhes histórias aterradoras de como os pacientes eram amarrados a cadeiras, espancados, etc. Ao narrar-me isso, retorceu as mãos, horrorizada; estava vendo tudo diante dos olhos. Esforcei-me por corrigir-lhe as idéias sobre os manicômios e lhe assegurei que ela conseguiria ouvir falar de instituições dessa natureza sem referi-las a si mesma. Com isso, suas feições se relaxaram.

Prosseguiu com sua relação de lembranças aterradoras. Uma, aos quinze anos, de como encontrara a mãe, que tivera um derrame cerebral, estendida no chão (a mãe viveu mais quatro anos); de novo, aos dezenove, de como chegou a casa certo dia e encontrou a mãe morta, com o rosto contorcido. Naturalmente, tive uma dificuldade considerável em atenuar-lhe essas lembranças. Após uma explicação bastante longa, assegurei-lhe que também esse quadro só lhe surgiria outra vez de forma indistinta e sem intensidade. - Outra lembrança era a da maneira como, aos dezenove anos, ela levantou uma pedra e encontrou debaixo dela um sapo, o que a fez perder a fala durante horas.

Durante essa hipnose convenci-me de que ela sabia de tudo o que acontecera na última hipnose, enquanto na vida de vigília não tem nenhum conhecimento disso.

 

10 de maio, manhã. - Pela primeira vez, deram-lhe hoje um banho de farelo, em vez de seu habitual banho morno. Achei-a com uma expressão de aborrecimento e angústia, com as mãos envoltas num xale. Queixava-se de frio e dores. Quando lhe perguntei o que se passava, disse-me que o banho fora incomodamente curto e provocara dores. Durante a massagem, começou por dizer que ainda se sentia mal por ter atraiçoado o Dr. Breuer ontem. Acalmei-a com uma pequena mentira e disse que eu já sabia daquilo o tempo todo, ao que sua agitação (estalidos, trejeitos faciais) cessou. Todas as vezes, portanto, mesmo enquanto a massageio, minha influência já começa a afetá-la; a paciente fica mais tranqüila e mais lúcida, e mesmo sem que haja perguntas sob hipnose consegue descobrir a causa de seu mau humor daquele dia. Tampouco sua conversa durante a massagem é tão sem objetivo como poderia parecer. Pelo contrário, encerra uma reprodução razoavelmente completa das lembranças e das novas impressões que a afetaram desde nossa última conversa e, muitas vezes, de maneira bem inesperada, progride até as reminiscências patogênicas, que ela vai desabafando sem ser solicitada. É como se tivesse adotado meu método e se valesse de nossa conversa, aparentemente sem constrangimento e guiada pelo acaso, como um complemento de sua hipnose. Por exemplo, hoje começou a falar sobre sua família e, com muitos rodeios, passou ao assunto de um primo. Este não era muito bom da cabeça e os pais mandaram arrancar-lhe todos os dentes de uma só vez. Ela acompanhou a história com expressões de horror e ficou repetindo sua fórmula protetora (“Fique quieto! - Não diga nada! - Não me toque!”). Depois disso, seu rosto se descontraiu e ela ficou alegre. Assim, seu comportamento na vida de vigília é dirigido pelas experiências que teve durante o sonambulismo, embora acredite, enquanto está acordada, nada saber a respeito delas.

Sob hipnose repeti minha pergunta quanto àquilo que a perturbara e recebi as mesmas respostas, mas na ordem inversa: (1) sua conversa indiscreta de ontem, e (2) suas dores provocadas por ter sentido muito desconforto no banho. - Perguntei-lhe hoje o significado de sua frase “Fique quieto!”, etc. Explicou que, quando tinha pensamentos assustadores, temia que eles fossem interrompidos em seu curso, porque então tudo ficaria confuso e as coisas ficariam ainda piores. O “Fique quieto!” relacionava-se com o fato de que as formas animais que lhe apareciam quando ela se achava em mau estado começavam a mover-se e a atacá-la se alguém fizesse um movimento em sua presença. A exortação final “Não me toque!” provinha das seguintes experiências: contou-me como, quando o irmão estivera muito doente por ter ingerido muita morfina - ela estava com dezenove anos na ocasião - costumava muitas vezes agarrá-la, e como, de outra feita, um conhecido enlouquecera de súbito em sua casa e a tinha segurado pelo braço (houve um terceiro exemplo semelhante, do qual não se recordava com exatidão); e por último, como, quando tinha vinte e oito anos e a filha estava muito doente, a criança se agarrara nela com tanta força em seu delírio que ela quase fora sufocada. Embora esses quatro exemplos fossem tão separados no tempo, ela os relatou numa única frase e numa sucessão tão rápida que poderiam ter constituído um único episódio em quatro atos. A propósito, todos os relatos que me fazia de traumas como esses, dispostos em grupos, começavam por um “como”, sendo os traumas componentes separados por um “e”. Uma vez que percebi que a fórmula protetora se destinava a salvaguardá-la contra uma repetição dessas experiências, eliminei esse medo por meio da sugestão e, de fato, jamais a ouvi dizer a fórmula de novo.

Noite. - Encontrei-a muito animada. Contou-me, sorridente, que se assustara com um cãozinho que havia latido para ela no jardim. Seu rosto, porém, estava um pouco contraído, e havia certa agitação interna, que só desapareceu quando ela me perguntou se eu estava aborrecido com alguma coisa que ela dissera durante a massagem nessa manhã e respondi “não”. Sua menstruação recomeçou hoje, após um intervalo que mal chegou a uma quinzena. Prometi-lhe regulá-la por sugestão hipnótica e, sob hipnose, fixei o intervalo em 28 dias.

Em hipnose, também lhe perguntei se se recordava da última coisa que me contara; ao perguntar-lhe isso, o que eu tinha em mente era uma tarefa que restara da noite passada, mas ela começou, muito corretamente, pelo “não me toque” da hipnose de hoje de manhã. Assim, levei-a de volta ao assunto de ontem. Eu lhe havia perguntado qual a origem de sua gagueira e ela respondera “não sei”. Pedira-lhe, portanto, que se lembrasse disso na hora da hipnose de hoje. Em conseqüência, me respondeu hoje, sem nenhuma reflexão adicional, mas com grande agitação e com dificuldades espásticas na fala: “Como os cavalos certa vez saíram em disparada com as crianças na carruagem; e como outra vez eu estava passando de carruagem pela floresta com as meninas, durante uma tempestade, e uma árvore bem à frente dos cavalos foi atingida por um raio e os cavalos se assustaram e eu pensei: ‘Agora você precisa ficar bem quietinha, senão seus gritos vão assustar os cavalos ainda mais e o cocheiro não conseguirá contê-los de jeito nenhum.’ Surgiu a partir daquele momento.” A paciente ficou extraordinariamente agitada ao contar-me essa história. Soube também por ela que a gagueira tinha começado logo após a primeira dessas duas ocasiões, mas havia desaparecido pouco depois e então se estabelecera de uma vez por todas após a segunda ocasião semelhante. Apaguei sua lembrança plástica dessas cenas, mas pedi-lhe que as imaginasse mais uma vez. Ela pareceu tentar fazê-lo e permaneceu quieta enquanto atendia a meu pedido; a partir de então, falou durante a hipnose sem qualquer impedimento espástico.

Verificando que ela estava disposta a ser comunicativa, perguntei-lhe que outros fatos em sua vida a haviam assustado tanto a ponto de a terem deixado com lembranças plásticas. Ela respondeu fornecendo-me uma coleção de tais experiências: - |1| Como um ano após a morte da mãe, estava visitando uma francesa que era sua amiga, quando lhe disseram que fosse ao quarto contíguo com outra moça para buscar um dicionário e ela viu, sentado na cama, alguém que tinha a aparência idêntica à da mulher que ela acabara de deixar no outro aposento. Ficou toda rígida e pregada no chão. Depois, ficara sabendo que se tratava de um manequim especialmente preparado. Asseverei que o que a paciente tinha visto fora uma alucinação e apelei para seu bom senso, e então seu rosto se relaxou. |2| Como cuidara do irmão enfermo e este tivera acessos terríveis por causa da morfina, aterrorizando-a e agarrando-a. Lembrei que ela já havia mencionado essa experiência hoje de manhã e, a título de experimentação, perguntei-lhe em que outras ocasiões esse “agarramento” havia ocorrido. Para minha agradável surpresa, ela fez uma longa pausa dessa vez antes de responder e então perguntou, num tom de dúvida: “Minha filhinha?” Ficou inteiramente incapaz de recordar-se das outras duas ocasiões (ver atrás |em [1]|). Minha proibição - o apagamento de suas lembranças - tinha sido, portanto, eficaz. - E mais: |3| como, enquanto cuidava do irmão, o rosto pálido da tia havia aparecido de súbito por cima do biombo. Ela acabara de convertê-lo ao catolicismo.

Vi que havia chegado à raiz de seu constante temor das surpresas e pedi-lhe outros exemplos. Prosseguiu: como tinha na casa dela um amigo que gostava de entrar furtivamente no quarto, de modo que de repente estava lá; como ela ficara muito doente após a morte da mãe e fora para uma casa de saúde, e um lunático havia entrado por engano em seu quarto várias vezes, à noite, chegando bem perto de sua cama; e por fim, como, na vinda de Abbazia para cá, um estranho abrira quatro vezes a porta de sua cabine e cada vez fixara nela um olhar demorado. A Sra. Emmy tinha ficado tão apavorada que chegou a chamar o condutor.

Apaguei todas essas lembranças, despertei-a e lhe garanti que ela dormiria bem à noite, tendo deixado de fazer-lhe essa sugestão na hipnose. A melhora de seu estado geral foi revelada por sua observação de que não lera nada hoje, pois estava vivendo num sonho muito feliz - ela, que sempre tinha que estar fazendo alguma coisa em virtude de sua inquietude interior.

 

11 de maio, manhã. - Hoje teve uma entrevista com o Dr. N., o ginecologista, que deve examinar sua filha mais velha por causa das complicações menstruais. Encontrei a Sra. Emmy bastante agitada, embora isso se traduzisse em sinais físicos mais leves que antes. De vez em quando, exclamava: “Estou com medo, estou com tanto medo que acho que vou morrer.” Perguntei-lhe de que estava com medo. Era o Dr. N.? Não sabia, respondeu; simplesmente estava com medo. Sob a hipnose, que induzi antes da chegada de meu colega, declarou ter medo de que me tivesse ofendido por alguma coisa que dissera durante a massagem, ontem, que lhe parecera indelicada. Também tinha medo de tudo o que era novo e, por conseguinte, do novo médico. Consegui acalmá-la e, embora se assustasse uma ou duas vezes na presença do Dr. N., ela se comportou muito bem e não produziu nenhum de seus estalidos nem houve qualquer inibição da fala. Depois que ele se foi, tornei a colocá-la sob hipnose para eliminar qualquer possível resíduo da excitação provocada pela visita. Ela própria ficou muito contente com seu comportamento e depositou grandes esperanças no tratamento; tentei convencê-la, a partir desse exemplo, de que não é preciso ter medo do que é novo, já que o que é novo também contém o que é bom.

 

Noite. - Estava muito animada e desabafou um grande número de dúvidas e escrúpulos em nossa conversa antes da hipnose. Durante a hipnose, perguntei-lhe que acontecimento de sua vida havia produzido efeito mais duradouro sobre ela e que mais surgia em sua memória. A morte do marido, respondeu. Fiz com que me descrevesse esse fato com todos os pormenores e ela o fez, com todos os sinais da mais profunda emoção, mas sem nenhum estalido e sem gaguejar: - Como, começou a dizer, tinham ido a um lugar de que ambos gostavam muito na Riviera e, ao atravessarem uma ponte, ele caíra de repente no chão e lá ficara inerte por alguns minutos, mas depois se levantara, parecendo estar muito bem; como, pouco tempo depois, quando ela estava de cama após seu segundo parto, o marido, que estivera tomando o café da manhã numa mesinha ao lado de sua cama e lendo o jornal, levantara-se de súbito, olhando-a de modo muito estranho, dera alguns passos à frente e, em seguida, caíra morto; ela havia se levantado da cama, e os médicos que foram chamados se esforçaram para reanimá-lo, o que ela ouviu do quarto contíguo, mas em vão. E, prosseguiu a Sra. Emmy, como o bebê, que contava então algumas semanas de idade, fora tomado de grave moléstia, que durou seis meses, durante a qual ela própria ficara de cama com muita febre. - E vieram então, em ordem cronológica, suas reclamações contra essa criança, que ela externou rapidamente, com uma expressão zangada no rosto, da maneira como alguém falaria de uma pessoa que se houvesse tornado um incômodo. Essa criança, disse, se comportara de forma muito estranha por longo tempo; gritava o tempo todo e não dormia, e desenvolvera uma paralisia da perna esquerda cuja recuperação parecera apresentar muito poucas esperanças. Aos quatro anos, a criança tivera visões; aprendera a andar e a falar, tardiamente, de modo que por muito tempo fora julgada idiota. De acordo com os médicos, tivera encefalite e mielite e ela não sabia mais o quê. Interrompi-a nesse ponto e a fiz ver que essa mesma criança era hoje uma menina normal, que gozava de perfeita saúde, e impossibilitei-a de voltar a ver qualquer dessas coisas melancólicas, não apenas apagando suas lembranças das mesmas na forma plástica, mas também removendo toda a sua recordação dessas coisas, como se nunca tivessem existido em sua mente. Prometi-lhe que isso a levaria a libertar-se da expectativa de infortúnios que não cessava de atormentá-la e também das dores por todo o corpo, das quais se queixara precisamente durante sua narrativa, depois de passarmos vários dias sem ouvir falar nelas.

 

Para minha surpresa, depois dessa minha sugestão, ela começou a falar, sem qualquer transição, sobre o Príncipe L., cuja fuga de um hospício era objeto de muitos comentários nessa época. Externou novos temores sobre os hospícios - de que as pessoas que lá se encontravam recebiam duchas de água gelada na cabeça e eram postas num aparelho que as fazia girar ininterruptamente até se acalmarem. Quando, há três dias, ela se queixara pela primeira vez do seu medo dos hospícios, eu a havia interrompido após sua primeira história, a de que os pacientes eram amarrados a cadeiras. Vi então que nada tinha ganho com essa interrupção e que não posso me furtar a escutar suas histórias com todos os detalhes até a última palavra. Depois de reparar essas falhas, livrei-a também dessa nova safra de temores. Apelei para seu bom senso e lhe disse que ela realmente deveria acreditar mais em mim do que na moça tola de quem ouvira aquelas histórias horripilantes sobre a maneira como se trabalha nos hospícios. Como notei que ela às vezes ainda gaguejava ao narrar-me essas outras coisas, perguntei-lhe mais uma vez de onde provinha a gagueira. Nenhuma resposta. - “A senhora não sabe?” - “Não.” - “Por que não?” - “Por que não?” - “Porque não posso saber!” (Pronunciou estas últimas palavras com violência e raiva). Essa declaração me parece ser a prova do êxito de minha sugestão, mas ela me expressou o desejo de que a despertasse da hipnose, e assim fiz.

 

12 de maio, |manhã|. - Contrariamente a minha expectativa, ela dormira mal e por pouco tempo. Encontrei-a num estado de grande angústia, embora, incidentalmente, sem demonstrar seus costumeiros sinais físicos desta. Não disse o que estava acontecendo, mas apenas que tivera sonhos ruins e ficava vendo as mesmas coisas. “Como seria horrível”, disse, “se eles se tornassem realidade”. Durante a massagem, ela abordou alguns pontos em resposta a minhas perguntas. Ficou alegre então; falou-me de sua vida social na casa do Báltico que lhe coubera por morte do marido, das pessoas importantes que recebe da cidade vizinha, etc.

Hipnose. - Ela tivera alguns sonhos de horror. Os pés e braços das cadeiras se haviam transformado todos em cobras; um monstro com bico de abutre estraçalhava e comia todo o seu corpo; outros animais selvagens saltavam sobre ela, etc. Passou então a outros delírios com animais, que, contudo, qualificou acrescentando: “Isso foi real” (não um sonho): como (numa ocasião anterior) ela fora apanhar um novelo de lã e era um rato que saíra correndo; como estivera fazendo uma caminhada e um grande sapo saltara de repente sobre ela, e assim por diante. Compreendi que minha proibição geral fora ineficaz e que teria de afastar dela suas impressões assustadoras uma a uma. Aproveitei também a oportunidade para lhe perguntar por que ela sofria de dores gástricas e de onde provinham. (Creio que todos os seus acessos de zoopsia |alucinações com animais| são acompanhados de dores gástricas.) Sua resposta, dada a contragosto, foi que não sabia. Pedi-lhe que se lembrasse até amanhã. Disse-me então, num claro tom de queixa, que eu não devia continuar a perguntar-lhe de onde provinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar-me o que tinha a dizer. Concordei com isso e ela prosseguiu, sem nenhum preâmbulo: “Quando o levaram embora, não pude acreditar que ele estivesse morto.” (Estava, portanto, falando sobre o marido mais uma vez, e compreendi então que a causa de seu mau humor era que ela estivera sofrendo em virtude dos resíduos não revelados dessa história.) Depois disso, contou-me, odiara a filha por três anos, pois sempre disse a si mesma que talvez tivesse podido restaurar a saúde do marido se não estivesse de cama por causa da criança. Além disso, após a morte do marido, não tinha havido nada senão insultos e agitações. Os parentes dele, que sempre foram contra o casamento e que tinham ficado com raiva por eles serem tão felizes juntos, espalharam o boato de que ela o havia envenenado, de modo que ela desejara abrir um inquérito. Os parentes tinham-na envolvido em toda espécie de processos legais, com a ajuda de um jornalista suspeito. O miserável espalhara agentes a fim de incitar as pessoas contra ela. Fazia com que os jornais locais publicassem artigos difamantes a seu respeito e depois lhe mandava recortes. Essa fora a origem de sua insociabilidade e de seu ódio por todos os estranhos. Após eu dizer algumas palavras tranqüilizadoras sobre o que me contara, ela disse que se sentia melhor.

 

13 de maio, |manhã|. - Mais uma vez ela dormira mal, por causa de dores gástricas. Não tinha jantado. Também não se queixou de dores no braço direito. Mas estava de bom humor; mostrou-se alegre e, desde ontem, tem-me tratado com especial distinção. Pediu minha opinião sobre toda espécie de coisas que lhe pareciam importantes e ficou excessivamente agitada, por exemplo, quando tive de procurar as toalhas necessárias à massagem, e assim por diante. Seu estalido e seu tique facial eram freqüentes.

Hipnose. - Ontem à noite, súbito lhe ocorrera por que os animaizinhos que ela via se tornavam tão grandes. Isso lhe acontecera pela primeira vez em D -, durante um espetáculo teatral em que um enorme lagarto aparecia em cena. Essa lembrança a havia atormentado muito ontem também.

O motivo do reaparecimento dos estalidos foi que ontem ela teve dores abdominais e tentou não gemer para não demonstrá-las. Não tinha nenhuma idéia da verdadeira causa desencadeadora do estalido (ver em |[1]|.) Também se recordou de que eu lhe dera instruções para descobrir a origem de suas dores gástricas. Não o sabia, contudo, e me pediu que a ajudasse. Perguntei-lhe se, talvez, em alguma ocasião após uma grande excitação, ela se haveria forçado a comer. Ela confirmou isso. Após a morte do marido, perdera inteiramente o apetite por muito tempo e havia comido apenas por um sentimento de obrigação, e as dores gástricas haviam de fato começado naquela época. Eliminei então essas dores passando a mão algumas vezes sobre seu epigástrio. A seguir, por conta própria, ela começou a falar sobre as coisas que mais a haviam afetado. “Já lhe contei”, disse, “que não gostava da criança. Mas devo acrescentar que ninguém poderia adivinhar isso por meu comportamento. Fiz tudo o que era necessário. Até hoje me recrimino por ter gostado mais da primogênita”.

 

14 de maio, |manhã.| - Estava bem e alegre e dormira até 7h30min da manhã. Queixou-se apenas de ligeiras dores na região radial da mão e na cabeça e rosto. O que ela me diz antes da hipnose vai adquirindo um significado cada vez maior. Hoje não teve quase nada de horrível para apresentar. Queixou-se de dores e perda de sensibilidade na perna direita. Disse-me que teve um surto de inflamação abdominal em 1871; mal se havia recuperado, ficou tratando do irmão doente, e foi então que as dores apareceram pela primeira vez, chegando até a levar a uma paralisia temporária da perna direita.

Durante a hipnose, perguntei-lhe se agora lhe seria possível participar da vida social, ou se ainda estava muito temerosa. Respondeu-me que ainda lhe era desagradável ter alguém de pé atrás dela ou mesmo a seu lado. A esse respeito, falou-me de outras ocasiões em que fora desagradavelmente surpreendida pelo súbito aparecimento de alguém. Certa feita, por exemplo, quando passeava com as filhas na ilha de Rügen, dois indivíduos de aparência suspeita haviam saído de uns arbustos e lhes dirigido insultos. Em Abbazia, quando estava passeando certa noite, um mendigo saíra de repente de detrás de uma pedra e se ajoelhara diante dela. Parece que era um louco inofensivo. Por último, contou-me como sua isolada casa de campo fora arrombada à noite, o que muito a havia alarmado. É fácil ver, entretanto, que a origem essencial desse medo das pessoas foi a perseguição a que ela se viu sujeita após a morte do marido.

Noite. - Embora parecesse muito animada, saudou-me com a exclamação: “Estou morta de medo; oh, mal posso lhe dizer, eu me odeio!” Afinal fui informado de que ela havia recebido a visita do Dr. Breuer e levara um susto ao vê-lo aparecer. Como ele percebeu isso, ela lhe assegurou que fora “só aquela vez”. Ficou profundamente penalizada por minha causa, por ter traído esse vestígio de seu antigo nervosismo. Em mais de uma ocasião tive oportunidade de notar, nestes últimos dias, o quanto ela é severa consigo mesma, como tende a se culpar com severidade pelos ínfimos sinais de negligência - quando as toalhas para a massagem não estão em seu lugar habitual ou quando o jornal para eu ler enquanto ela adormece não se encontra prontamente à mão. Após a eliminação da primeira e mais superficial camada de lembranças torturantes, sua personalidade moralmente supersensível, com tendência à autodepreciação, veio à tona. Tanto em seu estado de vigília como sob a hipnose, eu lhe disse (o que correspondeu ao velho preceito legal “de minimis non curat lex” que existe uma multidão de coisinhas insignificantes entre o que é bom e o que é mau - coisas sobre as quais ninguém precisa censurar-se. Ela não aceitou minha lição, suponho, tal como não o faria um monge medieval, que vê o dedo de Deus ou a tentação do Demônio em cada fato trivial de sua vida e que é incapaz de imaginar o mundo, sequer por um momento fugaz ou em seu menor recanto, como destituído de uma referência a ele próprio.

Em sua hipnose, ela trouxe à baila algumas outras imagens apavorantes (em Abbazia, por exemplo, via cabeças ensangüentadas em cada onda do mar). Fi-la repetir as instruções que lhe dera enquanto estava acordada.

 

15 de maio, |manhã.| - Ela dormira até as 8h30min da manhã, mas depois ficara inquieta, tendo-me recebido com ligeiros sinais de seu tique, dos estalidos e da inibição da fala. “Estou morta de medo”, disse mais uma vez. Em resposta a uma pergunta, falou-me que a pensão onde se encontravam suas filhas ficava no quarto andar de um prédio e lá se chegava de elevador. Ontem havia insistido em que as filhas usassem o elevador tanto para descer como para subir, e agora se recriminava por isso, porque não se devia confiar inteiramente no ascensor. O próprio dono da pensão tinha dito isso. Teria eu ouvido, perguntou, a história da Condessa Sch., que encontrara a morte em Roma num acidente dessa natureza? Por coincidência, conheço essa pensão e sei que o elevador é propriedade particular do dono da mesma; não me parece provável que esse homem, que chama uma atenção especial para o elevador num anúncio, fosse ele próprio advertir alguém contra sua utilização. Pareceu-me que teríamos aí uma das paramnésias acarretadas pela angústia. Dei a minha opinião à Sra. Emmy e consegui, sem nenhuma dificuldade, fazê-la rir da improbabilidade de seus temores. Exatamente por essa razão, não pude acreditar que esta fosse a causa da sua angústia e decidi formular a pergunta a sua consciência hipnótica. Durante a massagem, que hoje reiniciei após um intervalo de alguns dias, ela me contou uma série de histórias sem ligação umas com as outras, que talvez tenham sido reais - sobre um sapo que foi encontrado num porão, uma mãe excêntrica quecuidava do filho idiota de maneira estranha, uma mulher que foi trancada num hospício porque sofria de melancolia - e que revelavam o tipo de recordações que lhe passavam pela cabeça quando ela estava intranqüila. Depois de se livrar dessas histórias, ficou muito animada. Descreveu a vida em sua propriedade e seus contatos com homens preeminentes da Rússia teutônica e da Alemanha setentrional e, na verdade, achei extremamente difícil conciliar atividades desse tipo com o quadro de uma mulher tão gravemente neurótica.

Assim, perguntei-lhe em sua hipnose por que ela estava tão desassossegada esta manhã. Em vez de suas dúvidas sobre o elevador, informou-me ter sentido medo de que sua menstruação recomeçasse e tornasse a interferir na massagem.

 

Fiz então com que ela me contasse a história das dores na perna. Começou da mesma forma que ontem |falando sobre haver cuidado do irmão| e prosseguiu com uma longa série de exemplos de experiências, alternadamente aflitivas e irritantes, que tivera ao mesmo tempo que as dores na perna e cujo efeito fora o de torná-las cada vez piores, até mesmo a ponto de ela ficar com paralisia bilateral e perda de sensibilidade nas pernas. O mesmo se aplicava às dores do braço. Elas também surgiram enquanto a paciente cuidava de algum doente, ao mesmo tempo que as cãibras no pescoço.”Quanto a estas, fiquei sabendo apenas que se seguiram a alguns curiosos estados de inquietude acompanhados de depressão, que já existiam antes. Consistem num “aperto gelado” na nuca, juntamente com o surgimento da rigidez e um frio doloroso em todas as extremidades da paciente, incapacidade de falar e completa prostração. Duram de seis a doze horas. Falharam minhas tentativas de demonstrar que esse complexo de sintomas representava uma lembrança. Fiz-lhe algumas perguntas com a finalidade de descobrir se seu irmão, enquanto a paciente o assistia durante o delírio dele, alguma vez a agarrara pelo pescoço; mas ela negou e disse não saber de onde provinham esses acessos.

 

Noite. - Ela estava muito animada e demonstrava grande senso de humor. Contou-me, aliás, que o caso do elevador não era como me havia relatado. O proprietário só dissera aquilo para dar uma desculpa pelo fato de o elevador não ser utilizado para descer. Ela me fez um grande número de perguntas que nada tinham de patológicas. Tem sofrido de lancinantes dores no rosto, na mão junto ao polegar e na perna. Fica rígida e sente dores no rosto se ficar sentada sem se mexer ou se olhar fixamente para algum ponto por um período considerável de tempo. Quando levanta qualquer coisa pesada, isso lhe causa dores no braço. - O exame da perna direita revelou sensibilidade relativamente boa na coxa, alto grau de insensibilidade na parte inferior da perna e no pé e menor na região das nádegas e do quadril.

Sob hipnose, ela me informou que ocasionalmente ainda tem idéias assustadoras, como a de que algo pode acontecer com suas filhas, que elas poderiam adoecer ou morrer, ou que o irmão dela, que está agora em lua-de-mel, poderia sofrer um acidente, ou que a esposa dele poderia morrer (porque os casamentos de todos os seus irmãos e irmãs tinham sido muito curtos). Não consegui arrancar da paciente quaisquer outros temores. Proibi-a de sentir qualquer necessidade de se assustar quando não houvesse nenhum motivo para isso. Prometeu-me desistir disso “porque o senhor está pedindo”. Dei-lhe outras sugestões quanto às dores, à perna, etc.

 

16 de maio, |manhã|. - Ela havia dormindo bem. Queixava-se ainda de dores no rosto, braços e pernas. Estava muito alegre. Sua hipnose não rendeu nada. Apliquei um pincel farádico em sua perna insensibilizada.

Noite. - Sobressaltou-se assim que entrei: “Estou muito contente com sua vinda”, disse, “estou muito assustada”. Ao mesmo tempo, dava todos os sinais de terror, juntamente com a gagueira e o tique. Primeiro fiz com que me contasse, em estado de vigília, o que tinha acontecido. Retorcendo os dedos e estendendo as mãos para a frente, pintou um quadro nítido de seu terror ao dizer: “Um camundongo enorme passou de repente sobre minha mão no jardim e desapareceu num segundo; as coisas ficaram deslizando para trás e para a frente.” (Uma ilusão do jogo de sombras?) “Um bando inteiro de ratinhos estava sentado nas árvores. - O senhor não está ouvindo os cavalos batendo com as patas no circo? - Há um homem gemendo no quarto ao lado; deve estar sentindo dores depois de sua operação. - Será que estou em Rügen? Eu tinha uma estufa como essa lá?” Ela estava confusa com a multidão de pensamentos que se entrecruzavam em seu cérebro e com o esforço que fazia para separá-los do ambiente que a cercava de fato. Quando lhe formulei perguntas sobre coisas atuais, tais como se as filhas estavam aqui, não soube dar nenhuma resposta.

Tentei desembaraçar por meio da hipnose a confusão que lhe ia pela mente. Perguntei-lhe o que era que a assustava. Repetiu a história do camundongo, com todos os sinais de terror, e acrescentou que, quando descia os degraus, viu um animal horrível deitado, que desapareceu imediatamente. Disse-lhe que isso eram alucinações e lhe instruí para que não se assustasse com os camundongos; só os bêbados é que os viam (ela detestava bêbados). Contei-lhe a história do Bispo Hatto. Ela também a conhecia, e ouviu-a horrorizada. - “Como foi que a senhora veio a pensar no circo?” perguntei-lhe então. Disse-me que tinha ouvido claramente os cavalos batendo com as patas nos estábulos ali perto e acabando presos nos arreios, o que poderia machucá-los. Quando isso acontecia, Johann costumava sair para desamarrá-los. Neguei que houvesse estábulos por perto ou que alguém no quarto contíguo tivesse gemido. Ela sabia onde estava? Respondeu que agora sabia, mas antes pensara estar em Rügen. Perguntei-lhe como tinha chegado a essa lembrança. Tinham estado conversando no jardim, disse, sobre como fazia calor numa parte dele, e imediatamente lhe viera a idéia do terraço sem sombra em Rügen. Muito bem, perguntei-lhe, quais eram as recordações tristes que guardava de sua estada em Rügen? Ela citou uma série delas. Lá sentira as dores mais terríveis nas pernas e nos braços; quando saía em excursões, fora várias vezes apanhada por um nevoeiro e se perdera; duas vezes, quando passeava, um touro tinha corrido atrás dela, e assim por diante. Como é quando tinha tido essa crise hoje? - Como (respondeu)? Escrevera grande número de cartas; tinha levado três horas e isso lhe deixara a cabeça confusa. - Pude presumir, por conseguinte, que seu surto delirante fora provocado pelo cansaço e que seu conteúdo fora determinado por associações tais como a do lugar sem sombra do jardim, etc. Repeti todos os conselhos que tinha o hábito de lhe dar e deixei-a recomposta para dormir.

 

17 de maio, |manhã|. - Ela passou a noite muito bem. No banho de farelo que tomou hoje, deu alguns gritos, por ter confundido o farelo com vermes. Fui informado disso pela enfermeira. A própria paciente relutou em falar-me a respeito. Estava quase exageradamente alegre, mas interrompia-se com exclamações de horror e asco e fazia caretas que expressavam terror. Também gaguejou mais do que nos últimos dias. Contou-me haver sonhado, na noite passada, que estava caminhando sobre uma porção de sanguessugas. Na noite anterior tinha tido sonhos horríveis. Tivera que amortalhar um grande número de defuntos e colocá-los em caixões, mas não os tampava. (Obviamente, uma lembrança do marido.) Disse-me ainda que, no decurso de sua vida, tivera inúmeros incidentes com animais. O pior tinha sido com um morcego que ficara preso em seu guarda-roupa, de modo que ela se precipitara para fora do quarto sem nenhuma roupa. Para curá-la desse medo, o irmão lhe dera um belo broche com a forma de um morcego, mas ela nunca pudera usá-lo.

Sob hipnose, explicou-me que seu medo de vermes provinha de ter recebido como presente, certa vez, uma linda almofada para alfinetes; na manhã seguinte, porém, quando quis usá-la, uma porção de vermezinhos saíram da almofada, que tinha sido enchida com farelo que não estava bem seco. (Uma alucinação? Talvez um fato real.) Pedi-lhe que me contasse outras histórias de animais. Certa feita, disse ela, quando passeava com o marido num parque de São Petersburgo, todo o caminho que levava a um pequeno lago estava recoberto de sapos, de modo que foram obrigados a voltar. Houve épocas em que ela ficara impossibilitada de estender a mão para qualquer pessoa, temendo que a mão se transformasse num animal terrível, como tantas vezes tinha acontecido. Tentei libertá-la de seu medo de animais designando-os um por um e perguntando-lhe se tinha medo deles. Em alguns casos, respondeu “não”; em outros, “não devo ter medo deles”. Perguntei-lhe por que havia gaguejado e se mexido tanto ontem. Respondeu que sempre fazia isso quando estava muito assustada. - Mas por que tinha estado tão assustada ontem? - Porque todas as espécies de pensamentos opressivos lhe haviam passado pela cabeça no jardim: em particular, a idéia de como poderia impedir que algo se acumulasse de novo dentro dela depois que seu tratamento terminasse. Repeti as três razões que eu já lhe tinha dado para sentir-se reassegurada: (1) que ela se tornara mais sadia e mais capaz de ter resistência, (2) que adquiriria o hábito de contar seus pensamentos a alguém com quem mantivesse estreitas relações, e (3) que, daí por diante, consideraria indiferente um grande número de coisas que até então a haviam oprimido. Ela prosseguiu dizendo que também estivera preocupada porque não me havia agradecido pela visita que eu lhe fizera ao fim do dia, e temia que eu perdesse a paciência com ela em vista de sua recente recaída. Ficara muito perturbada e alarmada porque o médico interno perguntara a um senhor no jardim se ele agora se sentia capaz de enfrentar sua operação. A esposa estava sentada ao lado dele, e ela (a paciente) não pôde deixar de pensar que talvez aquela fosse a última noite do pobre homem. Após esta última explicação, sua depressão pareceu dissipar-se.

Noite. - Ela estava muito animada e satisfeita. A hipnose não produziu absolutamente nada. Dediquei-me a cuidar de suas dores musculares e restaurar-lhe a sensibilidade da perna direita. Isso foi conseguido com muita facilidade na hipnose, mas sua sensibilidade restaurada tornou a perder-se parcialmente quando ela despertou. Antes de eu deixá-la, externou seu espanto de que há tanto tempo não tivesse cãibras no pescoço, já que elas costumavam sobrevir antes de cada tempestade.

 

18 de maio. - Há anos não dormia tão bem como na noite passada. Depois do banho, porém, queixou-se de frio na nuca, contrações e dores no rosto, nas mãos e nos pés. Suas feições estavam tensas, e os punhos, cerrados. A hipnose não revelou qualquer conteúdo psíquico subjacente às cãibras no pescoço. Melhorei-as através de massagens, depois que ela havia despertado.

 

Espero que este resumo do histórico das três primeiras semanas do tratamento seja suficiente para fornecer um quadro nítido do estado da paciente, da natureza de meus esforços terapêuticos e da medida de seu êxito. Passarei agora a ampliar o relato do caso.

O delírio que acabo de descrever foi também a última perturbação importante no estado da Sra. Emmy von N. Visto que eu não tomava a iniciativa de procurar os sintomas e sua base, mas esperava que algo surgisse na paciente ou que ela me revelasse algum pensamento que lhe estivesse causando angústia, suas hipnoses logo deixaram de produzir material. Assim, passei a usá-las principalmente com a finalidade de proporcionar-lhe máximas que ficassem sempre em sua mente e que a protegessem contra recaídas em estados semelhantes quando voltasse para casa. Naquela época, eu estava sob total influência do livro de Bernheim sobre sugestão e previa mais resultados dessas medidas didáticas do que o faria hoje. O estado de minha paciente melhorou tão depressa que ela logo me assegurou que não se sentia tão bem desde a morte do marido. Após um tratamento que durou ao todo sete semanas, permiti-lhe que voltasse para sua casa no Báltico.

Não fui eu, mas o Dr. Breuer, quem recebeu notícias dela cerca de sete meses depois. Seu estado de saúde continuara bom durante vários meses, mas depois havia voltado a piorar como resultado de um novo choque psíquico. Sua filha mais velha, durante a primeira estada de ambas em Viena, já havia tido, como a mãe, cãibras no pescoço e ligeiros estados histéricos; em particular, porém, sofrera de dores ao andar, em virtude de uma retroversão do útero. A conselho meu, procurara para tratamento o Dr. N., um de nossos mais famosos ginecologistas, que recolocara o útero em sua posição por meio de massagens, havendo ela ficado livre de problemas durante vários meses. Seus problemas reapareceram, contudo, enquanto as duas estavam em casa, e a mãe chamou um ginecologista da cidade universitária vizinha. Ele receitou para a moça um tratamento local e geral que, todavia, acarretou uma grave doença nervosa (ela estava, na época, com dezessete anos). É provável que isso já fosse um indício da sua predisposição patológica que iria manifestar-se um ano depois numa alteração do caráter. |Ver em [1].| A mãe, que havia entregue a moça às mãos dos médicos com sua habitual mistura de docilidade e desconfiança, foi dominada pelas mais violentas auto-recriminações após o infeliz resultado do tratamento. Uma associação de idéias que eu não tinha investigado levou-a à conclusão de que eu e o Dr. N. éramos os responsáveis pela doença da filha, porque havíamos feito pouco caso da gravidade de seu estado. Por um ato de vontade, por assim dizer, ela desfez os efeitos do meu tratamento e de imediato recaiu nos estados dos quais eu a havia libertado. Um ilustre médico de suas redondezas, a quem procurou para obter orientação, juntamente com o Dr. Breuer, que se correspondia com ela, conseguiram convencê-la da inocência dos dois alvos de suas acusações; mas, mesmo depois que isso se dissipou, a aversão formada contra mim nessa época permaneceu como um resíduo histérico, e ela declarou que lhe era impossível reiniciar o tratamento comigo. A conselho da mesma autoridade médica, recorreu à ajuda de um sanatório na Alemanha setentrional. Por desejo de Breuer, expliquei ao médico encarregado as modificações da terapia hipnótica que eu julgara eficazes no caso dessa paciente.

Essa tentativa de transferência falhou completamente. Desde o início ela parece ter mostrado uma disposição contrária ao médico. Esgotava-se na resistência ao que quer que fosse feito por ela. Ficou deprimida, perdeu o sono e o apetite e só se recuperou depois que uma amiga sua, que foi visitá-la no sanatório, na verdade a seqüestrou às escondidas e tratou-a em sua casa. Pouco tempo depois, exatamente um ano após seu primeiro encontro comigo, ela estava de novo em Viena e mais uma vez se entregou a meus cuidados.

Achei-a muito melhor do que esperava pelos relatos que recebera por carta. Podia movimentar-se e estava livre da angústia, e grande parte do que eu conseguira um ano antes ainda se mantinha. Sua principal queixa era com relação a freqüentes estados de confusão - “tempestades na cabeça”, como as denominava. Além disso, sofria de insônia e muitas vezes ficava em prantos por horas a fio. Sentia-se triste numa determinada hora do dia (cinco horas). Esse era o horário habitual em que, no inverno, pudera visitar a filha na casa de saúde. Gaguejava e emitia o estalido com grande freqüência e esfregava as mãos como se estivesse enfurecida, e quando lhe perguntei se estava vendo muitos animais, apenas respondeu: “Oh, fique quieto!”

À minha primeira tentativa de induzir a hipnose, cerrou os punhos e exclamou: “Não deixarei que me apliquem nenhuma injeção antipirética; prefiro ter minhas dores! Não gosto do Dr. R.; ele me é antipático.” Compreendi que ela estava presa à lembrança de ser hipnotizada no sanatório, e acalmou-se tão logo eu a trouxe de volta à situação atual.

Logo no início do tratamento |reiniciado| tive uma experiência instrutiva. Eu lhe havia perguntado há quanto tempo a gagueira voltara, e ela respondera de forma hesitante (sob hipnose) que tinha sido desde um choque que experimentara em D - durante o inverno. Um garçom do hotel em que estava hospedada havia se escondido em seu quarto de dormir. Na escuridão, disse ela, confundira o objeto com um sobretudo e estendera a mão para apanhá-lo, tendo o homem de repente “dado um pulo para o alto”. Eliminei essa imagem mental e, de fato, a partir daquele momento, ela deixou de gaguejar visivelmente, quer na hipnose, quer na vida de vigília. Não me recordo do que foi que me levou a testar o êxito da minha sugestão, mas quando voltei na mesma noite, perguntei-lhe, num tom aparentemente inocente, como eu poderia trancar a porta quando fosse embora (quando ela estivesse deitada dormindo), de modo que ninguém pudesse entrar furtivamente no quarto. Para meu assombro, ela levou um susto horrível e começou a rilhar os dentes e esfregar as mãos. Revelou que tivera um choque violento desse tipo em D -, mas não consegui persuadi-la a me contar a história. Percebi que tinha em mente a mesma história que me narrar aquela manhã, durante a hipnose, e que eu julgara haver apagado. Em sua hipnose seguinte, contou-me a história com maior riqueza de detalhes e maior verossimilhança. Agitada, estivera andando pelo corredor de um lado para o outro e encontrara aberta a porta do quarto da empregada. Tentou entrar e sentar-se. A empregada lhe bloqueou o caminho, mas a paciente não se deixou deter e entrou, e foi então que viu contra a parede o objeto escuro que veio a se revelar como sendo um homem. Evidentemente, o fator erótico dessa pequena aventura é que a levara a fazer um relato falso da mesma. Isso me ensinou que uma história incompleta sob hipnose não produz nenhum efeito terapêutico. Acostumei-me a considerar incompleta qualquer história que não trouxesse nenhuma melhora, e aos poucos tornei-me capaz de ler nos rostos dos pacientes se eles não estariam ocultando uma parte essencial de suas confissões.

O trabalho que tive de levar a efeito com ela nessa ocasião consistiu em lidar, por meio da hipnose, com as impressões desagradáveis que ela recebera durante o tratamento da filha e quando de sua própria estada no sanatório. Ela estava cheia de raiva, reprimida, pelo médico que a tinha obrigado, sob hipnose, a soletrar a palavra “s…a…p…o” e me fez prometer que jamais a faria dizer isso. A esse respeito, aventurei-me a fazer uma brincadeira prática numa de minhas sugestões a ela. Este foi o único abuso da hipnose - aliás um abuso muito inocente - cuja culpa para com essa paciente tenho de confessar. Assegurei-lhe que sua estada no sanatório em “-tal” |“vale”| se tornaria tão remota para ela que nem sequer conseguiria lembrar-se do nome, e sempre que quisesse referir-se a ele hesitaria entre “-berg” |“colina”|, “-tal”, “-wald” |“bosque”|, e assim por diante. Isso efetivamente aconteceu, e logo o único sinal remanescente de sua inibição da fala foi sua incerteza sobre esse nome. Por fim, após uma observação do Dr. Breuer, aliviei-a dessa paramnésia compulsiva.

Travei com o que ela descrevia como “as tempestades na cabeça” uma luta mais longa do que com os resíduos dessas experiências. Quando a vi pela primeira vez num desses estados, estava deitada no sofá com as feições transtornadas e todo o corpo em permanente agitação. Ficava a pressionar a testa com as mãos e a chamar, em tons de súplica e desânimo, o nome “Emmy”, que era o de sua filha mais velha e também o seu. Sob hipnose, confessou-me que esse estado era uma repetição dos numerosos acessos de desespero pelos quais se vira dominada durante o tratamento da filha, quando, depois de passar horas tentando descobrir algum meio de corrigir seus efeitos negativos, não se lhe apresentava nenhuma saída. Quando, em tais ocasiões, sentia que seus pensamentos ficavam confusos, adotava o hábito de chamar pelo nome da filha, de modo que pudesse ajudá-la a desanuviar a cabeça; e isso porque, durante o período em que a doença da filha lhe estava impondo novos deveres e ela sentia que seu próprio estado nervoso mais uma vez começava a dominá-la, ela determinou que o que quer que tivesse a ver com a moça devia ficar isento de confusão, por mais caótico que tudo o mais pudesse estar em sua cabeça.

 

No decurso de algumas semanas conseguimos eliminar também essas lembranças, e a Sra. Emmy permaneceu sob minha observação por mais algum tempo, sentindo-se perfeitamente bem. Ao final da sua estada aconteceu algo que passarei a descrever com pormenores, visto que lança a mais intensa luz sobre o caráter da paciente e a maneira pela qual seus estados se produziam.

Visitei-a um belo dia na hora do almoço e surpreendi-a no ato de atirar no jardim algo embrulhado em papel, que foi apanhado pelos filhos do porteiro. Em resposta à minha pergunta, ela admitiu que era o seu pudim (seco) e que a mesma coisa acontecia todos os dias. Isso me levou a investigar o que sobrava dos outros pratos e verifiquei que restava mais da metade da comida. Quando lhe perguntei por que comia tão pouco, respondeu que não tinha o hábito de comer mais e que passava mal se o fizesse; a Sra. Emmy tinha a mesma constituição do pai, que também tinha o hábito de comer pouco. Quando lhe perguntei o que bebia, disse-me que só podia tolerar líquidos espessos, como leite, café ou chocolate; beber água, comum ou mineral, lhe perturbava a digestão. Isso tinha todos os sinais de uma escolha neurótica. Tirei uma amostra de sua urina e verifiquei que estava altamente concentrada e sobrecarregada de uratos.

Julguei portanto aconselhável recomendar-lhe que bebesse mais e resolvi também aumentar a quantidade de seus alimentos. É verdade que ela de modo algum parecia magra a ponto de chamar atenção, mas mesmo assim achei que valeria a pena fazê-la comer mais um pouco. Quando, em minha visita seguinte, ordenei-lhe que ingerisse água alcalina e proibi-a de lidar com o pudim da maneira como fazia, demonstrou agitação considerável. “Farei isso porque o senhor está pedindo”, disse “mas posso dizer-lhe de antemão que dará mau resultado, porque é contrário à minha natureza, e o mesmo aconteceu com meu pai”. Quando lhe perguntei sob hipnose por que não podia comer mais nem beber água, respondeu num tom mal-humorado: “Não sei.” No dia seguinte, a enfermeira informou que ela havia comido tudo o que lhe fora servido e bebera um copo de água alcalina. Mas encontrei a própria Sra. Emmy numa profunda depressão e num estado de humor muito irritado. Queixou-se de sentir dores gástricas muito violentas. “Eu lhe disse o que aconteceria”, falou. “Sacrificamos todos os bons resultados pelos quais vimos lutando há tanto tempo. Estraguei minha digestão, como sempre acontece quando como mais ou bebo água, e agora terei de morrer de fome por cinco dias a uma semana antes que possa tolerar qualquer coisa.” Assegurei-lhe que não havia nenhuma necessidade de ela morrer de fome e que era impossível estragar a digestão dessa forma: suas dores se deviam somente à angústia em relação a comer e beber. Ficou claro que essa explicação minha não causou nela a mais leve impressão, pois quando, logo depois, tentei fazê-la dormir, pela primeira vez não consegui provocar a hipnose; e o olhar furioso que ela me dirigiu convenceu-me de que estava em franca rebelião e de que a situação era muito grave. Desisti de tentar hipnotizá-la e anunciei que lhe daria vinte e quatro horas para pensar bem e aceitar a opinião de que suas dores gástricas provinham apenas de seu medo. No fim desse período, eu lhe perguntaria se ainda era de opinião que sua digestão podia ser estragada por uma semana pela ingestão de um copo de água mineral e de uma modesta refeição; se ela dissesse que sim, eu lhe pediria que fosse embora. Essa pequena cena apresentava um acentuado contraste com nossas relações normais, que eram as mais amistosas.

Encontrei-a vinte e quatro horas depois, dócil e submissa. Quando lhe perguntei o que pensava sobre a origem de suas dores gástricas, ela respondeu, porque era incapaz de subterfúgios: “Penso que provêm da minha angústia, mas só porque o senhor é dessa opinião.” Em seguida, coloquei-a em hipnose e perguntei mais uma vez: “Por que a senhora não consegue comer mais?”

A resposta veio prontamente e consistiu, mais uma vez, numa série de razões dispostas em ordem cronológica a partir de seu acervo de lembranças: “Estou pensando em como, quando eu era criança, muitas vezes acontecia que, por malcriação, recusava-me a comer carne ao jantar. Minha mãe era muito severa a esse respeito e, sob a ameaça de um castigo exemplar, eu era obrigada, duas horas depois, a comer a carne, que era deixada no mesmo prato. A essa altura a carne já estava muito fria e a gordura, muito dura” (ela demonstrou sua repulsa) “…Ainda posso ver o garfo na minha frente… um de seus dentes era meio torto. Sempre que me sento à mesa vejo os pratos diante de mim, com a carne e a gordura frias. E me lembro como, muitos anos depois, morei com meu irmão, que era oficial e teve aquela doença horrível. Eu sabia que era contagiosa e tinha um medo terrível de apanhar sua faca e seu garfo por engano” (estremeceu) “…e apesar disso, fazia minhas refeições com ele, para que ninguém soubesse que ele estava doente. E como, logo depois disso, cuidei de meu outro irmão quando esteve muito doente de tuberculose. Sentávamos ao lado de sua cama, e a escarradeira ficava sempre sobre a mesa, aberta” (estremeceu de novo) “…ele tinha o hábito de escarrar por sobre os pratos na escarradeira. Isso sempre me provocava muita náusea, mas eu não podia demonstrá-la, temendo magoar os sentimentos dele. E essas escarradeiras ainda estão na mesa sempre que faço uma refeição, e ainda me causam náuseas.” Naturalmente, removi com cuidado todo esse conjunto de fomentadores da repulsa e então lhe perguntei por que ela não conseguia beber água. Quando tinha dezessete anos, respondeu, a família havia passado alguns meses em Munique e quase todos os membros haviam contraído catarro gástrico, graças à água potável de má qualidade. No caso dos outros, o distúrbio foi logo aliviado pelos cuidados médicos, mas com ela havia persistido. Tampouco melhorara com a água mineral que lhe fora recomendada. Quando o médico a receitou, ela logo pensou: “isso não vai adiantar nada”. A partir daquela ocasião, essa intolerância pela água comum e pela água mineral repetiu-se inúmeras vezes.

O efeito terapêutico dessas descobertas sob hipnose foi imediato e duradouro. Ela não passou fome durante uma semana, mas logo no dia seguinte comeu e bebeu sem nenhuma dificuldade. Dois meses depois, informou-me numa carta: “Estou comendo muitíssimo bem e ganhei bastante peso. Já bebi quarenta garrafas de água. O senhor acha que devo continuar?”

Revi a Sra. von N. na primavera do ano seguinte em sua propriedade rural perto de D-. Nessa ocasião, sua filha mais velha, por cujo nome ela havia chamado durante suas “tempestades na cabeça”, entrou numa fase de desenvolvimento anormal. Exibia ambições desenfreadas, inteiramente desproporcionais a seus escassos dons, e tornou-se desobediente e até violenta para com a mãe. Eu ainda gozava da confiança da Sra. Emmy e fui chamado para dar minha opinião sobre o estado da moça. Tive uma impressão desfavorável da alteração psicológica que se processara na jovem e, para chegar a um prognóstico, também tive que levar em conta o fato de que todos os seus meio-irmãos e irmãs (os filhos do primeiro matrimônio do Sr. von N.) tinham sucumbido à paranóia. Também na família de sua mãe não faltava uma hereditariedade neuropática, embora nenhum de seus parentes mais próximos houvesse desenvolvido psicose crônica. Comuniquei à Sra. von N., sem qualquer reserva, a opinião que me havia pedido, e ela a recebeu com calma e compreensão. Ela havia engordado, e sua saúde era florescente. Tinha-se sentido relativamente bem durante os nove meses decorridos desde o término de seu último tratamento. Fora perturbada apenas por ligeiras cãibras no pescoço e outros males de pequena monta. Nos vários dias que passei em sua casa vim a compreender, pela primeira vez, toda a extensão de seus deveres, ocupações e interesses intelectuais. Conheci também o médico da família, que não tinha muitas queixas da paciente: logo, até certo ponto, ela fizera as pazes com a profissão médica.

Em inúmeros aspectos, portanto, ela estava mais saudável e mais apta; porém, apesar de todas as minhas sugestões de melhora, verificara-se pouca alteração em seu caráter fundamental. Ela não parecia ter aceito a existência de uma categoria de “coisas sem importância”. Sua inclinação para atormentar-se era muito pouco menor do que na época do tratamento, e tampouco sua disposição histérica estivera estagnada durante esse bom período. Ela se queixava, por exemplo, de uma impossibilidade de fazer viagens de trem, de qualquer duração. Isso aparecera nos últimos meses. Uma tentativa necessariamente apressada de aliviá-la dessa dificuldade resultou apenas na produção de diversas impressões desagradáveis e insignificantes deixadas por algumas viagens recentes que ela fizera a D- e suas imediações. Entretanto, ela parecia relutar em ser comunicativa sob hipnose, e comecei mesmo a suspeitar de que estava a ponto de se afastar mais uma vez da minha influência e de que a finalidade secreta de sua inibição em relação aos trens era impedir que fizesse uma nova viagem a Viena.

Foi também durante esses dias que ela formulou suas queixas a respeito de lacunas na memória, “em especial quanto aos fatos mais importantes” |ver em [1]|, donde concluí que o trabalho que eu executara dois anos antes tinha sido inteiramente eficaz e duradouro. - Um dia, ela passeava comigo por uma avenida que se estendia da casa até uma enseada no mar e me arrisquei a perguntar se o caminho costumava ficar infestado de sapos. Como resposta, ela me lançou um olhar de censura, embora não acompanhado de sinais de horror; ampliou isso um momento depois, com as palavras “mas os daqui são reais”. Durante a hipnose, que induzi para lidar com sua inibição a respeito dos trens, ela própria pareceu insatisfeita com as respostas que me deu e externou o temor de que, no futuro, era provável que fosse menos obediente sob hipnose do que antes. Decidi-me a convencê-la do contrário. Escrevi algumas palavras num pedaço de papel, entreguei-o a ela e disse: “No almoço de hoje a senhora me servirá um copo de vinho tinto, da mesma forma que ontem. Quando eu levar o copo aos lábios, a senhora dirá: ‘Oh, por favor, sirva-me também um copo de vinho’, e quando eu estender a mão para apanhar a garrafa, dirá: ‘Não, obrigada; afinal, acho que não vou querer’. A senhora então porá a mão em sua bolsa, retirará dela um pedaço de papel e encontrará essas mesmas palavras escritas nele”. Isso foi pela manhã. Algumas horas depois, o pequeno episódio ocorreu exatamente como eu o havia predisposto, e de maneira tão natural que nenhuma das muitas pessoas presentes notou qualquer coisa. Quando me pediu o vinho, ela revelou visíveis sinais de uma luta interna - pois nunca bebia vinho - e depois de haver recusado a bebida com evidente alívio, pôs a mão na bolsa e retirou o pedaço de papel em que figuravam as últimas palavras que havia pronunciado. Balançou a cabeça e olhou-me com assombro.

Após minha visita em maio de 1890, minhas notícias da Sra. von N.foram ficando cada vez mais escassas. Soube indiretamente que o estado deplorável da filha, que lhe causava todas as espécies de aflições e agitações, acabou por minar-lhe a saúde. Por fim, no verão de 1893, recebi dela um bilhete pedindo-me permissão para ser hipnotizada por outro médico, visto que voltara a ficar doente e não podia vir a Viena. A princípio, não compreendi por que minha permissão era necessária, até me recordar que, em 1890, por sua própria solicitação, eu a havia protegido de ser hipnotizada por qualquer outra pessoa, para que não houvesse nenhum risco de ela ficar aflita ao se colocar sob o controle de algum médico que lhe fosse antipático, tal como acontecera em -berg (-tal, -wald). Por conseguinte, renunciei por escrito a minha prerrogativa exclusiva.

 

 

DISCUSSÃO

 

A menos que tenhamos em primeiro lugar chegado a um acordo completo sobre a terminologia em jogo, não é fácil resolver se um caso particular deve ser considerado como sendo de histeria ou de alguma outra neurose (refiro-me aqui às neuroses que não são de tipo puramente neurastênico); e ainda temos de aguardar a mão orientadora que fixará os marcos fronteiriços na região das neuroses mistas, que ocorrem comumente, e que trará à tona os aspectos essenciais para a caracterização destas. Por conseguinte, se ainda estivermos acostumados a diagnosticar uma histeria, no sentido mais estrito do termo, por sua semelhança com casos típicos já conhecidos, dificilmente poderemos questionar o fato de que o caso da Sra. Emmy von N. era de histeria. O caráter brando de seus delírios e alucinações (enquanto suas outras atividades mentais permaneciam intactas), a modificação de sua personalidade e de seu acervo de lembranças quando se encontrava num estado de sonambulismo artificial, a anestesia em sua perna dolorida, certos dados revelados em sua anamnese, sua nevralgia ovariana, etc. não admitem dúvida quanto à natureza histérica da doença, ou, pelo menos, da paciente. Se alguma questão pode ser levantada, é apenas graças a um aspecto particular do caso, que também dá oportunidade para um comentário de validade geral. Como explicamos na “Comunicação Preliminar” que aparece no início deste volume, consideramos os sintomas histéricos como efeitos e resíduos de excitações que atuaram sobre o sistema nervoso como traumas. Não há permanência de resíduos dessa natureza quando a excitação original é descarregada por ab-reação ou pela atividade do pensamento. Não é mais possível, a esta altura, evitar a introdução da idéia de quantidades (ainda que não mensuráveis). Devemos considerar o processo como se uma soma de excitação, atuando sobre o sistema nervoso, se transformasse em sintomas crônicos, na medida em que não fosse empregada em ações externas na proporção de sua quantidade. Ora, estamos habituados a verificar que, na histeria, uma parte considerável dessa “soma de excitação” do trauma é transformada em sintomas puramente somáticos. Foi essa característica da histeria que por tanto tempo atrapalhou seu reconhecimento como um distúrbio psíquico.

Se, para sermos breves, adotarmos o termo “conversão” para designar a transformação da excitação psíquica em sintomas somáticos crônicos, que é tão característica da histeria, podemos então dizer que o caso da Sra. Emmy von N. apresentava apenas uma pequena quantidade de conversão. A excitação, que era originariamente psíquica, permaneceu em sua maior parte nessa esfera, e é fácil compreender que isso lhe confere uma semelhança com as outras neuroses, não histéricas. Existem casos de histeria em que todo o excedente da estimulação sofre conversão, de modo que os sintomas somáticos da histeria se intrometem no que parece ser uma consciência inteiramente normal. A transformação incompleta, no entanto, é mais comum, de modo que pelo menos parte do afeto que acompanha o trauma persiste na consciência como um componente do estado emocional do indivíduo.

Os sintomas psíquicos em nosso atual caso de histeria, em que havia muito pouca conversão, podem ser divididos em alterações do humor (angústia, depressão melancólica), fobias e abulias (inibições da vontade). As duas últimas classes de perturbação psíquica são consideradas pela escola francesa de psiquiatria como estigmas da degenerescência neurótica, mas em nosso caso verifica-se que foram suficientemente determinadas por experiências traumáticas. Essas fobias e abulias eram, na sua maior parte, de origem traumática, como mostrarei com detalhes.

Algumas das fobias da paciente, é verdade, correspondiam às fobias primárias dos seres humanos, e especialmente dos neuropatas - em particular, por exemplo, seu medo de animais (cobras e sapos, bem como todos os vermes de que Mefistófeles se gabava de ser o senhor), de tempestades e assim por diante. Mas também essas fobias se firmaram mais graças a acontecimentos traumáticos. Assim, seu medo dos sapos foi fortalecido pela experiência, nos primeiros anos de infância, de um de seus irmãos lhe ter atirado um sapo morto, o que levou a seu primeiro acesso de espasmos histéricos |ver em [1]|; e de modo semelhante, seu medo de tempestades foi provocado pelo choque que deu lugar a seu estalido característico | ver em [1]|, e o medo de nevoeiros pelo passeio na Ilha de Rügen |ver em [1]|. Não obstante, neste grupo o medo primário - ou talvez se pudesse dizer o medo instintivo - (considerado como um estigma psíquico) desempenha o papel preponderante.

As outras fobias, mais específicas, também foram explicadas por acontecimentos bem determinados. Seu temor de choques inesperados e súbitos era conseqüência da terrível impressão que teve ao ver o marido, que parecia estar gozando de ótima saúde, sucumbir a um ataque cardíaco diante de seus próprios olhos. Seu medo dos estranhos e das pessoas em geral revelou-se originário da época em que estava sendo perseguida pela família |do marido| e tendia a ver um agente deles em cada estranho, e de quando lhe pareceu provável que os estranhos soubessem das coisas que estavam sendo espalhadas por toda parte a respeito dela, por escrito e verbalmente |ver em [1]-[2]|. Seu medo dos hospícios e de seus ocupantes remontava a toda uma série de acontecimentos tristes ocorridos em sua família e às histórias despejadas em seus ouvidos atentos por uma empregada estúpida |ver em [1]|. Independentemente disso, essa fobia era sustentada, de um lado, pelo horror primário e instintivo que as pessoas sadias têm à loucura, e de outro, pelo medo sentido por ela, não menos do que por todos os neuróticos, de que ela mesma viesse a enlouquecer. Seu medo altamente específico de que houvesse alguém de pé atrás dela |ver em [1]| foi determinado por diversas experiências apavorantes na mocidade e mais tarde. Desde o episódio do hotel |ver em [1]|, que lhe foi especialmente aflitivo por causa de suas implicações eróticas, seu medo de que um estranho se esgueirasse para seu quarto foi muito acentuado. Por fim, seu medo de ser enterrada viva, que partilhava com tantos neuropatas, era inteiramente explicado por sua crença de que o marido não estava morto quando seu corpo foi levado - crença esta que expressava de modo tão comovente sua incapacidade de aceitar o fato de que sua vida com o homem a quem amava chegara a um fim súbito. Na minha opinião, contudo,todos esses fatores psíquicos embora possam responder pela escolha dessas fobias, não podem explicar-lhe a persistência. É necessário, julgo eu, acrescentar um fator neurótico para explicar sua persistência - o fato de que a paciente vinha vivendo há anos em estado de abstinência sexual. Tais circunstâncias se acham entre as causas mais freqüentes de uma tendência à angústia.

As abulias de nossa paciente (inibições da vontade, incapacidade de agir) admitem ainda menos que as fobias sejam consideradas como estigmas psíquicos causados por uma limitação geral da capacidade. Pelo contrário, a análise hipnótica do caso tornou claro que suas abulias eram determinadas por um duplo mecanismo psíquico - o qual, no fundo, era um só. Em primeiro lugar, uma abulia pode ser simples conseqüência de uma fobia. Isso ocorre quando a fobia se acha ligada a uma ação do próprio sujeito, e não a uma expectativa |de um fato externo| - por exemplo, em nosso caso atual, o medo de sair ou de se relacionar com as pessoas, em contraste com o medo de alguém se esgueirar para dentro do quarto. Aqui, a inibição da vontade é causada pela angústia concomitante à realização da ação. Seria errado considerar tais espécies de abulias como sintomas distintos das fobias correspondentes, embora se deva admitir que essas fobias podem existir (contanto que não sejam graves demais) sem produzir abulias. A segunda classe de abulias depende da presença de associações carregadas de afeto e não resolvidas que se oponham à vinculação com outras associações, e particularmente com qualquer uma que seja incompatível com elas. A anorexia da nossa paciente oferece o mais brilhante exemplo dessa espécie de abulia |ver em [1] |. Ela comia tão pouco por não gostar do sabor, e não podia apreciar o sabor porque o ato de comer, desde os primeiros tempos, se vinculara a lembranças de repulsa cuja soma de afeto jamais diminuíra em qualquer grau; e é impossível comer com repulsa e prazer ao mesmo tempo. Sua antiga repulsa às refeições permanecera inalterada porque ela era constantemente obrigada a reprimi-la, em vez de livrar-se dela por reação. Na infância ela fora forçada, sob ameaça de punição, a comer a refeição fria que lhe era repugnante, e nos anos posteriores tinha sido impedida, por consideração aos irmãos, de externar os afetos a que ficava exposta durante suas refeições em comum.

 

Neste ponto, talvez deva referir-me a um pequeno artigo no qual tentei dar uma explicação psicológica das paralisias histéricas (Freud 1893c). Nele cheguei à hipótese de que a causa dessas paralisias residiria na inacessibilidade a novas associações por parte de um grupo de representações vinculadas, digamos, a uma das extremidades do corpo; essa inacessibilidade associativa dependeria, por sua vez, do fato de a representação do membro paralisado estar ligada à lembrança do trauma - uma lembrança carregada de afeto que não fora descarregado. Mostrei, a partir de exemplos extraídos da vida cotidiana, que uma catexia como essa, de uma representação cujo afeto não foi decomposto, envolve sempre uma certa dose de inacessibilidade associativa e de incompatibilidade com novas catexias.

Até agora não consegui confirmar, por meio da análise hipnótica, essa teoria sobre as paralisias motoras, mas posso citar a anorexia da Sra. von N. como prova de que esse mecanismo é o que opera em certas abulias, e de que as abulias nada mais são que uma espécie altamente especializada - ou, para usar uma expressão francesa, “sistematizada” - de paralisia psíquica.

A situação psíquica da Sra. von N. pode ser caracterizada no seu essencial, ressaltando-se dois pontos. (1) Os afetos aflitivos vinculados a suas experiências traumáticas tinham ficado indecompostos - por exemplo, sua depressão, sua dor (pela morte do marido), seu ressentimento (por ser perseguida pelos parentes dele), sua repulsa (pelas refeições compulsórias), seu medo (das numerosas experiências assustadoras), e assim por diante. (2) Sua memória exibia uma intensa atividade, que, ora espontaneamente, ora em reação a um estímulo contemporâneo (por exemplo, as notícias da revolução em São Domingos |ver em [1]|), trazia seus traumas e os afetos concomitantes, pouco a pouco, até sua consciência atual. Minha conduta terapêutica baseou-se nessa atividade de sua memória, e esforcei-me todos os dias para resolver e livrar-me de tudo o que cada dia trazia à tona, até que o acervo acessível de suas lembranças patológicas pareceu estar esgotado.

Essas duas características psíquicas, que considero como geralmente presentes nos paroxismos histéricos, abriram caminho para muitas considerações importantes. Adiarei, contudo, a discussão das mesmas até que tenha dispensado certa atenção ao mecanismo dos sintomas somáticos.

Não é possível atribuir a mesma origem a todos os sintomas somáticos desses pacientes. Pelo contrário, mesmo a partir deste caso, que não os apresentava em grande número, verificamos que os sintomas somáticos de uma histeria podem surgir de várias maneiras. Ousarei, em primeiro lugar, incluir as dores entre os sintomas somáticos. Até onde posso ver, um grupo de dores da Sra. von N. fora por certo organicamente determinado por ligeiras modificações (de natureza reumática) nos músculos, tendões ou feixes, que causam muito mais dor nos neuróticos do que nas pessoas normais. Outro grupo de dores era, com certeza, as lembranças de dores - eram símbolos mnêmicos das épocas de agitação e cuidados prestados aos doentes, épocas que desempenharam papel de grande relevância na vida da paciente. É bem possível que essas dores também se tenham justificado, originariamente, em bases orgânicas, mas foram depois adaptadas para as finalidades da neurose. Baseio estas afirmativas sobre as dores da Sra. von N. principalmente em observações feitas em outro caso, as quais relatarei mais adiante. Quanto a este ponto particular, poucas informações puderam ser colhidas com a própria paciente.

Alguns dos notáveis fenômenos motores revelados pela Sra. von N. eram simplesmente expressão das emoções e podiam ser reconhecidos com facilidade como tal. Assim, a maneira como estendia as mãos para a frente com os dedos separados e retorcidos expressava horror, do mesmo modo que seu jogo facial. Esta era, com certeza, uma maneira mais viva e desinibida de expressar as emoções do que era comum entre as mulheres de sua instrução e raça. Na realidade, ela própria era comedida, quase rígida em seus movimentos expressivos quando não se encontrava em estado histérico. Outros de seus sintomas motores estavam, de acordo com ela própria, relacionados diretamente com suas dores. Agitada, ela brincava com os dedos (1888) |ver em [1]| ou esfregava as mãos uma na outra (1889) |ver em [1]| para impedir-se de gritar. Esse raciocínio nos obriga a lembrar de um dos princípios formulados por Darwin para explicar a expressão das emoções - o princípio do extravasamento da excitação |Darwin, 1872, Cap. III|, que explica, por exemplo, por que os cães abanam as caudas. Todos nós estamos acostumados, ao sermos atingidos por estímulos dolorosos, a substituir o grito por outros tipos de inervações motoras. Uma pessoa que tenha tomado a firme decisão de, no consultório do dentista, conservar a cabeça e a boca imóveis, e não colocar a mão no caminho, poderá no mínimo começar a bater com os pés.

 

Um método mais complicado de conversão é revelado pelos movimentos semelhantes a tiques da Sra. von N., como estalar a língua e gaguejar, chamar pelo nome “Emmy” nos estados confusionais |ver em [1]| e empregar a expressão “Fique quieto! Não diga nada! Não me toque!” (1888) |ver em [1]|. Dessas manifestações motoras, a gagueira e o estalido com a língua podem ser explicados segundo um mecanismo que descrevi, num breve artigo sobre o tratamento de um caso por sugestão hipnótica (1892-93), como “o acionamento de idéias antitéticas”. O processo, tal como exemplificado em nosso caso atual |ver em [1]| seria como se segue. Nossa paciente histérica, esgotada pela preocupação e pelas longas horas de vigília junto ao leito da filha enferma que afinal adormecera, disse a si mesma: “Agora você precisa ficar inteiramente imóvel para não acordar a menina.” É provável que essa intenção tenha dado origem a uma representação antitética, sob a forma de um medo de que, mesmo assim, ela fizesse um ruído que despertasse a criança do sono que tanto esperara. Representações antitéticas como essa surgem em nós de forma marcante quando nos sentimos inseguros de poder pôr em prática alguma intenção importante.

Os neuróticos, em cujo sentimento a respeito de si mesmos é difícil deixar de encontrar uma veia de depressão ou de expectativa ansiosa, formam um número maior dessas idéias antitéticas do que as pessoas normais, ou as percebem com mais facilidade, e as consideram mais importantes. No estado de exaustão de nossa paciente a idéia antitética, que seria normalmente rejeitada, mostrou-se a mais forte. Foi essa idéia que entrou em ação e que, para horror da paciente, na realidade produziu o ruído que ela tanto temia. A fim de explicar todo o processo, pode-se ainda presumir que sua exaustão fosse apenas parcial; ela afetava, para empregarmos a terminologia de Janet e seus seguidores, apenas seu ego “primário”, e não resultava igualmente num enfraquecimento da representação antitética.

Pode-se ainda presumir que foi seu horror ao ruído produzido contra sua vontade que tornou traumático aquele momento e fixou o ruído em si como um sintoma mnêmico somático de toda a cena. Creio, realmente, que o caráter do próprio tique, que consistia numa sucessão de sons emitidos de forma convulsiva e separados por pausas e que melhor se assemelharia a estalidos, revela traços do processo ao qual devia sua origem. Parece ter havido um conflito entre a intenção dela e a idéia antitética (a contravontade), o que deu ao tique seu caráter descontínuo e confinou a representação antitética em outras vias que não as habituais para inervar o aparelho muscular da fala.

A inibição espástica da fala da paciente - sua gagueira peculiar - era o resíduo de uma causa excitante fundamentalmente similar |ver em [1]-[2]|. Nesse caso, contudo, não foi o resultado da inervação final - a exclamação - mas o próprio processo de inervação - a tentativa de inibição convulsiva dos órgãos da fala - que foi transformado num símbolo do acontecimento em sua memória.

Esses dois sintomas, o estalido e a gagueira, que estavam assim intimamente relacionados pela história de sua origem, continuaram a se associar e se transformaram em sintomas crônicos após se repetirem numa ocasião semelhante. A partir daí, passaram a ser utilizados em mais um sentido. Tendo-se originado num momento de violento pavor, foram desde então ligados a qualquer medo (de acordo com o mecanismo da histeria monossintomática, que será descrito no Caso 5 |ver em [1] |), mesmo quando o medo não podia levar ao acionamento de uma representação antitética.

Os dois sintomas acabaram sendo vinculados a tantos traumas, e tiveram tantas razões para serem reproduzidos na memória, que passaram a interromper sempre a fala da paciente, sem nenhuma causa específica, à maneira de um tique sem significado. A análise hipnótica, entretanto, pôde demonstrar quanto significado se ocultava por trás desse aparente tique; e se o método de Breuer não conseguiu, nesse caso, eliminar de todo os dois sintomas de um só golpe, foi porque a catarse se estendera apenas aos três traumas principais, e não aos traumas associados de forma secundária.

 

Segundo as normas que regem os ataques histéricos, a exclamação “Emmy” durante seus acessos de confusão reproduzia, como havemos de recordar, seus freqüentes estados de desamparo durante o tratamento da filha. Essa exclamação estava ligada ao conteúdo do ataque por um complexo encadeamento de idéias e sua natureza era a fórmula protetora contra o ataque. A exclamação, por uma aplicação mais ampla do seu significado, provavelmente degeneraria num tique, como de fato já havia acontecido no caso da complicada fórmula protetora “Não me toque”, etc. Em ambas as situações o tratamento hipnótico impediu qualquer outra progressão dos sintomas; mas a exclamação “Emmy” mal havia surgido, e apanhei-a enquanto ainda estava em seu solo nativo, restrito aos ataques de confusão.

Como vimos, esses sintomas motores se originaram de várias maneiras: por meio do acionamento de uma representação antitética (como no estalido), por uma simples conversão da excitação psíquica em atividade motora (como na gagueira), ou por uma ação voluntária durante um paroxismo histérico (como nas medidas protetoras exemplificadas pela exclamação “Emmy” e pela fórmula mais longa). Mas como quer que esses sintomas motores se tenham originado, todos têm uma coisa em comum. Pode-se demonstrar que possuem uma ligação originária ou de longa data com os traumas, e representam símbolos destes nas atividades da memória.

Outros dos sintomas somáticos da paciente não eram em absoluto de natureza histérica. Isto se aplica, por exemplo, às cãibras no pescoço, que considero como uma forma modificada de enxaqueca |ver em [1]| e que, como tal, não devem ser classificadas como uma neurose, mas como um distúrbio orgânico. Os sintomas histéricos, porém, ligam-se regularmente a tais distúrbios. As cãibras no pescoço da Sra. von N., por exemplo, eram empregadas para fins dos ataques histéricos, embora ela não tivesse a seu dispor a sintomatologia típica dos ataques histéricos.

Ampliarei esta descrição do estado psíquico da Sra. von N. com algumas considerações sobre as alterações patológicas de consciência que puderam ser observadas nela. Tais como suas cãibras no pescoço, os acontecimentos aflitivos presentes (cf. seu último delírio no jardim |em [1]|) ou qualquer coisa que a fizesse recordar com intensidade qualquer de seus traumas levavam-na a um estado de delírio. Em tais estados - e as poucas observações que fiz não me conduziram a nenhuma outra conclusão - havia uma limitação da consciência e uma compulsão a associar, semelhante à que predomina nos sonhos |em. [1]|; as alucinações e ilusões eram facilitadas até o mais alto grau e faziam-se inferências tolas ou mesmo disparatadas. Esse estado, que era comparável ao da alienação alucinatória, provavelmente representava um ataque. Poderia ser encarado como uma psicose aguda (servindo como equivalente de um ataque) que seria classificada como uma situação de “confusão alucinatória”. Uma outra semelhança entre esses seus estados e um ataque histérico típico foi mostrada pelo fato de que uma parcela das lembranças traumáticas enraizadas desde longa data podia em geral ser detectada como subjacente ao delírio. A transição de um estado normal para um delírio ocorria muitas vezes de forma imperceptível. Num dado momento, ela ia conversando de modo perfeitamente racional sobre assuntos de pequena importância emocional e, à medida que a conversa passava para idéias de natureza aflitiva, eu notava por seus gestos exagerados ou pelo surgimento de suas fórmulas habituais de fala, etc., que ela se encontrava num estado de delírio. No início do tratamento o delírio durava o dia inteiro, de modo que era difícil definir com certeza se quaisquer sintomas - como seus gestos - faziam parte de seu estado psíquico como meros sintomas de um ataque, ou se - como o estalido e a gagueira - tinham-se tornado autênticos sintomas crônicos. Muitas vezes, só após o evento é que era possível distinguir entre o que tinha acontecido num delírio e o que tinha acontecido em seu estado normal, pois os dois estados estavam separados em sua memória e, algumas vezes, ela ficava extremamente surpresa ao saber das coisas que o delírio havia introduzido aos poucos em sua conversa normal. Minha primeira entrevista com ela constituiu o exemplo mais marcante da maneira como os dois estados se entrelaçavam sem prestar nenhuma atenção um ao outro. Somente num momento dessa gangorra psíquica foi que sua consciência normal, em contato com o tempo presente, mostrou-se afetada: foi quando me deu uma resposta oriunda do delírio e disse ser “uma mulher que datava do século passado” |ver em [1]|.

A análise desses estados delirantes na Sra. von N. não foi realizada de forma completa, em virtude de ter sua condição melhorado tão depressa que os delírios se tornaram nitidamente diferenciados de sua vida normal e se restringiram aos períodos de suas cãibras no pescoço. Por outro lado, colhi grande número de informações sobre o comportamento da paciente num terceiro estado, o do sonambulismo artificial. Enquanto, em seu estado normal, ela não tinha nenhum conhecimento das experiências psíquicas ocorridas durante seus delírios e o sonambulismo, tinha acesso durante o sonambulismo, às lembranças de todos os três estados. A rigor, portanto, era no estado de sonambulismo que ela se encontrava no auge de sua normalidade. Realmente, se eu deixar de lado o fato de que no sonambulismo ela era muito menos reservada comigo do que em seus melhores momentos da vida cotidiana - isto é, que no sonambulismo me dava informações sobre sua família e coisas semelhantes, enquanto nas outras ocasiões me tratava como um estranho - e se, além disso, eu desprezar o fato de que ela exibia o grau pleno de sugestionabilidade que é característico do sonambulismo, serei forçado a dizer que durante o sonambulismo ela se achava num estado inteiramente normal. Era interessante observar que, por outro lado, seu sonambulismo não apresentava nenhum sinal de ser supernormal, mas estava sujeito a todas as falhas mentais que estamos acostumados a associar a um estado normal de consciência.

Os exemplos que se seguem esclarecem o comportamento de sua memória no sonambulismo. Certo dia, numa conversa, ela expressou seu encanto pela beleza de uma planta num vaso que decorava o saguão de entrada da casa de saúde. “Mas qual é o nome dela, doutor? O senhor sabe? Eu sabia seus nomes em alemão e latim, mas esqueci.” A paciente tinha amplo conhecimento de plantas, ao passo que fui obrigado, nessa ocasião, a admitir minha falta de preparo em botânica. Alguns minutos depois perguntei-lhe, sob hipnose, se ela agora sabia o nome da planta do saguão. Sem qualquer hesitação, respondeu: “O nome em alemão é ‘Tuerkenlilie’ |martagão|; esqueci mesmo o nome em latim.” De outra feita, quando se sentia bem de saúde, falou-me de uma visita que fizera às catacumbas romanas, mas não conseguia recordar-se de dois termos técnicos, nem pude eu ajudá-la. Logo depois perguntei-lhe, sob hipnose, quais as palavras que estavam em sua mente. Mas ela também não soube dizê-las em hipnose, de modo que lhe falei: “Não se preocupe mais com elas agora, mas quando estiver no jardim amanhã, entre cinco e seis da tarde - mais perto das seis do que das cinco - elas subitamente lhe ocorrerão.” Na noite seguinte, enquanto conversávamos sobre algo que não tinha nenhuma relação com as catacumbas, ela subitamente exclamou: “’Cripta’, doutor, e ‘Columbário’.” “Ah! essas são as palavras em que a senhora não conseguia pensar ontem. Quando foi que lhe ocorreram?” “Hoje à tarde no jardim, pouco antes de eu subir para meu quarto.” Vi que, com isso, ela queria que eu soubesse que havia seguido com precisão minhas instruções quanto ao horário, já que tinha o hábito de sair do jardim por volta das seis horas da tarde.

Vemos assim que mesmo no sonambulismo ela não tinha acesso a toda a extensão do seu conhecimento. Mesmo nesse estado havia uma consciência real e outra potencial. Muitas vezes acontecia que, quando eu lhe perguntava, durante seu sonambulismo, de onde provinha esse ou aquele fenômeno, ela franzia a testa e, depois de uma pausa, respondia num tom de desculpas: “Não sei.” Em tais ocasiões eu tinha adquirido o hábito de dizer: “Pense por um momento; virá sem nenhum rodeio”; e depois de breve reflexão, ela conseguia dar-me a informação desejada. Mas algumas vezes acontecia nada lhe ocorrer, e eu era obrigado a deixá-la com a tarefa de lembrar-se daquilo no dia seguinte, o que nunca deixou de acontecer.

Em sua vida cotidiana a Sra. von N. evitava escrupulosamente qualquer inverdade, e jamais mentiu para mim sob hipnose. Às vezes, contudo, dava-me respostas incompletas e retinha parte da história até eu insistir uma segunda vez para que a completasse. Em geral, como no exemplo citado em [1], era o desagrado inspirado pelo assunto que lhe fechava a boca no sonambulismo, assim como na vida cotidiana. Não obstante, apesar desses traços restritivos, a impressão causada por seu comportamento mental durante o sonambulismo era, no conjunto, a de um desinibido desenrolar de seus poderes mentais e de um pleno domínio sobre seu acervo de lembranças.

Embora não se possa negar que no estado de sonambulismo ela era altamente sugestionável, estava longe de exibir uma ausência patológica de resistência. Pode-se asseverar, de modo geral, que eu não lhe causava maior impressão nesse estado de que esperaria conseguir se estivesse procedendo a uma pesquisa dessa natureza sobre os mecanismos psíquicos de alguém em pleno gozo de suas faculdades e que tivesse plena confiança no que eu dizia. A única diferença era que a Sra. von N. era incapaz, no que era considerado seu estado normal, de ter para comigo tal atitude mental favorável. Quando, como aconteceu com sua fobia por animais, eu não conseguia apresentar-lhe razões convincentes, ou não penetrava na história psíquica da origem de um sintoma, mas tentava atuar por meio de sugestão autoritária, invariavelmente notava em seu rosto uma expressão tensa e insatisfeita; e quando, ao final da hipnose, perguntava-lhe se ainda tinha medo do animal, ela respondia: “Não… já que o senhor insiste.” Uma afirmação como esta, baseada apenas em sua obediência a mim, nunca tinha êxito, como também não o alcançavam as numerosas injunções genéricas que lhe fazia em lugar das quais bem poderia ter repetido a simples sugestão de que ela ficasse boa.

Mas essa mesma pessoa que se apegava tão obstinadamente a seus sintomas em face da sugestão e só os abandonava em resposta à análise psíquica ou à convicção pessoal era, por outro lado, tão dócil quanto a melhor paciente encontrável em qualquer hospital, no que dizia respeito às sugestões irrelevantes - na medida em que se tratasse de assuntos não relacionados com sua doença. Já apresentei exemplos de sua obediência pós-hipnótica ao longo do relato do caso. Não me parece haver nada de contraditório nesse comportamento. Também aqui a idéia mais forte estava destinada a se afirmar. Se penetrarmos no mecanismo das “idées fixes”, constataremos que se acham baseadas e apoiadas por tantas experiências, que atuam com tal intensidade, que não nos podemos surpreender ao descobrir que essas idéias são capazes de opor uma resistência bem-sucedida à idéia contrária apresentada pela sugestão, que só está revestida de poderes limitados. Apenas de um cérebro verdadeiramente patológico é que se poderiam varrer por mera sugestão produtos tão bem fundamentados de eventos psíquicos intensos.

Foi enquanto estudava as abulias da Sra. von N. que comecei a ter sérias dúvidas quanto à validade da asserção de Bernheim de que “tout est dans la suggestion” |“tudo está na sugestão”| e sobre a dedução do seu sagaz amigo Delboeuf: “Comme quoi il n’y a pas d’hypnotisme” |“Sendo assim, não existe o que se chama de hipnotismo”|. E até hoje não posso compreender como se pode supor que, apenas levantando um dedo e dizendo uma vez “durma”, eu tinha criado na paciente o estado psíquico peculiar em que sua memória tinha acesso a todas as suas experiências psíquicas. Talvez eu tenha evocado esse estado com minha sugestão, mas não o criei, visto que suas características - que, aliás, são encontradas universalmente - foram uma grande surpresa para mim.

O relato do caso esclarece suficientemente a maneira como o trabalho terapêutico foi conduzido durante o sonambulismo. Como é praxe na psicoterapia hipnótica, lutei contra as representações patológicas da paciente por meio de garantias e proibições e apresentando toda espécie de representações opostas. Mas não me contentei com isso. Investiguei a gênese dos sintomas individuais a fim de poder combater as premissas sobre as quais se erguiam as representações patológicas. No curso dessa análise costumava acontecer que a paciente expressava verbalmente, com a mais violenta agitação, assuntos cujo afeto associado até então só se manifestara como uma expressão de emoção. |ver em [1].| Não sei dizer quanto do êxito terapêutico, em cada situação, deveu-se ao fato de eu ter eliminado o sintoma por sugestão in statu nascendi, e quanto se deveu à transformação do afeto por ab-reação, já que combinei esses dois fatores terapêuticos. Por conseguinte, este caso não pode ser rigorosamente utilizado como prova da eficácia terapêutica do método catártico; ao mesmo tempo, devo acrescentar que só os sintomas de que fiz uma análise psíquica foram de fato eliminados de forma permanente.

De modo geral o êxito terapêutico foi considerável, mas não duradouro. A tendência da paciente a adoecer de forma semelhante sob o impacto de novos traumas não foi afastada. Qualquer um que desejasse empreender a cura definitiva de um caso de histeria como este teria que penetrar mais a fundo do que eu o fiz, em minha tentativa, no complexo de fenômenos. A Sra. von N. era, sem dúvida, uma personalidade com grave hereditariedade neuropática. Parece provável que não pode haver histeria independente de uma predisposição dessa natureza. Mas, por outro lado, a predisposição sozinha não faz a histeria. Deve haver razões que a trazem à tona, e, na minha opinião, essas razões devem ser apropriadas: a etiologia é de natureza específica. Já tive ocasião de mencionar que, na Sra. von N., os afetos pertinentes a um grande número de experiências traumáticas tinham ficado retidos, e que a atividade dinâmica de sua memória fazia aflorar à sua mente ora um, ora outro desses traumas. Aventurar-me-ei agora a formular uma explicação do motivo por que ela retinha os afetos dessa maneira. Esse motivo, é verdade, estava ligado a sua predisposição hereditária. Por um lado, seus sentimentos eram muito intensos; ela possuía uma natureza veemente, capaz das mais fortes paixões. Por outro, desde a morte do marido, tinha vivido em completa solidão mental; a perseguição que lhe moveram os parentes a havia tornado desconfiada dos amigos, e ela ficou atentamente em guarda para impedir que qualquer pessoa adquirisse demasiada influência sobre suas ações. O círculo de suas obrigações era muito amplo, e ela realizava sozinha todo o trabalho mental que estas lhe impunham, sem um amigo ou confidente, quase isolada da família e prejudicada por sua conscienciosidade, sua tendência a se atormentar e também, muitas vezes, pelo desamparo natural da mulher. Em suma, o mecanismo da retenção de grandes quantidades de excitação, independente de tudo o mais, não pode ser desprezado neste caso. Baseava-se em parte nas circunstâncias de sua vida, e em parte em sua predisposição natural. Sua aversão, por exemplo, a dizer qualquer coisa sobre si mesma era tão grande, que, como notei com assombro, em 1891, nenhum dos visitantes diários que iam à sua casa percebia que ela estava doente nem tinha consciência de que eu era seu médico.

Será que isso esgota a etiologia deste caso de histeria? Penso que não, pois, na época de seus dois tratamentos, eu ainda não levantara em minha própria mente as questões a que é preciso responder antes que seja possível uma explicação completa de um caso como este. Sou agora de opinião que deve ter havido algum fator adicional para provocar a irrupção da doença precisamente nestes últimos anos, considerando-se que as condições etiológicas operantes tinham estado presentes durante muitos anos anteriormente. Também me ocorreu que, dentre todas as informações íntimas que me foram dadas pela paciente, houve uma ausência completa do elemento sexual, que é, afinal de contas, passível mais do que qualquer outro de ocasionar traumas. É impossível que suas excitações nesse campo não tivessem deixado quaisquer vestígios; o que me foi permitido ouvir foi, sem dúvida, uma editio in usum delphini |uma edição expurgada| da história de sua vida. A paciente comportava-se com o maior e mais natural senso de decoro, a julgar pelas aparências, sem nenhum traço de pudicícia. Quando, porém, reflito sobre a reserva com que me narrou, sob hipnose, a pequena aventura de sua empregada no hotel, não posso deixar de suspeitar de que essa mulher, que era tão passional e tão capaz de sentimentos fortes, não tenha vencido suas necessidades sexuais sem grandes lutas, e que, por vezes, suas tentativas de suprimir essa pulsão, que é de todas a mais poderosa, tinham-na exposto a seu grave esgotamento mental. Uma vez, ela admitiu que ainda não se havia casado de novo porque, em vista da sua grande fortuna, não podia dar crédito ao desinteresse de seus pretendentes e porque se recriminaria por prejudicar as expectativas de suas duas filhas com um novo matrimônio.

Cabe-me fazer mais uma observação antes de encerrar o caso clínico da Sra. von N. O Dr. Breuer e eu a conhecíamos razoavelmente bem e há bastante tempo, e costumávamos sorrir ao comparar seu caráter com o quadro da psique histérica que pode ser acompanhado desde os primeiros tempos por meio dos trabalhos e das opiniões dos médicos. Nós tínhamos aprendido, a partir de nossas observações da Sra. Caecilie M., que o tipo mais grave de histeria pode coexistir com dons da natureza mais rica e mais original - uma conclusão mais do que comprovada na biografia de mulheres eminentes na história e na literatura. Da mesma forma, a Sra. Emmy von N. nos deu um exemplo de como a histeria é compatível com um caráter impecável e um modo de vida bem orientado. A mulher que viemos a conhecer era admirável. A seriedade moral com que encarava suas obrigações, sua inteligência e energia, que não eram inferiores às de um homem, e seu alto grau de instrução e de amor à verdade nos impressionaram grandemente, enquanto seu generoso cuidado para com o bem-estar de todos os seus dependentes, sua humildade de espírito e o requinte de suas maneiras revelaram também suas qualidades de verdadeira dama. Descrever essa mulher como “degenerada” seria distorcer por completo o significado desse termo. Faríamos bem em distinguir o conceito de “predisposição” do de “degenerescência” tais como aplicados às pessoas; de outra forma, ver-nos-emos forçados a admitir que a humanidade deve uma grande parcela de suas maiores realizações ao esforço de “degenerados”.

Devo igualmente confessar que não vejo na história da Sra. von N. nenhum sinal da “ineficiência psíquica” à qual Janet atribui a gênese da histeria. De acordo com ele, a predisposição histérica consiste numa restrição anormal do campo da consciência (em virtude da degenerescência hereditária), que resulta no desprezo por grupos inteiros de representações e, mais tarde, numa desintegração do ego e na organização de personalidades secundárias. Se assim fosse, o que resta do ego após a retirada dos grupos psíquicos histericamente organizados seria, por necessidade, também menos eficiente do que um ego normal; e de fato, de acordo com Janet, o ego na histeria é afligido por estigmas psíquicos, condenado ao monoideísmo e incapaz dos atos volitivos da vida cotidiana. Janet, julgo eu, cometeu aqui o erro de promover o que constituem os efeitos secundários das alterações da consciência decorrentes da histeria à posição de determinantes primários da histeria. O assunto merece maior consideração em outro trecho, mas na Sra. von N. não havia qualquer sinal de tal ineficiência. Por ocasião de seus piores momentos, ela era e continuou a ser capaz de desempenhar seu papel na administração de uma grande empresa industrial, de manter uma vigilância constante sobre a educação das filhas e de manter sua correspondência com pessoas preeminentes do mundo intelectual - em suma, de cumprir com suas obrigações bastante bem para que sua doença permanecesse oculta. Inclino-me a acreditar, portanto, que tudo isso envolvia com excesso considerável de eficiência, que talvez não pudesse ser mantido por muito tempo e estava fadado a levar ao esgotamento - a uma “misère psychologique” |“empobrecimento psicológico”| secundária. Parece provável que algumas perturbações desse tipo em sua eficiência estivessem começando a se fazer sentir na época em que a vi pela primeira vez, mas, seja como for, uma histeria grave estivera presente por muitos anos antes do aparecimento dos sintomas de esgotamento.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Uma Sra. de cerca de 40 anos, histérica, ao qual Freud usou a técnica de investigação sob hipnose. De feições delicadas e marcantes, revelava um grau inusitado de instrução e inteligência; a cada 2 ou 3 minutos ela se calava e fazia expressão de horror e nojo, estendia as mãos e abria entortando os dedos exclamando numa voz alterada, carregada de angústia: ¨Fique quieto! – Não diga nada! – Não me toque!¨

Sua família originária possuía grandes propriedades. Ela a 13ª de 14 filhos, onde apenas 4 sobreviveram. Ela recebeu educação cuidadosa e disciplina rígida de sua mãe. Casou-se com 23 anos com um homem bem dotado que era muito mais velho, ele morreu de derrame cerebral.

Numa casa de saúde, Freud a hipnotizou e notou que ela era uma boa paciente para a hipnose, aplicou também banhos quentes e massagens.

Sob hipnose ela disse que o quê a assustava eram as lembranças sobre sua meninice, de quando tinha 5 anos e seus irmãos costumavam atirar animais mortos nela. Outro susto aconteceu quando tinha 7 anos e viu sua irmã num caixão e outras duas vezes com 8 e 9 anos.

Enquanto relatava estes eventos ela assumia uma expressão de medo e horror; depois suas feições se tranquilizaram.

Noutra sessão relatou que as fotografias dos índios norte-americanos vestidos como animais lhe produziam grande choque.

Sob hipnose disse recordar de visões que teve aos 19 anos, na época da morte de seu irmão, por isso ficou assustada com as fotografias dos índios norte-americanos vestidos como animais.

Na sessão seguinte ela demonstrou sensação de estar melhor, por não sentir mais as dores gástricas.

Sob hipnose relatou medo em relação aos manicômios, pois pessoas de sua família já haviam sido levadas, amarradas e espancadas nesses lugares, contudo Freud a acalmou e suas feições se relaxaram.

Outras lembranças são da morte de sua mãe e de quando encontrou um sapo debaixo de uma pedra, o que a fez perder a fala durante horas.

Seu marido morreu inesperadamente e os jornais locais publicaram artigos difamantes a respeito da paciente, de que ela o havia envenenado, Freud a tranquilizou com suas palavras.

Suas hipnoses logo deixaram de produzir material e ela melhorou tão depressa que não se sentia tão bem desde a morte do marido.

Sob hipnose confessou que tinha o hábito de comer pouco e que só podia beber líquidos espessos como leite, café e chocolate. Seus problemas eram porque era incapaz de subterfúgios. Freud a hipnotizou e a ajudou, então ela comeu e bebeu normalmente.

Notamos que Freud descobriu os sintomas histéricos, onde neste caso, predominam as fobias. Apresentando também a depressão, a dor, os traumas, a gagueira e o estalido ou tiques.

A análise hipnótica pôde demonstrar quanto significado se ocultava por trás do sintoma, com o tique. Eles possuem uma ligação originária com os traumas e representam símbolos destes nas atividades da memória.

No sonambulismo ela se achava num estado inteiramente normal, porém não tinha acesso a toda a extensão do seu conhecimento. Embora no sonambulismo não seja altamente sugestionável, está longe de exibir resistência patológica.

O chamado pode ser recusado. Podem surgir fobias oriundas de subterfúgios e traumas. É

sempre possível desviar a atenção para outras coisas na vida real, não com menos frequência em mitos. A recusa transforma o herói em vítima a ser salva, assim seu mundo tronar-se-á um deserto cheio de obstáculos e um sentimento de grande falta de sentido, a comida e a bebida, a água tornar-se-á algo problemático e ameaçador neste caso, sua casa será a casa da morte, um labirinto para se esconder, trará problemas para si mesmo e sua gradual desintegração. O recuso se manifesta como a obtenção da proteção da atual realidade de valores, ideias, virtudes, objetivos e vantagens. Essas fixações representam uma impotência de abandonar o passado com sua esfera de relacionamentos e ideias emocionais infantis, ou seja, suas fobias e outros sintomas. São os muros da infância onde pai e mãe são os guardiões do acesso, da alma atemorizada, com medo das sansões, onde não consegue passar pela porta e alcançar o nascimento para o mundo exterior. Algumas das vítimas ficam assim a vida toda enquanto que outras não para sempre, destinadas a serem salvas e superam suas fobias e traumas, inclusive outros sintomas.

 

MATTANÓ

(12/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura uma Sra. de cerca de 40 anos, histérica, ao qual Freud usou a técnica de investigação sob hipnose. De feições delicadas e marcantes, revelava um grau inusitado de instrução e inteligência; a cada 2 ou 3 minutos ela se calava e fazia expressão de horror e nojo, estendia as mãos e abria entortando os dedos exclamando numa voz alterada, carregada de angústia: ¨Fique quieto! – Não diga nada! – Não me toque!¨

Sua família originária possuía grandes propriedades. Ela a 13ª de 14 filhos, onde apenas 4 sobreviveram. Ela recebeu educação cuidadosa e disciplina rígida de sua mãe. Casou-se com 23 anos com um homem bem dotado que era muito mais velho, ele morreu de derrame cerebral.

Numa casa de saúde, Freud a hipnotizou e notou que ela era uma boa paciente para a hipnose, aplicou também banhos quentes e massagens.

Sob hipnose ela disse que o quê a assustava eram as lembranças sobre sua meninice, de quando tinha 5 anos e seus irmãos costumavam atirar animais mortos nela. Outro susto aconteceu quando tinha 7 anos e viu sua irmã num caixão e outras duas vezes com 8 e 9 anos.

Enquanto relatava estes eventos ela assumia uma expressão de medo e horror; depois suas feições se tranquilizaram.

Noutra sessão relatou que as fotografias dos índios norte-americanos vestidos como animais lhe produziam grande choque.

Sob hipnose disse recordar de visões que teve aos 19 anos, na época da morte de seu irmão, por isso ficou assustada com as fotografias dos índios norte-americanos vestidos como animais.

Na sessão seguinte ela demonstrou sensação de estar melhor, por não sentir mais as dores gástricas.

Sob hipnose relatou medo em relação aos manicômios, pois pessoas de sua família já haviam sido levadas, amarradas e espancadas nesses lugares, contudo Freud a acalmou e suas feições se relaxaram.

Outras lembranças são da morte de sua mãe e de quando encontrou um sapo debaixo de uma pedra, o que a fez perder a fala durante horas.

Seu marido morreu inesperadamente e os jornais locais publicaram artigos difamantes a respeito da paciente, de que ela o havia envenenado, Freud a tranquilizou com suas palavras.

Suas hipnoses logo deixaram de produzir material e ela melhorou tão depressa que não se sentia tão bem desde a morte do marido.

Sob hipnose confessou que tinha o hábito de comer pouco e que só podia beber líquidos espessos como leite, café e chocolate. Seus problemas eram porque era incapaz de subterfúgios. Freud a hipnotizou e a ajudou, então ela comeu e bebeu normalmente.

Notamos que Freud descobriu os sintomas histéricos, onde neste caso, predominam as fobias. Apresentando também a depressão, a dor, os traumas, a gagueira e o estalido ou tiques.

A análise hipnótica pôde demonstrar quanto significado se ocultava por trás do sintoma, com o tique. Eles possuem uma ligação originária com os traumas e representam símbolos destes nas atividades da memória.

No sonambulismo ela se achava num estado inteiramente normal, porém não tinha acesso a toda a extensão do seu conhecimento. Embora no sonambulismo não seja altamente sugestionável, está longe de exibir resistência patológica.

O chamado pode ser recusado. Podem surgir fobias oriundas de subterfúgios e traumas. É

sempre possível desviar a atenção para outras coisas na vida real, não com menos frequência em mitos. A recusa transforma o herói em vítima a ser salva, assim seu mundo tronar-se-á um deserto cheio de obstáculos e um sentimento de grande falta de sentido, a comida e a bebida, a água tornar-se-á algo problemático e ameaçador neste caso, sua casa será a casa da morte, um labirinto para se esconder, trará problemas para si mesmo e sua gradual desintegração. O recuso se manifesta como a obtenção da proteção da atual realidade de valores, ideias, virtudes, objetivos e vantagens. Essas fixações representam uma impotência de abandonar o passado com sua esfera de relacionamentos e ideias emocionais infantis, ou seja, suas fobias e outros sintomas. São os muros da infância onde pai e mãe são os guardiões do acesso, da alma atemorizada, com medo das sansões, onde não consegue passar pela porta e alcançar o nascimento para o mundo exterior. Algumas das vítimas ficam assim a vida toda enquanto que outras não para sempre, destinadas a serem salvas e superam suas fobias e traumas, inclusive outros sintomas.

Da mesma forma a paciente teve que passar pelo chamado que poderia ter sido recusado através do mundo e da realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que substitui a realidade operante pela virtual, onde podem surgir traumas e mitos, um deserto cheio de obstáculos, ausência de sentido e de significado, um labirinto para se esconder em sua luta contra a desintegração. O recuso levará a ganhos, valores e vantagens, estas ofertas representam a impotência de abandonar o passado ou os muros da sua infância, donde terá que nascer para o mundo exterior, sendo vítima a ser salva, derrotada ou vencedora como vemos na análise hipnótica de Freud ao nos relatar o caso acima.

 

MATTANÓ

(13/06/2026)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CASO 3 - MISS LUCY R., 30 ANOS (FREUD)

 

No fim do ano de 1892, um colega conhecido meu encaminhou-me uma jovem que estava sendo tratada por ele de rinite supurativa cronicamente recorrente. Verificou-se em seguida que a obstinada persistência do problema da jovem se devia a uma cárie do osso etmóide. Ultimamente, ela se vinha queixando de alguns sintomas novos que o competente clínico não pôde mais continuar a atribuir a uma afecção local. Ela perdera todo o sentido do olfato e era quase continuamente perseguida por uma ou duas sensações olfativas subjetivas, que lhe eram muito aflitivas. Além disso, estava desanimada e fatigada e se queixava de peso na cabeça, pouco apetite e perda de eficiência.

A jovem, que vivia como governanta na casa do diretor-gerente de uma fábrica nos arredores de Viena, vinha visitar-me de vez em quando em meus horários de consulta. Era de nacionalidade inglesa. Tinha uma constituição delicada, de pigmentação deficiente, mas gozava de boa saúde, salvo por sua afecção nasal. Suas primeiras declarações confirmaram o que o médico me dissera. Sofria de depressão e fadiga e era atormentada por sensações subjetivas do olfato. Quanto aos sintomas histéricos, apresentava uma analgesia geral mais ou menos definida, sem nenhuma perda da sensibilidade tátil, e um exame grosseiro (com a mão) não revelou nenhuma restrição do campo visual. O interior de seu nariz era inteiramente analgésico e sem reflexos: ela era sensível à pressão tátil no local, mas a percepção propriamente dita do nariz como órgão dos sentidos estava ausente, tanto para estímulos específicos quanto para outros (por exemplo, amônia, ou ácido acético). O catarro nasal purulento estava então numa fase de melhora.

Em nossas primeiras tentativas de tornar a doença inteligível, foi necessário interpretar as sensações olfativas subjetivas, visto que eram alucinações recorrentes, como sintomas histéricos crônicos. Sua depressão talvez fosse o afeto ligado ao trauma, e deveria ser possível encontrar uma experiência em que esses odores, que agora se haviam tornado subjetivos, tivessem sido objetivos. Essa experiência devia ter sido o trauma que as sensações recorrentes do olfato simbolizavam na memória. Talvez seja mais correto considerar as alucinações olfativas recorrentes, em conjunto com a depressão que as acompanhava, como equivalentes de um ataque histérico. A natureza das alucinações recorrentes, a rigor, torna-as inadequadas para desempenharem o papel de sintomas crônicos. Mas na verdade essa questão não surgiunum caso como este, que mostrava apenas um desenvolvimento rudimentar. Era essencial, contudo, que as sensações subjetivas do olfato tivessem tido uma origem especializada de uma natureza que admitisse terem-se derivado de algum objeto real bem específico.

Essa expectativa foi logo realizada. Quando lhe perguntei qual era o odor pelo qual era mais constantemente perturbada, ela me respondeu: “Um cheiro de pudim queimado.” Assim, eu só precisava presumir que um cheiro de pudim queimado tinha de fato ocorrido na experiência que atuara como trauma. É muito incomum, sem dúvida, que as sensações olfativas sejam escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas, mas não foi difícil explicar essa escolha. A paciente vinha sofrendo de rinite supurativa e, em conseqüência disso, sua atenção estava especialmente enfocada no nariz e nas sensações nasais. O que eu sabia das circunstâncias da vida da paciente limitava-se ao fato de que as duas crianças de quem ela cuidava não tinham mãe; esta morrera alguns anos antes em decorrência de uma moléstia aguda.

Resolvi então fazer do cheiro de pudim queimado o ponto de partida da análise. Descreverei o curso dessa análise como se tivesse ocorrido em condições favoráveis. De fato, o que deveria ter sido uma única sessão estendeu-se por várias. Isso se verificou porque a paciente só podia visitar-me em meus horários de consulta, quando eu só lhe podia dedicar pouco tempo. Além disso, uma única discussão dessa natureza costumava estender-se por mais de uma semana, visto que as obrigações dela não lhe permitiam fazer a longa viagem da fábrica até minha casa com grande freqüência. Costumávamos, portanto, interromper nossa conversa em meio a seu curso e retomar o fio da meada no mesmo ponto na vez seguinte.

Miss Lucy R. não entrou em estado de sonambulismo quando tentei hipnotizá-la. Assim, abri mão do sonambulismo e conduzi toda a sua análise enquanto ela se encontrava num estado que, a rigor, talvez tenha diferido muito pouco de um estado normal.

 

Terei que falar com mais detalhes sobre esse aspecto de meu procedimento técnico. Quando, em 1889, visitei as clínicas de Nancy, ouvi o Dr. Liébeault, o doyen (decano) do hipnotismo, dizer: “Se ao menos tivéssemos meios de pôr todos os pacientes em estado de sonambulismo, a terapia hipnótica seria a mais poderosa de todas.” Na clínica de Bernheim chegava quase a parecer que essa arte realmente existia e que era possível aprendê-la com Bernheim. Mas logo que tentei praticá-la com meus próprios pacientes, descobri que pelo menos meus poderes estavam sujeitos a graves limitações e que, quando o sonambulismo não era provocado num paciente nas três primeiras tentativas, eu não tinha nenhum meio de induzi-lo. A percentagem de casos acessíveis ao sonambulismo era muito menor, em minha experiência, do que a relatada por Bernheim.

Vi-me, por conseguinte, defrontado com a opção de abandonar o método catártico na maioria dos casos que lhe seriam apropriados ou aventurar-me à experiência de empregar esse método sem o sonambulismo, quando a influência hipnótica fosse leve ou mesmo quando sua existência fosse duvidosa. Parecia-me indiferente qual o grau de hipnose - de acordo com uma ou outra das escalas propostas para medi-la - que era alcançado nesse estado sonambúlico, pois, como sabemos, de qualquer modo cada uma das várias formas assumidas pela sugestionabilidade independe das outras, e a obtenção da catalepsia, de movimentos automáticos e assim por diante não funciona nem favorecendo, nem prejudicando aquilo de que eu precisaria para minhas finalidades, ou seja, que o despertar das lembranças esquecidas fosse facilitado. Além disso, logo abandonei a prática de fazer testes para indicar o grau de hipnose alcançado, visto que num bom número de casos isso provocava a resistência dos pacientes e abalava sua confiança em mim, da qual eu necessitava para executar o trabalho psíquico mais importante. Ademais, logo comecei a ficar cansado de proferir asseguramentos e ordens tais como “Você vai dormir… durma!” e de ouvir o paciente, como tantas vezes acontecia quando o grau de hipnose era leve, reclamar comigo: “Mas doutor, eu não estou dormindo”, e de ter então que fazer distinções sutis: “Não me refiro a um sono comum, mas sim à hipnose. Como vê, você está hipnotizado, não consegue abrir os olhos”, etc., “e de qualquer modo, não há necessidade de que você adormeça”, e assim por diante. Estou certo de que muitos outros médicos que praticam a psicoterapia sabem sair dessas dificuldades de forma mais hábil do que eu. Se assim for, hão de poder adotar algum outro método que não o meu. Parece-me, contudo, que quando alguém espera com tanta freqüência descobrir-se numa situação embaraçosa pelo uso de determinada palavra, será prudente evitar tanto a palavra quanto o embaraço. Quando, portanto, minha primeira tentativa não me conduzia nem ao sonambulismo nem a um grau de hipnose que acarretasse modificações físicas marcantes, eu abandonava de modo ostensivo a hipnose e pedia apenas “concentração”; e ordenava ao paciente que se deitasse e deliberadamente fechasse os olhos como meio de alcançar essa “concentração”. É possível que, dessa forma, eu obtivesse com apenas um ligeiro esforço o mais profundo grau de hipnose possível de ser alcançado naquele caso particular.

Mas, ao abrir mão do sonambulismo, talvez me estivesse privando de uma precondição sem a qual o método catártico não parecia utilizável, pois esse método era claramente baseado na possibilidade de os pacientes, em seu estado alterado de consciência, terem acesso às lembranças e serem capazes de identificar ligações que não pareciam estar presentes em seu estado de consciência normal. Se a extensão sonambúlica da memória estivesse ausente, também não haveria nenhuma possibilidade de estabelecer quaisquer causas determinantes que o paciente pudesse apresentar ao médico como algo desconhecido para ele (o paciente); e está claro que são precisamente as lembranças patogênicas que, como já tivemos ocasião de dizer em nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, se acham “ausentes da lembrança dos pacientes quando em estado psíquico normal, ou só se fazem presentes de forma bastante sumária”.

Poupei-me desse novo embaraço ao me lembrar de que eu próprio vira Bernheim dar provas de que as lembranças dos acontecimentos ocorridos durante o sonambulismo são apenas aparentemente esquecidas no estado de vigília, e podem ser revividas por meio de uma ordem delicada e de uma pressão com a mão, destinada a indicar um estado diferente de consciência. Ele havia, por exemplo, dado a uma mulher em estado de sonambulismo uma alucinação negativa, no sentido de que ele não estava mais presente, e depois se esforçava por chamar a atenção dela para si próprio de diversas maneiras diferentes, inclusive algumas de natureza decididamente agressiva. Não teve sucesso. Depois de ela ser despertada, ele lhe pediu que contasse o que lhe fizera enquanto ela achava que ele não estava mais lá. Surpresa, ela respondeu nada saber a esse respeito. Mas ele não aceitou essa resposta, insistindo em que ela podia recordar-se de tudo, e pôs a mão em sua testa a fim de ajudá-la a lembrar-se. E vejam só! Ela acabou por descrever tudo o que aparentemente não havia percebido durante o sonambulismo e aparentemente não havia recordado no estado de vigília.

Essa surpreendente e instrutiva experiência me serviu de modelo. Resolvi partir do pressuposto de que meus pacientes sabiam tudo o que tinha qualquer significado patogênico e que se tratava apenas de uma questão de obrigá-los a comunicá-lo. Assim, quando alcançava um ponto em que, depois de formular ao paciente uma pergunta como “Há quanto tempo tem este sintoma?” ou “Qual foi sua origem?”, recebia como resposta “Realmente não sei”, eu prosseguia da seguinte maneira. Colocava a mão na testa do paciente ou lhe tomava a cabeça entre a mãos e dizia: “Você pensará nisso sob a pressão da minha mão. No momento em que eu relaxar a pressão, verá algo à sua frente, ou algo aparecerá em sua cabeça. Agarre-o. Será o que estamos procurando. - E então, o que foi que viu ou o que lhe ocorreu?”

 

Nas primeiras ocasiões em que usei esse método (não foi com Miss Lucy R.), eu próprio me surpreendi ao constatar que ele me proporcionava precisamente os resultados de que eu necessitava. E posso afirmar com segurança que quase nunca me deixou em dificuldades desde então. Sempre apontou o caminho que a análise deveria seguir e me permitiu conduzir cada uma dessas análises até o fim sem o emprego do sonambulismo. Afinal fiquei tão confiante que, quando os pacientes respondiam “não vejo nada” ou “nada me ocorreu”, podia descartar essa afirmação como uma impossibilidade e assegurar-lhes que por certo haviam ficado conscientes do que se desejava, mas se recusavam a acreditar que fosse aquilo e o rejeitavam. Dizia-lhes que estava pronto a repetir o método quantas vezes desejassem e que eles veriam a mesma coisa todas as vezes. Invariavelmente, eu tinha razão. Os pacientes ainda não tinham aprendido a relaxar sua faculdade crítica. Haviam rejeitado a lembrança que surgira ou a idéia que lhes tinha ocorrido, sob a alegação de que não servia e era uma interrupção irrelevante. E depois que a relatavam a mim, ela sempre revelava ser aquilo que se desejava. Às vezes, quando após três ou quatro pressões eu tinha por fim extraído a informação, o paciente replicava: “Aliás, eu de fato já sabia disso desde a primeira vez, mas era justamente o que eu não queria dizer”, ou então, “Eu tinha esperança de que não fosse isso”.

Era trabalhosa essa questão de ampliar o que se supunha ser uma consciência limitada - muito mais trabalhosa, pelo menos, do que uma investigação durante o sonambulismo. Não obstante, tornou-se independente do sonambulismo e me proporcionou uma compreensão dos motivos que muitas vezes determinam o “esquecimento” das lembranças. Posso afirmar que esse esquecimento é muitas vezes intencional e desejado, e seu êxito nunca é mais do que aparente.

Achei ainda mais surpreendente, talvez, que pelo mesmo método fosse possível fazer retornarem números e datas que, a um exame superficial, há muito tinham sido esquecidos, e assim revelar como a memória pode ser inesperadamente precisa.

O fato de, ao procurarmos números e datas, nossa escolha ser tão limitada permite-nos chamar em nosso auxílio uma proposição que nos é familiar a partir da teoria da afasia, ou seja, que reconhecer alguma coisa é uma tarefa mais leve para a memória do que pensar nela espontaneamente. Assim, quando o paciente é incapaz de recordar-se do ano, mês ou dia em que um fato particular ocorreu, podemos repetir-lhe os números dos anos possivelmente relevantes, os nomes dos doze meses e os trinta e um números dos dias do mês, assegurando-lhe que, quando chegarmos ao número certo, ou ao nome certo, seus olhos se abrirão por sua livre vontade ou ele sentirá qual é o certo. Na grande maioria dos casos, de fato o paciente se decide por uma data particular. Com grande freqüência (como no caso da Sra. Caecilie M.) é possível comprovar, por documentos do período em questão, que a data foi reconhecida de forma correta, enquanto em outros casos e em outras ocasiões a indiscutível exatidão da data escolhida pode ser inferida pelo contexto dos fatos recordados. Por exemplo, depois que uma paciente teve sua atenção atraída para a data a que se tinha chegado por esse método de “contagem”, ela disse: “Ora, esse é o aniversário do meu pai!” e acrescentou: “É claro! foi por ser aniversário dele que eu estava esperando o acontecimento de que estávamos falando”.

Aqui, só de passagem posso tocar nesse tema. A conclusão que extraí de todas essas observações foi que as experiências que desempenharam um papel patogênico importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parecem ter sido esquecidas - quando ele é incapaz de relembrá-las.

 

Após essa longa mais inevitável digressão, voltarei ao caso de Miss Lucy R. Como disse, portanto, minhas tentativas de hipnose com ela não produziram o sonambulismo. Ela simplesmente ficava deitada, quieta, num estado acessível a um discreto grau de influência, com os olhos fechados o tempo todo, as feições um pouco rígidas e sem mexer nem as mãos nem os pés. Perguntei-lhe se conseguia lembrar-se da ocasião em que sentira pela primeira vez o cheiro de pudim queimado. - “Ah, sim, sei exatamente. Foi há uns dois meses, dois dias antes do meu aniversário. Estava com as crianças na sala de aula e brincava de cozinhar com elas” (eram duas meninas). - “Chegou uma carta que acabara de ser entregue pelo carteiro. Vi pelo carimbo postal e pela letra que era da minha mãe, em Glasgow, e queria abri-la e lê-la, mas as crianças se precipitaram sobre mim, arrancaram a carta de minhas mãos e gritaram: ‘Não, você não vai ler agora! Deve ser pelo seu aniversário, vamos guardar a carta para você!’ Enquanto as crianças faziam essa brincadeira comigo, houve de repente um cheiro forte. Elas haviam esquecido o pudim que estavam assando, e ele estava queimando. Desde então tenho sido perseguida pelo cheiro, que está sempre presente e fica mais forte quando estou agitada”.

- “Você vê essa cena com nitidez diante de seus olhos?” - “Em tamanho natural, exatamente como a experimentei.” - “Que poderia haver a respeito dela que fosse tão perturbador?” - “Fiquei emocionada porque as crianças foram muito afetuosas comigo.” - “E não o eram sempre?” - “Sim… mas justamente quando recebi a carta de minha mãe.” - “Não compreendo por que há um contraste entre a afeição das crianças e a carta de sua mãe, pois é o que você parece estar sugerindo.” - “Eu estava pretendendo voltar para a casa de minha mãe, e pensar em deixar aquelas crianças queridas me deixava muito triste.” - “Qual é o problema com sua mãe? Tem se sentido sozinha e mandou buscar você? Ou estava doente na ocasião, e você esperava notícias dela?” - “Não; ela não é muito forte, mas não está exatamente doente, e tem alguém que lhe faz companhia.” - “Então por que você precisava deixar as crianças?” - “Não podia mais suportar ficar naquela casa. A empregada, a cozinheira e a governanta francesa pareciam pensar que eu me estava colocando acima do meu lugar. Aliaram-se numa pequena intriga contra mim e disseram toda espécie de coisas a meu respeito ao avô das crianças, e não obtive tanto apoio quanto esperava dos dois cavalheiros quando me queixei a eles. Assim, notifiquei o Diretor (o pai das crianças) de que pretendia ir embora. Ele respondeu de maneira muito amável que seria melhor eu pensar mais sobre o assunto durante umas duas ou três semanas, antes de dar-lhe minha decisão final. Eu estava nessa situação de incerteza na época e achava que iria deixar a casa, mas acabei ficando.” - “Havia algo em particular, afora a afeição delas por você, que a ligasse às crianças?” - “Havia. A mãe delas era parente distante da minha mãe, e eu lhe prometera em seu leito de morte que me devotaria com todas as minhas forças às crianças, que não as deixaria e que ocuparia o lugar da mãe junto a elas. Ao dar a notificação de minha saída eu havia quebrado essa promessa”.

Isso pareceu completar a análise da sensação objetiva de cheiro apresentada pela paciente. De fato, ela mostrara ter sido, em sua origem, uma sensação objetiva, intimamente associada a uma experiência - uma pequena cena - em que dois afetos antagônicos tinham estado em conflito: sua tristeza por deixar as crianças e as desconsiderações que, não obstante, a estavam impelindo a decidir-se por aquele curso de ação. A carta da mãe naturalmente a havia feito relembrar suas razões para tomar essa decisão, visto que era sua intenção juntar-se a ela ao partir. O conflito entre seus afetos promovera o momento da chegada da carta à categoria de um trauma, e a sensação de cheiro associada a esse trauma persistiu como seu símbolo. Ainda era necessário explicar por que, de todas as percepções sensoriais proporcionadas pela cena, ela havia escolhido aquele odor como símbolo. Eu já estava preparado, contudo, para recorrer à afecção crônica do nariz de minha paciente para ajudar a explicar esse ponto. Em resposta a uma pergunta direta, disse-me que, justamente naquela época, estava mais uma vez com um resfriado nasal tão forte que mal podia sentir o cheiro do que quer que fosse. Entretanto, quando em seu estado de agitação, percebeu o cheiro do pudim queimado, que transpôs a barreira da perda organicamente determinada de seu sentido de olfato.

Mas não fiquei satisfeito com a explicação assim alcançada. Tudo parecia muito plausível, mas havia algo que me escapava, alguma razão adequada por que essas agitações e esse conflito de afetos levaram à histeria, e não a qualquer outra coisa. Por que tudo não havia permanecido no nível da vida psíquica normal? Em outras palavras, qual era a justificativa para a conversão que havia ocorrido? Por que ela não se recordava sempre da própria cena, em vez da sensação associada que ela isolava como o símbolo da lembrança? Tais questões poderiam parecer curiosas demais e supérfluas, se estivéssemos lidando com uma histérica de longa data em quem o mecanismo da conversão fosse habitual. Mas não fora senão quando do advento desse trauma, ou pelo menos dessa pequena história de perturbações, que a moça ficara histérica.

Ora, eu já sabia, pela análise de casos semelhantes, que antes de a histeria poder ser adquirida pela primeira vez, uma condição essencial precisa ser preenchida: uma representação precisa ser intencionalmente recalcada da consciência e excluída das modificações associativas. Em minha opinião, esse recalcamento intencional constitui também a base para a conversão total ou parcial da soma de excitação. A soma de excitação, estando isolada da associação psíquica, encontra ainda com mais facilidade seu caminho pela trilha errada para a inervação somática. A base do próprio recalcamento só pode ser uma sensação de desprazer, uma incompatibilidade entre a representação isolada a ser recalcada e a massa dominante de representações que constituem o ego. A representação recalcada vinga-se, contudo, tornando-se patogênica.

Por conseguinte, do fato de Miss Lucy R. ter sucumbido à conversão histérica no momento em questão, inferi que, entre os determinantes do trauma, devia ter havido um que ela intencionalmente procurara deixar na obscuridade e se esforçara por esquecer. Se sua afeição pelas crianças e sua sensibilidade em relação aos outros membros da casa fossem consideradas em conjunto, só se poderia tirar uma conclusão. Fui ousado o bastante para informar minha paciente dessa interpretação. Disse-lhe: “Não consigo conceber que essas sejam todas as razões para seus sentimentos a respeito das crianças. Creio que, na verdade, você está apaixonada por seu patrão, o Diretor, embora talvez sem que você própria esteja consciente disso, e que nutre a esperança secreta de tomar de verdade o lugar da mãe delas. E devemos também recordar a sensibilidade que você agora tem em relação às criadas, após ter vivido pacificamente com elas durante anos. Você teme que elas suspeitem de suas esperanças e se divirtam à sua custa.

Ela respondeu em seu habitual estilo lacônico: “Sim, acho que isso é verdade.” - “Mas, se você sabia que amava seu patrão, por que não me disse?” - “Não sabia… ou melhor, não queria saber. Queria tirar isso de minha cabeça e não pensar mais no assunto, e creio que ultimamente tenho conseguido.” - “Por que foi que você não estava disposta a admitir essa inclinação? Estava envergonhada de amar um homem?” - “De forma alguma, não sou assim tão pudica. De qualquer forma, não somos responsáveis por nossos sentimentos. Isso me foi aflitivo apenas porque ele é meu patrão e estou a seu serviço, morando em sua casa. Não sinto em relação a ele a mesma independência completa que sentiria em relação a qualquer outro. E depois, sou apenas uma moça pobre, e ele é um homem muito rico e de boa família. As pessoas iriam rir de mim se tivessem alguma idéia disso”.

A essa altura, ela não opôs nenhuma resistência a esclarecer a origem dessa inclinação. Disse-me que nos primeiros anos vivera feliz na casa, cumprindo com seus deveres e livre de quaisquer desejos irrealizáveis. Um dia, porém, seu patrão, um homem sério e sobrecarregado de trabalho, cujo comportamento em relação a ela sempre fora reservado, iniciou uma discussão sobre os moldes em que as crianças deveriam ser educadas. Ele foi menos formal e mais cordial do que de costume e lhe disse o quanto dependia dela para cuidar de seus filhos órfãos; e ao dizer isso, olhou-a de modo significativo… O amor da jovem por ele havia começado nesse momento, e ela se permitira até mesmo apoiar-se nas esperanças gratificantes que havia baseado nessa conversa. Mas quando não houve nenhum outro progresso, e depois de esperar em vão por outra hora íntima de troca de opiniões, ela decidiu banir tudo aquilo da mente. Miss Lucy concordou inteiramente comigo em que era provável que o olhar por ela notado durante a conversa havia brotado dos pensamentos dele sobre a esposa, e reconheceu de maneira bem clara que não havia nenhuma perspectiva de que seus sentimentos por ele fossem de algum modo correspondidos.

Esperava que essa conversa trouxesse uma modificação fundamental em seu estado, mas por algum tempo isso não se verificou. Ela continuou desanimada e deprimida. Sentia-se um pouco revigorada pela manhã, graças ao tratamento hidropático que eu lhe receitara ao mesmo tempo. O cheiro de pudim queimado não desapareceu por completo, embora se tornasse menos freqüente e mais fraco. Só aparecia, disse-me ela, quando ficava extremamente agitada. A persistência desse símbolo mnêmico levou-me a suspeitar que, além da cena principal, ele havia assumido a representação dos numerosos traumas secundários associados àquela cena. Assim, procuramos alguma outra coisa que pudesse ter relação com o pudim queimado; penetramos na questão do atrito doméstico, do comportamento do avô e assim por diante, e à medida que o fazíamos o cheiro de queimado foi-se dissipando cada vez mais. Também durante essa época o tratamento foi interrompido por um tempo considerável, graças a um novo ataque de seu distúrbio nasal, que levou então à descoberta da cárie do etmóide |ver em [1]|.

Ao retornar, contou ela que no Natal recebera muitos presentes dos dois cavalheiros da casa e até das empregadas, como se todos estivessem ansiosos por fazer as pazes com ela e apagar de sua lembrança os conflitos dos últimos meses. Mas esses sinais de boas intenções não haviam causado nenhuma impressão nela.

Quando lhe perguntei mais uma vez sobre o cheiro de pudim queimado, ela me informou que ele havia desaparecido, mas que agora vinha sendo importunada por outro cheiro semelhante, parecido com o de fumaça de charuto. Esse cheiro também estivera presente antes, mas fora encoberto, por assim dizer, pelo cheiro do pudim. Agora aparecera por si mesmo.

Não fiquei muito satisfeito com os resultados do tratamento. O que acontecera fora exatamente o que sempre se consegue com um tratamento sintomático: eu apenas eliminara um sintoma só para que seu lugar fosse ocupado por outro. Entretanto, não hesitei em dedicar-me à tarefa de eliminar esse novo símbolo mnêmico através da análise.

Mas dessa vez ela não sabia de onde provinha a sensação olfativa subjetiva - em que ocasião importante ela fora uma sensação objetiva. “Todos os dias as pessoas fumam em nossa casa,” disse, “e realmente não sei se o cheiro que sinto se refere a alguma ocasião especial”. Insisti então em que ela tentasse recordar sob a pressão de minha mão. Já tive oportunidade de mencionar |ver em [1]| que suas lembranças possuíam a qualidade de uma nitidez plástica, que ela era um tipo “visual”. E de fato, por insistência minha, um quadro surgiu gradativamente diante dela, a princípio de maneira hesitante e fragmentada. Era a sala de jantar de sua casa, onde ela esperava com as crianças que os dois cavalheiros voltassem da fábrica para almoçar. “Agora estamos todos sentados à mesa: os cavalheiros, a governanta francesa, a empregada, as crianças e eu. Mas isso é o que acontece todos os dias.” - “Continue a olhar para o quadro; ele se desenvolverá e ficará mais específico.” - “Sim, há um convidado. É o contador-chefe. É um senhor e é tão afeiçoado às crianças como se fossem seus próprios netos. Mas ele vem tantas vezes almoçar que também não há nada de especial nisso.” - “Tenha paciência e continue a olhar para o quadro; é certo que acontecerá alguma coisa.” - “Não está acontecendo nada. Estamos nos levantando da mesa; as crianças se despedem e sobem conosco, como de costume, para o segundo andar.” - “E então?” - “Ora, afinal de contas é uma ocasião especial. Agora reconheço a cena. Quando as crianças se despedem, o contador tenta beijá-las. Meu patrão se exalta e chega a gritar com ele: ‘Não beije as crianças!’ Sinto uma punhalada no coração, e como os cavalheiros já estão fumando, a fumaça dos charutos fica em minha memória.”

Essa, portanto, era uma segunda cena, mais profunda, que à semelhança da primeira funcionou como um trauma e deixou atrás de si um símbolo mnêmico. Mas a que essa cena devera sua eficácia? - “Qual das duas cenas foi a primeira”, perguntei, “essa ou a do pudim queimado?” - “A cena que acabo de lhe contar foi a primeira, com uma diferença de quase dois meses.” - “Então por que você sentiu essa punhalada quando o pai das crianças deteve o velho? A reprimenda dele não visava a você.” - “Não foi certo da parte dele gritar com um senhor idoso, que era um bom amigo e, ainda por cima, um convidado. Ele poderia ter dito aquilo com delicadeza.” - “Então foi só a violência com que ele se expressou que magoou você? Você se sentiu constrangida por ele? Ou talvez tenha pensado: ‘Se ele pode ser tão violento por uma coisa tão insignificante com um velho amigo e convidado, quanto mais seria comigo se eu fosse mulher dele.’” - “Não, não é isso.” - “Mas teve algo a ver com a violência dele, não foi?” - “Teve, em relação ao fato de as crianças serem beijadas. Ele jamais gostou disso.”

E nesse momento, sob a pressão de minha mão, emergiu a lembrança de uma terceira cena, ainda mais antiga, que fora o trauma realmente atuante e que dera à cena com o contador-chefe sua eficácia traumática. Ainda acontecera, alguns meses antes, que uma senhora conhecida do patrão fora visitá-los e, ao sair, beijara as duas crianças na boca. O pai delas, que se achava presente, conseguira refrear-se para não dizer nada à senhora, mas depois que ela havia partido, sua fúria explodira sobre a cabeça da infeliz governanta. Disse que a responsabilizaria se alguém beijasse as crianças na boca, que era seu dever não permitir tal coisa e que ela estaria incidindo numa falta para com seu dever se o permitisse; se aquilo acontecesse de novo, ele confiaria a educação das crianças a outras mãos. Isso havia acontecido numa ocasião em que Miss Lucy ainda supunha que ele a amava, e estava na expectativa de uma repetição de sua primeira conversa amistosa. A cena esmagara suas esperanças. Ela dissera consigo mesma: “Se ele pode enfurecer-se comigo dessa maneira e fazer tais ameaças por um assunto tão banal, e em relação ao qual, além disso, não tenho a mínima responsabilidade, devo ter cometido um erro. Ele não pode jamais ter tido quaisquer sentimentos ternos por mim, senão eles o teriam ensinado a tratar-me com maior consideração.” Foi obviamente a lembrança dessa cena aflitiva que lhe veio quando o contador-chefe tentou beijar as crianças e foi repreendido pelo pai destas últimas.

Depois dessa última análise, quando, dois dias depois, Miss Lucy tornou a me visitar, não pude deixar de lhe perguntar o que lhe acontecera para deixá-la tão feliz. Parecia transfigurada. Estava sorridente e de cabeça erguida. Pensei por um momento que, afinal de contas, eu estava errado sobre a situação e a governanta das crianças tinha ficado noiva do Diretor. Mas ela desfez essa minha idéia. “Não aconteceu nada. Ocorre apenas que o senhor não me conhece. O senhor só me viu doente e deprimida. Em geral, sou sempre alegre. Quando acordei ontem pela manhã, não sentia mais aquele peso na cabeça, e desde então tenho-me sentido bem.” - “E o que acha de suas perspectivas na casa?” - “Tenho uma idéia bem clara sobre o assunto. Sei que não tenho nenhuma possibilidade e não vou ficar infeliz por isso.” - “E será que agora vai se dar bem com os empregados?” - “Acho que minha própria sensibilidade exagerada foi a responsável pela maior parte do que aconteceu.” - “E você ainda está apaixonada por seu patrão?” - “Sim, é claro que estou, mas isso não faz nenhuma diferença. Afinal, posso guardar comigo meus próprios pensamentos e sentimentos.”

Examinei-lhe então o nariz e verifiquei que sua sensibilidade à dor e sua excitabilidade reflexa tinham sido quase inteiramente restauradas. Ela também conseguia distinguir os odores, embora com insegurança e apenas se fossem fortes. Cabe-me deixar em aberto, contudo, a questão de saber até que ponto seu distúrbio nasal terá desempenhado um papel na redução de seu sentido do olfato.

Esse tratamento durou ao todo nove semanas. Quatro meses depois encontrei-me por acaso com a paciente numa de nossas estações de veraneio. Estava animada e assegurou-me que sua recuperação fora duradoura.

 

 

DISCUSSÃO

 

Não estou inclinado a subestimar a importância do caso que acabo de descrever, muito embora a paciente só estivesse sofrendo de uma histeria leve e benigna e houvesse apenas poucos sintomas em jogo. Pelo contrário, parece-me um fato instrutivo que mesmo uma doença como essa, tão improdutiva quando encarada como uma neurose, exigisse tantos determinantes psíquicos. Na realidade, quando considero esse caso clínico mais detidamente, fico tentado a vê-lo como um modelo exemplar de um tipo particular de histeria, ou seja, a forma dessa moléstia que pode ser contraída mesmo por uma pessoa de boa hereditariedade, como resultado de experiências apropriadas. Deve-se compreender que não me refiro, com isso, a uma histeria independente de qualquer predisposição já existente. É provável que tal histeria não exista. Mas só reconhecemos uma predisposição dessa natureza numa pessoa depois que ela se torna de fato histérica, pois antes disso não há provas da sua existência. A predisposição neuropática, tal como genericamente compreendida, é diferente. Já está marcada, antes da instalação da doença, pelo quantum da contaminação hereditária do sujeito ou pela soma de suas anormalidades psíquicas individuais. Até onde vão minhas informações, não havia em Miss Lucy R. nenhum traço de qualquer desses fatores. Sua histeria, portanto, pode ser descrita como adquirida, e não pressupôs nada além da posse do que é, provavelmente, uma tendência muito difundida - a tendência para adquirir a histeria. Ainda não temos quase nenhuma idéia de quais possam ser as características dessa tendência. Nos casos dessa espécie, contudo, a ênfase principal recai na natureza do trauma, embora, é claro, considerada em conjunto com a reação do sujeito ao mesmo. Para a aquisição da histeria, vem a ser um sine qua non o desenvolvimento de uma incompatibilidade entre o ego e alguma idéia a ele apresentada. Espero ter a possibilidade de indicar, em outro texto, como diferentes perturbações neuróticas emergem dos diversos métodos adotados pelo “ego” para escapar a essa incompatibilidade. O método histérico de defesa - para o qual, como vimos, é necessária a posse de uma tendência específica - reside na conversão da excitação em uma inervação somática; e a vantagem disso é que a idéia incompatível é forçada para fora do ego consciente. Em troca, essa consciência guarda então a reminiscência física surgida por meio da conversão (em nosso caso, as sensações subjetivas de olfato da paciente) e sofre por causa do afeto que se acha de forma mais ou menos clara ligado precisamente àquela reminiscência. A situação assim provocada passa então a não ser suscetível de modificação, pois a incompatibilidade que teria exigido uma eliminação do afeto não existe mais, graças ao recalque e à conversão. Assim, o mecanismo que produz a histeria representa, por um lado, um ato de covardia moral e, por outro, uma medida defensiva que se acha à disposição do ego. Com bastante freqüência temos de admitir que rechaçar as excitações crescentes provocando a histeria é, nessas circunstâncias, a coisa mais conveniente a fazer; com maior freqüência, naturalmente, temos que concluir que uma dose maior de coragem moral teria sido vantajosa para a pessoa em causa.

O momento traumático real, portanto, é aquele em que a incompatibilidade se impõe sobre o ego e em que este último decide repudiar a idéia incompatível. Essa idéia não é aniquilada por tal repúdio, mas apenas recalcada para o inconsciente. Quando esse processo ocorre pela primeira vez, passa a existir um núcleo e centro de cristalização para a formação de um grupo psíquico divorciado do ego - um grupo em torno do qual tudo o que implicaria uma aceitação da idéia incompatível passa então a se reunir. A divisão da consciência nesses casos de histeria adquirida é, portanto, deliberada e intencional. Pelo menos, é muitas vezes introduzida por um ato de volição, pois o resultado real é um pouco diferente do que o indivíduo pretendia. O que ele desejava era eliminar uma idéia, como se jamais tivesse surgido, mas tudo o que consegue fazer é isolá-la psiquicamente.

Na história de nossa atual paciente, o momento traumático foi o da explosão do patrão contra ela porque as crianças foram beijadas pela senhora. Por algum tempo, contudo, essa cena não teve nenhum efeito manifesto. (Pode ser que a hipersensibilidade e o desânimo da paciente tenham começando a partir dela, mas não posso afirmá-lo.) Seus sintomas histéricos só começaram depois, em momentos que podem ser descritos como “auxiliares”. O traço característico do momento auxiliar é, creio eu, que os dois grupos psíquicos divididos convergem temporariamente para ele, como fazem na consciência ampliada que ocorre no sonambulismo. No caso de Miss Lucy R., o primeiro dos momentos auxiliares, no qual ocorreu a conversão, foi a cena à mesa, quando o contador-chefe tentou beijar as crianças. Aqui a lembrança traumática estava desempenhando um papel: a paciente não se comportou como se se tivesse livrado de tudo o que se relacionava com sua dedicação ao patrão. (Na história de outros casos, esses diferentes momentos coincidem; a conversão ocorre como efeito imediato do trauma.)

O segundo momento auxiliar repetiu o mecanismo do primeiro de forma quase exata. Uma impressão poderosa reagrupou temporariamente a consciência da paciente, e a conversão mais uma vez seguiu a trilha que se abrira na primeira ocasião. É interessante notar que o segundo sintoma a se desenvolver camuflou o primeiro, de modo que este só foi percebido com clareza quando o segundo foi retirado do caminho. Também me parece que vale a pena fazer uma observação sobre o curso inverso que teve de ser seguido também pela análise. Tive a mesma experiência num grande número de casos; os sintomas surgidos posteriormente camuflaram os primeiros, e a chave de toda a situação estava apenas no último sintoma a ser alcançado pela análise.

O processo terapêutico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psíquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a consciência do ego. Estranhamente, o êxito não acompanhou pari passu o volume de trabalho realizado. Foi só quando a última tarefa foi concluída que de repente ocorreu a recuperação.

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Trata-se aqui de uma jovem de boa saúde, com afecção nasal, depressão e fadiga, atormentada por sensações subjetivas do olfato, e com sintomas histéricos, com uma analgesia geral.

Sem dúvida, as sensações olfativas eram escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas. As sensações subjetivas do olfato tinham origem especializada de uma natureza derivada de algum objeto real bem específico, neste caso, ¨um cheiro de pudim queimado¨.

Freud com o método do sonambulismo percebeu que não alcançava o objetivo de seus princípios e fins, de seu tratamento, pois havia um ¨esquecimento¨ das lembranças que atrapalhava o tratamento.

As experiências que desempenharam um papel importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parece ter esquecido e é incapaz de lembrá-las.

A paciente experimentou um conflito entre seus afetos no momento da chegada da carta à categoria de um trauma, e a sensação de cheiro associada a esse trauma persistiu como seu símbolo.

A paciente desenvolveu amor pelo seu patrão, mas não acreditava em realizar esse amor.

A paciente substituiu o cheiro do pudim pelo da fumaça de charuto conforme o contexto.

Foi obviamente a cena e a lembrança da cena aflitiva que lhe veio quando o contador-chefe tentou beijar as crianças e foi reprimido pelo pai destas, que fez a paciente não ter qualquer sentimentos por ele.

Contudo a paciente continuou apaixonada pelo seu patrão, porém, agora, se sentindo muito bem.

Esta histeria é resultado de experiências apropriadas. Seu trauma é a reação do sujeito ao mesmo. A aquisição da histeria deu-se através de uma incompatibilidade entre o ego e alguma ideia a ele apresentada.

O processo terapêutico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psíquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a consciência do ego.

    O caminho obtuso. Este caminho cheio de pedras e obstáculos vem logo após o

herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. O herói é a paciente e o caminho obtuso é o caminho que a leva para a cena traumática onde testemunha o comendador-chefe beijando as crianças. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, estes amuletos e agentes secretos podem ser seus objetos pessoais ou religiosos ou de sorte que a ajudem a lidar com o trauma. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura, vítimas da pedofilia, por exemplo, e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, aqui a paciente começa a encontrar elaborar seus traumas.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente, certamente, está nos deixando seu exemplo, seu testemunho, seu caso clínico para o estudo acadêmico e científico, para que a luta continue.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal, aqui a paciente faz a análise de seus traumas.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. É através dos sonhos que ela revive suas experiências.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. As vitórias ou o êxtase virá com a união do grupo psíquico que fora dividido, reunindo-se com a consciência do ego.

 

MATTANÓ

(13/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura trata-se aqui de uma jovem de boa saúde, com afecção nasal, depressão e fadiga, atormentada por sensações subjetivas do olfato, e com sintomas histéricos, com uma analgesia geral.

Sem dúvida, as sensações olfativas eram escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas. As sensações subjetivas do olfato tinham origem especializada de uma natureza derivada de algum objeto real bem específico, neste caso, ¨um cheiro de pudim queimado¨.

Freud com o método do sonambulismo percebeu que não alcançava o objetivo de seus princípios e fins, de seu tratamento, pois havia um ¨esquecimento¨ das lembranças que atrapalhava o tratamento.

As experiências que desempenharam um papel importante, junto com todos os seus concomitantes secundários, são retidas com exatidão na memória do paciente, mesmo quando parece ter esquecido e é incapaz de lembrá-las.

A paciente experimentou um conflito entre seus afetos no momento da chegada da carta à categoria de um trauma, e a sensação de cheiro associada a esse trauma persistiu como seu símbolo.

A paciente desenvolveu amor pelo seu patrão, mas não acreditava em realizar esse amor.

A paciente substituiu o cheiro do pudim pelo da fumaça de charuto conforme o contexto.

Foi obviamente a cena e a lembrança da cena aflitiva que lhe veio quando o contador-chefe tentou beijar as crianças e foi reprimido pelo pai destas, que fez a paciente não ter qualquer sentimentos por ele.

Contudo a paciente continuou apaixonada pelo seu patrão, porém, agora, se sentindo muito bem.

Esta histeria é resultado de experiências apropriadas. Seu trauma é a reação do sujeito ao mesmo. A aquisição da histeria deu-se através de uma incompatibilidade entre o ego e alguma ideia a ele apresentada.

O processo terapêutico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psíquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a consciência do ego.

O caminho obtuso. Este caminho cheio de pedras e obstáculos vem logo após o herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. O herói é a paciente e o caminho obtuso é o caminho que a leva para a cena traumática onde testemunha o comendador-chefe beijando as crianças. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, estes amuletos e agentes secretos podem ser seus objetos pessoais ou religiosos ou de sorte que a ajudem a lidar com o trauma. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura, vítimas da pedofilia, por exemplo, e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, aqui a paciente começa a encontrar elaborar seus traumas.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente, certamente, está nos deixando seu exemplo, seu testemunho, seu caso clínico para o estudo acadêmico e científico, para que a luta continue.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal, aqui a paciente faz a análise de seus traumas.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. É através dos sonhos que ela revive suas experiências.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. As vitórias ou o êxtase virá com a união do grupo psíquico que fora dividido, reunindo-se com a consciência do ego.

Da mesma forma a jovem de boa saúde, com afecção nasal, depressão e fadiga, atormentada por sensações subjetivas do olfato, e com sintomas histéricos, com uma analgesia geral.

Sem dúvida, as sensações olfativas eram escolhidas como símbolos mnêmicos de traumas. As sensações subjetivas do olfato tinham origem especializada de uma natureza derivada de algum objeto real bem específico, neste caso, ¨um cheiro de pudim queimado¨.

Esta histeria é resultado de experiências apropriadas. Seu trauma é a reação do sujeito ao mesmo. A aquisição da histeria deu-se através de uma incompatibilidade entre o ego e alguma ideia a ele apresentada.

O processo terapêutico, neste caso, consistiu em compelir o grupo psíquico que fora dividido a se reunir mais uma vez com a consciência do ego.

Assim o caminho obtuso se manifesta para esta paciente. Este caminho é cheio de pedras e de obstáculos e vem logo após o herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. O herói é a paciente e o caminho obtuso é o caminho que a leva para a cena traumática onde testemunha o comendador-chefe beijando as crianças. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, estes amuletos e agentes secretos podem ser seus objetos pessoais ou religiosos ou de sorte que a ajudem a lidar com o trauma. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura, vítimas da pedofilia, por exemplo, e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, aqui a paciente começa a encontrar elaborar seus traumas.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios, ou seja, adversidades, problemas, transtornos e dificuldades, para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente, certamente, está nos deixando seu exemplo, seu testemunho, seu caso clínico para o estudo acadêmico e científico, para que a luta continue.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal, aqui a paciente faz a análise de seus traumas. Trata-se do desenvolvimento da personalidade da paciente ou do herói através da análise.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. É através dos sonhos que ela revive suas experiências. Os sonhos são uma janela aberta para o inconsciente e o inconsciente é uma janela aberta para o recalcado, para as influências do passado, da vida infantil, doméstica e familiar.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. As vitórias ou o êxtase virá com a união do grupo psíquico que fora dividido, reunindo-se com a consciência do ego. Trata-se isto da integração da personalidade da paciente, que se manifesta através da reunião da consciência, da cultura, do conhecimento e da realidade dessa paciente. Vemos isto no mundo e na realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que nos ensinam que a realidade operante pode ser substituída pela virtual, do Alcorão, e assim fazer prevalecer significados e sentidos que participarão do processo de integração da personalidade do ou da paciente, de tal modo que sua realidade, cultura, conhecimento e consciência também estejam integradas ou reunidas.

 

MATTANÓ

(12/07/2026)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CASO 4 - KATHARINA - (FREUD)

 

Nas férias de verão do ano de 189.. fiz uma excursão ao Hohe Tauern para que por algum tempo pudesse esquecer a medicina e, mais particularmente, as neuroses. Quase havia conseguido isso quando, um belo dia, desviei-me da estrada principal para subir uma montanha que ficava um pouco afastada e que era renomada por suas vistas e sua cabana de hospedagem bem administrada. Alcancei o cimo após uma subida estafante e, sentindo-me revigorado e descansado, sentei-me, mergulhando em profunda contemplação do encanto do panorama distante. Estava tão perdido em meus pensamentos que, a princípio, não relacionei comigo estas palavras, quando alcançaram meus ouvidos: “O senhor é médico?” Mas a pergunta fora endereçada a mim, e pela moça de expressão meio amuada, de talvez dezoito anos de idade, que me servira a refeição e à qual a proprietária se dirigira pelo nome de “Katharina”. A julgar por seus trajes e seu porte, não podia ser uma empregada, mas era sem dúvida filha ou parenta da hospedeira.

Voltando a mim, respondi:

-Sim, sou médico, mas como você soube disso?

-O senhor escreveu seu nome no livro de visitantes. E pensei que, se o senhor pudesse dispor de alguns momentos… A verdade, senhor, é que meus nervos estão ruins. Fui ver um médico em L- por causa deles, e ele me receitou alguma coisa, mas ainda não estou boa.

Assim, lá estava eu novamente às voltas com as neuroses - pois nada mais poderia haver de errado com aquela moça de constituição forte e sólida e de aparência tristonha. Fiquei interessado ao constatar que as neuroses podiam florescer assim, a uma altitude superior a 2.000 metros; portanto, fiz-lhe outras perguntas. Relato a conversa que se seguiu entre nós tal como ficou gravada em minha memória, e não alterei o dialeto da paciente.

-Bem, e de que é que você sofre?

-Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada.

Isso não pareceu, à primeira vista, um sintoma nervoso. Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrição representando uma crise de angústia: ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator isolado.

-Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”?

-Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não consigo respirar.

-E não nota nada na garganta?

-Minha garganta fica apertada, como se eu fosse sufocar.

-Acontece mais alguma coisa na cabeça?

-Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir.

-E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece?

-Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me agarrar de repente.

Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos sinais de uma “aura” histérica - ou, mais corretamente, era um ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. Mas não seria provável que houvesse também outro conteúdo?

-Quando você tem uma dessas crises, pensa em alguma coisa? E sempre a mesma coisa? Ou vê alguma coisa diante de você?

-Sim. Sempre vejo um rosto medonho que me olha de uma maneira terrível, de modo que fico assustada.

Talvez isso pudesse oferecer um meio rápido de chegarmos ao cerne da questão.

-Você reconhece o rosto? Quero dizer, é um rosto que realmente já viu alguma vez?

-Não.

-Sabe de onde vêm as suas crises?

-Não.

-Quando as teve pela primeira vez?

-Há dois anos, quando ainda morava na outra montanha com minha tia. (Ela dirigia uma cabana de hospedagem e nós nos mudamos para cá há dezoito meses.) Mas elas continuam a acontecer.

Deveria eu fazer uma tentativa de análise? Não podia aventurar-me a transplantar a hipnose para essas altitudes, mas talvez tivesse sucesso com uma simples conversa. Teria que arriscar um bom palpite. Eu havia constatado com bastante freqüência que, nas moças, a angústia era conseqüência do horror de que as mentes virginais são tomadas ao se defrontarem pela primeira vez com o mundo da sexualidade.

Então disse-lhe:

-Se você não sabe, vou dizer-lhe como eu penso que você passou a ter seus ataques. Nessa ocasião, há dois anos, você deve ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que teria preferido muitíssimo não ver.

-Céus, é isso mesmo! - respondeu. - Foi quando surpreendi meu tio com a moça, com Franziska, minha prima.

-Que história é essa sobre uma moça? Não vai me contar?

-Suponho que se pode contar tudo a um médico. Bem, naquela época, o senhor sabe, meu tio, o marido de minha tia que o senhor viu aqui, tinha a estalagem na - kogel. Agora eles estão divorciados, e a culpa é minha, pois foi através de mim que se veio a saber que ele estava andando com Franziska.

-E como você descobriu isso?

-Foi assim. Um dia, há dois anos, uns cavalheiros tinham subido a montanha e pediram alguma coisa para comer. Minha tia não estava em casa, e Franziska, que era quem sempre cozinhava, não foi encontrada em parte alguma. E meu tio também não foi encontrado. Procuramos por toda parte, e finamente Alois, o garotinho que era meu primo, disse: “Ora, Franziska deve estar no quarto de papai!” E ambos rimos, mas não estávamos pensando em nada de mau. Fomos então ao quarto do meu tio, mas o encontramos trancado. Isso me pareceu estranho. Então Alois disse: “Há uma janela no corredor de onde se pode olhar para dentro do quarto.” Dirigimo-nos para o corredor, mas Alois recusou-se a ir até a janela e disse que estava com medo. Então, eu falei: “Seu menino bobo! Eu vou. Não tenho o menor medo.” E não tinha nada de mau na mente. Olhei para dentro. O quarto estava um pouco escuro, mas vi meu tio e Franziska; ele estava deitado em cima dela.

-E então?

-Afastei-me da janela imediatamente, apoiei-me na parede e fiquei sem ar, justamente o que me acontece desde então. Tudo ficou opaco, minhas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido em minha cabeça.

-Você contou isso a sua tia no mesmo dia?

-Oh, não, não disse nada.

-Então por que ficou tão assustada quando os viu juntos? Você entendeu? Sabia o que estava acontecendo?

-Oh, não. Não compreendi nada naquela ocasião. Tinha apenas dezesseis anos. Não sei por que me assustei.

-Srta. Katharina, se pudesse lembrar-se agora do que lhe aconteceu naquela ocasião em que teve sua primeira crise, no que pensou sobre o fato … isso a ajudaria.

-Sim, se pudesse. Mas fiquei tão assustada que me esqueci de tudo.

(Traduzido na terminologia de nossa “Comunicação Preliminar” |ver em [1]|, isso significa: “O próprio afeto criou um estado hipnóide cujos produtos foram então isolados da ligação associativa com a consciência do ego”.)

-Diga-me, senhorita, será que a cabeça que você sempre vê quando fica sem ar é a de Franziska, tal como a viu naquele momento?

-Não, não, ela não era tão horrível. Além disso, é uma cabeça de homem.

-Ou talvez a de seu tio?

-Não vi o rosto dele assim com tanta clareza. Estava escuro demais no quarto. E por que estaria fazendo uma cara tão medonha exatamente naquela hora?

-Você tem toda razão.

(O caminho de repente pareceu bloqueado. Talvez algo pudesse surgir no restante de sua história.)

-E o que aconteceu depois?

-Bem, os dois devem ter ouvido algum ruído, porque saíram logo em seguida. Senti-me muito mal o tempo todo. Ficava sempre pensando naquilo. Então, dois dias depois, era domingo, havia muito o que fazer, e trabalhei o dia inteiro. E na manhã de segunda-feira tornei a me sentir tonta e caí doente, fiquei acamada por três dias seguidos.

Nós |Breuer e eu| muitas vezes havíamos comparado a sintomatologia da histeria com uma escrita pictográfica que se torna inteligível após a descoberta de algumas inscrições bilíngües. Nesse alfabeto, estar doente significa repulsa. Então eu disse:

-Se você ficou doente três dias depois, creio que isso significa que quando olhou para dentro do quarto sentiu repulsa.

-Sim, tenho certeza de que senti repulsa - disse ela, pensativa -, mas repulsa de quê?

-Não terá visto alguém nu, talvez? Como estavam eles?

-Estava muito escuro para ver qualquer coisa; além disso, ambos estavam vestidos. Oh, se pelo menos soubesse do que foi que senti nojo!

Eu também não tinha nenhuma idéia. Mas disse-lhe que continuasse e que me contasse qualquer coisa que lhe ocorresse, na confiante expectativa de que ela viesse a pensar exatamente no que eu precisava para explicar o caso.

Bem, ela passou a descrever como afinal havia contado sua descoberta à tia, que a achou mudada e suspeitou que estivesse escondendo algum segredo. Seguiram-se algumas cenas muito desagradáveis entre o tio e a tia, no decorrer das quais as crianças vieram a ouvir muitas coisas que lhes abriram os olhos de várias maneiras e que teria sido melhor que não tivessem ouvido. Finalmente, a tia resolveu mudar-se com os filhos e a sobrinha e ficar com a atual estalagem, deixando o tio sozinho com Franziska, que entrementes ficara grávida. Depois disso, contudo, para minha surpresa, Katharina abandonou o fio da meada e começou a me contar dois grupos de histórias mais antigas, que retrocediam a dois ou três anos antes do momento traumático. O primeiro grupo relacionava-se com ocasiões em que o mesmo tio fizera investidas sexuais contra ela própria, quando estava com apenas quatorze anos. Ela descreveu como, certa feita, fora com ele numa viagem até o vale, no inverno, e ali passara a noite na estalagem. Ele ficou no bar bebendo e jogando cartas, mas ela sentiu sono e foi cedo para a cama, no quarto que iam partilhar no andar de cima. Não estava ainda inteiramente adormecida quando ele subiu; depois, tornou a adormecer e acordou de repente, “sentindo o corpo dele” na cama. Deu um salto e admoestou-o: “O que é que o senhor está pretendendo, tio? Por que não fica na sua própria cama?” Ele tentou apaziguá-la: “Ora, sua bobinha, fique quieta. Você não sabe como é bom.” - “Não gosto de suas coisas ‘boas’; o senhor nem ao menos deixa a gente dormir em paz.” Ela ficou de pé na porta, pronta a se refugiar no corredor do lado de fora, até que finalmente ele desistiu e foi dormir. Então ela voltou para sua própria cama e dormiu até de manhã. Pela maneira como relatou ter-se defendido, parece que ela não reconheceu nitidamente a investida como sendo de ordem sexual. Quando lhe perguntei se sabia o que ele estava tentando fazer com ela, respondeu: “Não naquela ocasião.” Disse então que isso lhe ficara claro muito depois: resistira porque era desagradável ser perturbada durante o sono e “porque não era bom”.

Fui obrigado a relatar isso minuciosamente por causa de sua grande importância para a compreensão de tudo o que se seguiu. Ela passou a relatar-me ainda outras experiências um pouco posteriores: como mais uma vez teve de defender-se dele numa estalagem, quando ele estava inteiramente bêbado, e histórias semelhantes. Em resposta a uma pergunta para saber se, nessas ocasiões, sentira algo semelhante a sua posterior falta de ar, ela respondeu com firmeza que em todas as ocasiões sentira a pressão nos olhos e no peito, mas nada semelhante à força que havia caracterizado a cena da descoberta.

Logo após ter terminado esse conjunto de lembranças, ela começou a me contar um segundo conjunto, que se relacionava com ocasiões em que notara algo entre o tio e Franziska. Uma vez, toda a família passara a noite, com a roupa que trazia no corpo, num palheiro, e ela fora subitamente despertada por um ruído; pensou ter reparado que o tio, que estivera deitado entre ela e Franziska, se afastava, e que Franziska estava acabando de se deitar. De outra feita, passavam a noite numa estalagem na aldeia de N-; ela e o tio estavam num quarto, e Franziska, num outro contíguo. Ela acordou de repente durante a noite e viu uma figura alta e branca na porta, prestes a girar a maçaneta: - “Deus do céu, é o senhor, tio? O que está fazendo na porta?” - “Fique quieta. Estava só procurando uma coisa.” - “Mas a saída é pela outra porta.” - “É, foi um engano meu” … e assim por diante.

Perguntei-lhe se ficara desconfiada nessa ocasião. “Não, não dei nenhuma importância àquilo; apenas notei e não pensei mais no assunto.”

Quando lhe perguntei se tinha ficado assustada também nessas ocasiões, respondeu que achava que sim, mas não estava tão certa disso.

Ao fim desses dois conjuntos de lembranças, ela parou. Parecia alguém que tivesse passado por uma transformação. O rosto amuado e infeliz ficara animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Entrementes, a compreensão de seu caso tornara-se clara para mim. A última parte do que me contara, numa forma aparentemente sem sentido, proporcionou uma admirável explicação de seu comportamento na cena da descoberta. Naquela ocasião, ela carregava consigo dois conjuntos de experiências de que se recordava mas que não compreendia, e das quais não havia extraído nenhuma inferência. Quando vislumbrou o casal no ato sexual, estabeleceu de imediato uma ligação entre a nova impressão e aqueles dois conjuntos de lembranças, começou a compreendê-los e, ao mesmo tempo, a rechaçá-los. Seguiu-se então um curto período de elaboração, de “incubação”, após o qual os sintomas de conversão se instalaram, com os vômitos funcionando como um substituto para a repulsa moral e física. Isto solucionou o enigma. Ela não sentira repulsa pela visão das duas pessoas, mas pela lembrança que aquela visão despertara. E, levando tudo em conta, esta só poderia ser a lembrança da investida contra ela na noite em que “sentira o corpo do tio”.

Assim, quando ela terminou sua confissão, eu lhe disse:

-Sei agora o que foi que você pensou ao olhar para dentro do quarto: “Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e nas outras vezes.” Foi disso que você sentiu repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.

-É bem possível - respondeu - que tenha sido isso o que me causou repulsa e que tenha sido nisso que pensei.

-Diga-me só mais uma coisa. Você agora é uma moça crescida e sabe toda espécie de coisas…

-Sim, agora eu sou.

-Diga-me apenas uma coisa. Qual foi a parte do corpo dele que você sentiu naquela noite?

Mas ela não me deu mais nenhuma resposta definida. Sorriu de maneira constrangida, como se tivesse sido apanhada, como alguém que é obrigado a admitir que se atingiu uma posição fundamental na qual não resta mais muita coisa a dizer. Pude imaginar qual fora a sensação tátil que ela depois aprendera a interpretar. Sua expressão facial parecia dizer que ela achava que eu tinha razão em minha conjetura. Mas não pude ir mais além e, de qualquer modo, fiquei-lhe grato por me haver tornado muito mais fácil conversar com ela do que com as senhoras pudicas da minha clínica na cidade, que consideram vergonhoso tudo o que é natural.

Assim, o caso ficou esclarecido. Mas esperemos um momento! O que dizer da alucinação periódica da cabeça que surgia durante suas crises e lhe infundia terror? De onde provinha? Perguntei-lhe então sobre isso e, como se seu conhecimento também tivesse sido ampliado por nossa conversa, ela respondeu prontamente:

-Sim, agora eu sei. A cabeça é a do meu tio, agora a reconheço, mas não daquela época. Mais tarde quando todas as brigas tinham irrompido, meu tio deu vazão a uma cólera absurda contra mim. Vivia dizendo que era tudo culpa minha: se eu não tivesse dado com a língua nos dentes, aquilo nunca teria redundado em divórcio. Ele vivia ameaçando fazer alguma coisa contra mim; e quando me avistava a distância, seu rosto se transfigurava de ódio e ele partia para cima de mim com a mão levantada. Eu sempre fugia dele e sempre ficava apavorada com a idéia de que um dia ele me pegasse desprevenida. O rosto que sempre vejo agora é o dele, quando ficava furioso.

Esses dados me fizeram recordar que seu primeiro sintoma histérico - o vômito - havia passado, a crise de angústia permanecera e adquirira um novo conteúdo. Por conseguinte, estávamos lidando com uma histeria que fora ab-reagida num grau considerável. E, de fato, ela havia informado a tia de sua descoberta pouco depois do acontecimento.

-Você contou a sua tia as outras histórias… sobre as investidas que ele fez contra você?

-Contei. Não imediatamente, mas depois, quando já se falava em divórcio. Minha tia disse: “Vamos guardar isso de reserva. Se ele criar caso no tribunal, contaremos isso também.”

Posso compreender muito bem que tenha sido precisamente este último período - quando ocorreram cenas cada vez mais agitadas na casa e quando o estado da própria paciente deixou de interessar a tia, que estava inteiramente absorta na disputa - que tenha sido esse período de acúmulo e retenção que lhe tenha deixado o legado do símbolo mnêmico |do rosto alucinado|.

Espero que essa moça, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum benefício de nossa conversa. Desde então não voltei a vê-la.

 

 

DISCUSSÃO

 

Se alguém afirmasse que o presente relato não é tanto um caso analisado de histeria, e sim um caso solucionado por conjeturas, eu nada teria a dizer contra ele. É certo que a paciente concordou que aquilo que introduzi em sua história provavelmente era verdade, mas ela não estava em condições de reconhecê-lo como algo que houvesse experimentado. Creio que teria sido necessária a hipnose para conseguir isso. Admitindo que minhas conjeturas tenham sido certas, tentarei agora inserir o caso no quadro esquemático de uma histeria “adquirida”, nos moldes sugeridos pelo Caso 3. Parece plausível, portanto, comparar os dois conjuntos de experiências eróticas com momentos “traumáticos”, e a cena da descoberta do casal, com um momento “auxiliar”. | ver em [1] e seg.| A semelhança está no fato de que, nas experiências anteriores, criou-se um elemento da consciência que foi excluído da atividade de pensamento do ego e permaneceu, por assim dizer, armazenado, ao passo que, na última cena, uma nova impressão ocasionou forçosamente uma ligação associativa entre esse grupo separado e o ego. Por outro lado, existem diferenças que não podem ser desprezadas. A causa do isolamento não foi, como no Caso 3, um ato de vontade do ego, mas ignorância por parte deste, que ainda não era capaz de lidar com experiências sexuais. Nesse sentido, o caso de Katharina é típico. Em toda análise de casos de histeria baseados em traumas sexuais, verificamos que as impressões do período pré-sexual que não produziram nenhum efeito na criança atingem um poder traumático, numa data posterior, como lembranças, quando a moça ou a mulher casada adquire uma compreensão da vida sexual. Pode-se dizer que a divisão dos conjuntos psíquicos é um processo normal no desenvolvimento do adolescente, sendo fácil ver que sua recepção posterior pelo ego proporciona oportunidades freqüentes para perturbações psíquicas. Além disso, gostaria, neste ponto, de externar a dúvida de se uma divisão da consciência devida à ignorância é realmente diferente de uma que se deva à rejeição consciente, e se mesmo os adolescentes não possuem conhecimento sexual com muito mais freqüência do que se supõe ou do que eles mesmos acreditam.

Outra distinção no mecanismo psíquico deste caso reside no fato de que a cena da descoberta, que classificamos de “auxiliar” merece igualmente ser denominada de “traumática”. Ela atuou por seu próprio conteúdo, e não simplesmente como alguma coisa que revivesse experiências traumáticas anteriores. Combinou as características de um momento “auxiliar” e de um momento “traumático”. Não parece haver nenhum motivo, contudo, para que essa coincidência nos leve a abandonar uma separação conceitual que em outros casos corresponde também a uma separação no tempo. Outra peculiaridade do caso de Katharina, que, aliás, há muito já nos é familiar, pode ser observada na circunstância de que a conversão, a produção dos fenômenos histéricos, não ocorreu imediatamente após o trauma, e sim depois de um intervalo de incubação. Charcot gostava de classificar esse intervalo de “período de elaboração |élaboration| psíquica”.

 

A angústia de que Katharina sofria em suas crises era histérica, isto é, era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais. Não comentarei aqui o fato que tenho encontrado regularmente num número muito grande de casos - a saber, que a mera suspeita de relações sexuais desperta o afeto de angústia nas pessoas virgens. | ver em [1].|

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Katharine se dirigiu a Freud e o tomou por empréstimo.... Ela relatou sentir falta de ar, que sua garganta fica apertada como se fosse sufocar, umas marteladas na cabeça para fazê-la explodir, que isso a assusta e lhe causa a impressão de que vai morrer.

Nota-se uma crise de angústia e um ataque histérico.

Relatou que diante dessas crises sempre vê também um rosto medonho que a olha de maneira terrível.

Freud apontou que a causa possível dos seus problemas eram ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que preferiu não ter visto.

Ela disse que era isso. Ela disse que viu seu tio e Franziska, ele estava deitado em cima dela no quarto.

Isso a deixou sem ar e com o que lhe acontece desde então. Tudo ficou opaco, suas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido na cabeça.

Ela disse a Freud que na época tinha 16 anos e que não entendeu o que estava acontecendo.

Mas ela sentiu repulsa.

Depois relatou duas investidas de seu tio contra ela, quando estava apenas com 14 anos. Depois contou sobre outras investidas.

Depois o rosto amuado e infeliz ficou animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Ela compreendeu seu caso.

Ela entendeu o que pensou ao olhar para dentro do quarto: ¨Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e noutras vezes¨. Foi disso que ela sentia repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.

A cena da descoberta, que classificamos de ¨auxiliar¨ merece igualmente ser denominada de ¨traumática¨.

A angústia que ela sofria em suas crises de histeria era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais.

    O caminho obtuso. Este caminho cheio de pedras e obstáculos vem logo após o

herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. A paciente encontra em seu caminho o casal deitado no quarto, um obstáculo a ser ultrapassado ou vencido por ela em sua jornada. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, a paciente é ajudada por Freud. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, como o casal deitado no quarto, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, é através deste diálogo que a paciente encontra a solução de seus conflitos e traumas.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente luta precisamente contra seu passado que é reproduzido na forma de angústia.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. Muito provavelmente em seus sonhos ela também reproduzira este estado de angústia.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. Sua conscientização e elaboração será seu caminho para sua vitória sobre sua enfermidade.

 

MATTANÓ

(14/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura Katharine se dirigiu a Freud e o tomou por empréstimo.... Ela relatou sentir falta de ar, que sua garganta fica apertada como se fosse sufocar, umas marteladas na cabeça para fazê-la explodir, que isso a assusta e lhe causa a impressão de que vai morrer.

Nota-se uma crise de angústia e um ataque histérico.

Relatou que diante dessas crises sempre vê também um rosto medonho que a olha de maneira terrível.

Freud apontou que a causa possível dos seus problemas eram ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que preferiu não ter visto.

Ela disse que era isso. Ela disse que viu seu tio e Franziska, ele estava deitado em cima dela no quarto.

Isso a deixou sem ar e com o que lhe acontece desde então. Tudo ficou opaco, suas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido na cabeça.

Ela disse a Freud que na época tinha 16 anos e que não entendeu o que estava acontecendo.

Mas ela sentiu repulsa.

Depois relatou duas investidas de seu tio contra ela, quando estava apenas com 14 anos. Depois contou sobre outras investidas.

Depois o rosto amuado e infeliz ficou animado, os olhos brilhavam, sentia-se leve e exultante. Ela compreendeu seu caso.

Ela entendeu o que pensou ao olhar para dentro do quarto: ¨Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e noutras vezes¨. Foi disso que ela sentia repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.

A cena da descoberta, que classificamos de ¨auxiliar¨ merece igualmente ser denominada de ¨traumática¨.

A angústia que ela sofria em suas crises de histeria era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais.

    O caminho obtuso. Este caminho cheio de pedras e obstáculos vem logo após o herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. A paciente encontra em seu caminho o casal deitado no quarto, um obstáculo a ser ultrapassado ou vencido por ela em sua jornada. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, a paciente é ajudada por Freud. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, como o casal deitado no quarto, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, é através deste diálogo que a paciente encontra a solução de seus conflitos e traumas.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente luta precisamente contra seu passado que é reproduzido na forma de angústia.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. Muito provavelmente em seus sonhos ela também reproduzira este estado de angústia.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. Sua conscientização e elaboração será seu caminho para sua vitória sobre sua enfermidade.

Da mesma forma Katharine se dirigiu a Freud e o tomou por empréstimo.... Ela relatou sentir falta de ar, que sua garganta fica apertada como se fosse sufocar, umas marteladas na cabeça para fazê-la explodir, que isso a assusta e lhe causa a impressão de que vai morrer.

Nota-se uma crise de angústia e um ataque histérico.

Relatou que diante dessas crises sempre vê também um rosto medonho que a olha de maneira terrível.

Freud apontou que a causa possível dos seus problemas eram ter visto ou ouvido algo que muito a constrangeu e que preferiu não ter visto.

Ela disse que era isso. Ela disse que viu seu tio e Franziska, ele estava deitado em cima dela no quarto.

Isso a deixou sem ar e com o que lhe acontece desde então. Tudo ficou opaco, suas pálpebras se fecharam à força e havia marteladas e um zumbido na cabeça.

Depois relatou duas investidas de seu tio contra ela, quando estava apenas com 14 anos. Depois contou sobre outras investidas.

Ela entendeu o que pensou ao olhar para dentro do quarto: ¨Agora ele está fazendo com ela o que queria fazer comigo naquela noite e noutras vezes¨. Foi disso que ela sentia repulsa, porque lembrou-se da sensação de quando despertou durante a noite e sentiu o corpo dele.

A cena da descoberta, que classificamos de ¨auxiliar¨ merece igualmente ser denominada de ¨traumática¨.

A angústia que ela sofria em suas crises de histeria era uma reprodução da angústia que surgira em conexão com cada um dos traumas sexuais.

Assim a paciente se depara com o caminho obtuso. Este caminho é cheio de pedras e de obstáculos e vem logo após o herói cruzar o limiar e com este evento ele deve sobreviver a uma sucessão de provas. A paciente encontra em seu caminho o casal deitado no quarto, um obstáculo a ser ultrapassado ou vencido por ela em sua jornada. O herói é auxiliado encobertamente por conselhos, amuletos e agentes secretos de auxílio sobrenatural que já havia encontrado antes, a paciente é ajudada por Freud, Freud é o seu amuleto ou auxílio, auxílio sobrenatural, pois a Psicanálise neste período da História era algo ¨sobrenatural¨, visto que lidava com o inconsciente e suas forças. Existe um poder benigno que o sustenta em sua passagem sobre-humana, este poder benigno é a libido, a comunhão e o exercício da força.

Em seu caminho o herói encontra obstáculos que nem sempre trazem felicidade, como o casal deitado no quarto, percorre ele densas florestas, maciças cadeias montanhosas onde se depara com ossos de outros que sucumbiram à aventura e acaba encontrando uma abertura na terra, as profundezas do mundo inferior e suas notáveis manifestações se abrem diante de seus olhos e depois de numerosos perigos superados chega ao Senhor do Mundo Subterrâneo, e esse se lança sobre ele com gritos horríveis, mas a habilidade do herói pode fazer o monstro recuar com promessas de luxuosas oferendas, esse diálogo é o ápice da cerimônia e o herói entre em êxtase, é através deste diálogo que a paciente encontra a solução de seus conflitos e traumas. Pois através do diálogo a paciente aprende a nomear o seu repertório comportamental, de tal modo que vai adquirindo consciência, cultura, conhecimento e realidade.

O herói é um líder de um jogo infantil, é um iluminado condutor da ansiedade comum. Combate demônios, problemas, adversidades, dificuldades e transtornos para que outros prossigam adiante na sua luta contra a realidade. A paciente luta precisamente contra seu passado que é reproduzido na forma de angústia.

O segundo estágio do Caminho é o estágio da purificação do eu onde os sentidos são purificados e tornados humildes e as forças concentram-se em coisas transcendentais, trata-se do processo de dissolução, transcendência ou transmutação de imagens infantis do nosso passado pessoal. Trata-se, pois do processo de conscientização através da realidade, da cultura e do conhecimento que transformam as imagens infantis, domésticas e familiares em atuais, do aqui-e-agora.

Os perigos psicológicos pelos quais passaram gerações anteriores devemos enfrentar sozinhos ou com uma orientação experimental, improvisada e poucas vezes muito efetiva, são eles revivificados em nossos sonhos. Muito provavelmente em seus sonhos ela também reproduzira este estado de angústia. Os sonhos são uma janela para o inconsciente e este é uma janela para o recalcado, para o passado representado na vida infantil, doméstica e familiar, para a angústia.

A terra das maravilhas virá com relances momentâneos, com uma multiplicidade de vitórias preliminares ou êxtase. Sua conscientização e elaboração será seu caminho para sua vitória sobre sua enfermidade. A consciência só virá com a integração ou reunião da consciência, da cultura, do conhecimento e da realidade como forma de elaboração da sua enfermidade e de caminho para sua vitória ou de conquista da terra das maravilhas. Assim também ocorre no mundo e na realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que substitui a realidade operante pela virtual, que é do Alcorão, e que nos ensina significados e sentidos para a nossa educação, vida espiritual e vida social, de tal forma que agora a sua mensagem profética de Amor e de Paz prevaleçam e produzam desenvolvimento, riquezas, igualdade, justiça, soberania, paz, inclusão e inclusão social, organização, estabilidade, cultura, espiritualidade, amor a Deus, a Igreja e aos antepassados, vitórias políticas, progresso, liberdade, economia, abastecimento, educação, esporte e trabalho, participação e não mais exclusão ou destruição do seu patrimônio humano, cultural, histórico, religioso, político e social, revelando para o mundo que qualquer indivíduo que pratique assassinatos, genocídios, chacinas, holocaustos, crucificações, sequestros, roubos, latrocídios, falsidades ideológicas, estelionatos, extorsões, vinganças, estupros, lavagem cerebral, despersonalização, negue o direito a vida e a saúde para os enfermos, negue a proteção para as crianças, as mulheres e os idosos, pratique guerras, invasões a territórios ou domicílios e até a mentes e cérebros ou corpos, ou criança que brinque com fogos de artifício pode ser inconscientemente um terrorista, quem tem arma e quem tem arma em casa pode ter um imaginário e um simbólico terroristas, mesmo que não prevaleçam na mente desses indivíduos, pois acabam assistindo filmes e programas de televisão ou escutando conversas e canções com esta temática e acabam satisfazendo estas necessidades inconscientes, o homem primitivo era terrorista pois atacava outros grupos de homens para roubar e matar, por ódio e intolerância, na minha concepção terrorista é aquele que invade, mata e rouba outro ou outros indivíduos injustificávelmente e depois manipula a cena do crime por ter poder, dinheiro, fama, força, beleza, fertilidade ou autoridade direta sobre o crime e assim tenta se esquivar ou fugir da sua responsabilidade ou culpa pelo crime ou pelo terror.

 

MATTANÓ

(12/07/2026)

 

 

 

 

 

 

 

 

CASO 5 - SRTA. ELISABETH VON R. (FREUD)

 

No outono de 1892, um médico meu conhecido pediu-me que examinasse uma jovem que vinha sofrendo há mais de dois anos de dores nas pernas e que tinha dificuldades em andar. Ao fazer esse pedido, acrescentou que julgava tratar-se de um caso de histeria, embora não houvesse nenhum vestígio das indicações habituais dessa neurose. Disse-me conhecer ligeiramente a família, e que, nos últimos anos, ela tivera muitos infortúnios e pouca felicidade. Primeiro, o pai da paciente morrera, em seguida a mãe tivera de submeter-se a uma séria operação da vista e logo depois uma irmã casada sucumbira a uma afecção cardíaca de longa duração após o puerpério. De todas essas dificuldades e todos os cuidados dispensados aos enfermos, a maior parcela recaíra sobre nossa paciente.

Minha primeira entrevista com essa jovem de vinte e quatro anos de idade não me ajudou a realizar grandes progressos na compreensão do caso. Ela parecia inteligente e mentalmente normal, e suportava seus problemas, que interferiam em sua vida social e seus prazeres, com ar alegre - a belle indifférence dos histéricos, como não pude deixar de pensar. Andava com a parte superior do corpo inclinada para a frente, mas sem fazer uso de qualquer apoio. Sua marcha não era de nenhum tipo patológico reconhecido e, além disso, de modo algum era notavelmente mau. Tudo o que se observava era que ela se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficar de pé, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminuía as dores mas não as eliminava inteiramente. A dor era de caráter indefinido; depreendi que era algo da natureza de uma fadiga dolorosa. Uma área bastante grande e mal definida da superfície anterior da coxa direita era indicada como o foco das dores, a partir da qual elas se irradiavam com mais freqüência e onde atingiam sua maior intensidade. Nessa região, a pele e os músculos eram também particularmente sensíveis à pressão e aos beliscões (embora uma picada de agulha provocasse, quando muito, certa dose de indiferença). A hiperalgia da pele e dos músculos não se restringia a essa região, mas podia ser observada mais ou menos em toda a extensão das duas pernas. Os músculos eram talvez ainda mais sensíveis à dor do que a pele;mas não havia dúvida de que as coxas eram as partes mais sensíveis a essas duas espécies de dor. A força motora das pernas não podia ser qualificada de pequena e os reflexos eram de intensidade média. Não havia outros sintomas, de modo que não existia fundamento para se suspeitar da presença de qualquer afecção orgânica grave. O distúrbio se desenvolvera gradativamente durante os dois anos anteriores e variava bastante em intensidade.

Não achei fácil chegar a um diagnóstico, mas resolvi por duas razões concordar com o que fora proposto por meu colega, isto é, que se tratava de um caso de histeria. Em primeiro lugar, fiquei impressionado com a indefinição de todas as descrições do caráter das dores fornecidas pela paciente, que era, não obstante, uma pessoa muito inteligente. Um paciente que sofra de dores orgânicas, a menos que além disso seja neurótico, as descreverá de forma definida e calma. Dirá, por exemplo, que são dores lancinantes, que ocorrem a certos intervalos, que se estendem deste lugar para aquele e que lhe parecem ser provocadas por uma coisa ou outra. Por outro lado, quando um neurastênico descreve suas dores, dá a impressão de estar empenhado numa difícil tarefa intelectual que ultrapassa em muito suas forças. Suas feições se contraem e se deformam como se ele estivesse sob a influência de um afeto angustiante. A voz torna-se mais aguda e ele luta por encontrar um meio de expressão. Rejeita qualquer descrição de suas dores proposta pelo médico, mesmo que ela depois se revele inquestionavelmente adequada. Percebe-se que ele é da opinião de que a linguagem é pobre demais para que ele encontre palavras para descrever suas sensações e de que essas sensações são algo único e até então desconhecido do qual seria inteiramente impossível dar uma descrição completa. Por esse motivo, ele jamais se cansa de acrescentar novos detalhes sem cessar e, quando é obrigado a parar, com certeza fica com a convicção de que não conseguiu se fazer entender pelo médico. Tudo isso porque as dores atraíram toda a atenção dele para elas. A Srta. von R. comportava-se de forma inteiramente oposta, e somos levados a concluir que, já que ela ainda assim atribuía importância suficiente a seus sintomas, sua atenção devia estar em outra coisa, da qual as dores eram apenas um fenômeno acessório - provavelmente, portanto, em pensamentos e sentimentos que estavam vinculados a elas.

Mas existe um segundo fator que é ainda mais decisivamente favorável a essa opinião sobre as dores. Quando estimulamos uma região sensível à dor em alguém com uma doença orgânica ou num neurastênico, o rosto do paciente assume uma expressão de mal-estar ou de dor física. Além disso, ele se esquiva, retrai-se e resiste ao exame. No caso da Srta. von R., contudo, quando se pressionava ou beliscava a pele e os músculos hiperalgésicos de suas pernas, seu rosto assumia uma expressão peculiar, que era antes de prazer do que de dor. Ela gritava mais e eu não podia deixar de pensar que era como se ela estivesse tendo uma voluptuosa sensação de cócega - o rosto enrubescia, ela jogava a cabeça para trás e fechava os olhos, e seu corpo se dobrava para trás. Nenhum desses movimentos era muito exagerado, mas era distintamente observável, e isso só podia ser conciliado com o ponto de vista de que seu distúrbio era histérico e de que o estímulo tocara uma zona histerogênica.

Sua expressão facial não se ajustava à dor evidentemente provocada pela beliscadura dos músculos e da pele; provavelmente se harmonizava mais com o tema dos pensamentos que jaziam ocultos por trás da dor e que eram despertados nela pela estimulação das partes do corpo associadas com esses pensamentos. Observei repetidamente expressões de significado semelhante em casos incontestáveis de histeria, quando se aplicava um estímulo às zonas hiperalgésicas. Os outros gestos da paciente eram, é claro, indícios muito leves de um ataque histérico.

Para começar, não havia explicação para a localização inusitada de sua zona histerogênica. O fato de a hiperalgia afetar principalmente os músculos também dava o que pensar. O distúrbio mais habitualmente responsável pela sensibilidade difusa e local à pressão nos músculos é uma infiltração reumática desses músculos - o reumatismo muscular crônico comum. Já mencionei | ver em. [1]| a tendência desse distúrbio a simular afecções nervosas. Essa possibilidade não entrava em contradição com a consistência dos músculos hiperalgésicos da paciente. Havia numerosas fibras endurecidas na substância muscular e estas pareciam ser especialmente sensíveis. Assim, era provável que uma alteração muscular orgânica da espécie indicada estivesse presente e que a neurose se houvesse ligado a ela, fazendo-a parecer exageradamente importante.

O tratamento prosseguiu na suposição de que o distúrbio fosse dessa espécie mista. Recomendamos a continuação da massagem e faradização sistemática dos músculos sensíveis, independentemente da dor resultante, e reservei para mim o tratamento das pernas com correntes elétricas de alta tensão, a fim de poder manter-me em contato com a paciente. Sua pergunta quanto a se deveria forçar-se a andar foi respondida com um incisivo “sim”.

Dessa maneira, promovemos uma ligeira melhora. Em especial, ela parecia gostar muito dos choques dolorosos produzidos pelo aparelho de alta-tensão, e quanto mais fortes estes eram, mais pareciam afastar suas próprias dores para um segundo plano. Entrementes, meu colega preparava o terreno para o tratamento psíquico, e quando, após quatro semanas de meu pretenso tratamento, propus a ela o outro método e lhe dei algumas explicações sobre seu processamento e modo de ação, obtive rápida compreensão e pouca resistência.

A tarefa em que então me empenhei veio a ser, entretanto, uma das mais árduas que já empreendi, e a dificuldade de fazer um relato dela é comparável, além disso, às dificuldades que tive então de superar. Também por muito tempo fui incapaz de apreender a conexão entre os fatos de sua doença e seus sintomas reais, que, não obstante, deveriam ter sido causados e determinados por aquele conjunto de experiências.

Quando se inicia um tratamento catártico dessa natureza, a primeira pergunta que se faz é se a própria paciente tem consciência da origem e da causa precipitante de sua doença. Em caso afirmativo, não se faz necessária nenhuma técnica especial para permitir-lhe reproduzir a história de sua doença. O interesse que o médico demonstra por ela, a compreensão que lhe permite sentir e as esperanças de recuperação que lhe dá, tudo isso faz com que a paciente se decida a revelar seu segredo. Desde o início me pareceu provável que a Srta. Elisabeth estivesse consciente da causa de sua doença, que o que guardava na consciência fosse apenas um segredo, e não um corpo estranho. Contemplando-a, não se podia deixar de pensar nas palavras do poeta:

 

Das Maeskchen da weissagt verborgnen Sinn

 

A princípio, portanto, pude dispensar a hipnose, porém com a ressalva de que poderia fazer uso dela posteriormente, se no curso de sua confissão surgisse algum material cuja elucidação não estivesse ao alcance de sua memória. Ocorreu assim que nesta, que foi a primeira análise integral de uma histeria empreendida por mim, cheguei a um processo que mais tarde transformei num método regular e empreguei deliberadamente. Esse processo consistia em remover o material psíquico patogênico camada por camada e gostávamos de compará-lo à técnica de escavar uma cidade soterrada. Eu começava por fazer com que a paciente me contasse o que sabia e anotava cuidadosamente os pontos em que alguma seqüência de pensamentos permanecia obscura ou em que algum elo da cadeia causal parecia estar faltando. E depois penetrava em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos, realizando uma investigação sob hipnose ou utilizando alguma técnica semelhante. Todo o trabalho baseava-se, naturalmente, na expectativa de que seria possível identificar um conjunto perfeitamente adequado de determinantes para os fatos em questão. Examinarei agora os métodos utilizados para a investigação profunda.

A história que a Srta. Elisabeth me relatou de sua doença foi cansativa, composta de muitas experiências penosas diferentes. Enquanto fazia o relato, ela não ficava sob hipnose, mas eu a fazia deitar-se e conservar os olhos fechados, embora não me opusesse a que os abrisse ocasionalmente, mudasse de posição, se sentasse e assim por diante. Quando ela ficava mais profundamente emocionada do que de costume com uma parte da história, parecia cair num estado mais ou menos semelhante à hipnose. Ficava então imóvel e mantinha os olhos bem fechados.

Começarei por repetir o que surgiu como a camada mais superficial de suas lembranças. Sendo a mais jovem de três filhas, ela era ternamente apegada aos pais e passara a juventude na propriedade deles, na Hungria. A saúde da mãe era freqüentemente perturbada por uma afecção dos olhos, bem como por estados nervosos. Foi assim que ela se viu atraída para um contato muito íntimo com o pai, um homem alegre e experiente conhecedor da vida que costumava dizer que aquela filha ocupava o lugar de um filho e de um amigo com quem ele podia trocar idéias. Embora a mente da moça encontrasse estímulo intelectual nessa relação com o pai, ele não deixava de observar que a constituição mental dela estava, por causa disso, afastando-se do ideal que as pessoas gostam de ver concretizado numa moça. Em tom brincalhão, ele a chamava de “insolente” e “convencida” e a aconselhava a não ser categórica demais em seus julgamentos, advertindo-a contra o hábito de dizer a verdade às pessoas sem medir as conseqüências e muitas vezes dizendo que ela teria dificuldades em achar um marido. Ela se sentia, de fato, muito descontente por ser mulher. Tinha muitos planos ambiciosos. Queria estudar ou receber educação musical e ficava indignada com a idéia de ter de sacrificar suas inclinações e sua liberdade de opinião pelo casamento. Assim, nutria-se de seu orgulho pelo pai e do prestígio e posição social da família, e guardava zelosamente tudo o que se relacionava com essas vantagens. O altruísmo, contudo, com que colocava em primeiro lugar a mãe e as irmãs mais velhas, quando surgia a ocasião, reconciliava inteiramente seus pais com o lado mais áspero do seu caráter.

Em vista da idade das moças, ficou resolvido que a família se mudaria para a capital, onde Elisabeth, durante um curto espaço de tempo, pôde desfrutar de uma vida mais completa e mais alegre no círculo familiar. Mas sobreveio então o golpe que destruiu a felicidade da família. O pai ocultara, ou talvez tivesse ele próprio subestimado, uma afecção crônica do coração, e um dia foi levado inconsciente para casa, com um edema pulmonar. Foi assistido durante dezoito meses, e Elisabeth agiu no sentido de desempenhar o papel principal junto a seu leito de doente. Dormia no quarto dele, estava pronta a despertar quando ele a chamava à noite, cuidava dele durante o dia e obrigava-se a parecer alegre, enquanto ele se conformava com seu estado irremediável, mostrando uma resignação sem queixas. O início da doença dela deve ter-se relacionado com esse período de desvelos, pois ela se recordava de que, durante os últimos seis meses, ficara acamada por um dia e meio por causa das dores que descrevemos. Ela asseverou, porém, que essas dores passaram rapidamente e não lhe haviam causado nenhuma inquietação nem atraído sua atenção. E, de fato, só dois anos após o falecimento do pai foi que ela se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.

A lacuna causada na vida dessa família de quatro mulheres pela morte do pai, seu isolamento social, a interrupção de tantas relações que prometiam trazer-lhe interesse e diversão, a saúde precária da mãe, que então se tornou mais acentuada - tudo isso lançou uma sombra sobre o estado de espírito da paciente; mas, ao mesmo tempo, despertou-lhe um vivo desejo de que sua família logo pudesse encontrar algo para substituir a felicidade perdida, levando-a a concentrar toda a sua afeição e cuidado na mãe que ainda vivia.

Quando o ano de luto havia passado, sua irmã mais velha casou-se com um homem bem-dotado e dinâmico. Ele ocupava posição de responsabilidade e sua capacidade intelectual parecia prometer-lhe um grande futuro. Mas para com os conhecidos mais íntimos ele exibia uma sensibilidade mórbida e uma insistência egoísta em suas excentricidades. E foi o primeiro do círculo da família a ousar demonstrar falta de consideração pela velha senhora. Isso foi demais para Elisabeth. Ela se sentiu convocada a empreender uma luta contra o cunhado sempre que ele lhe dava oportunidade para isso, enquanto as outras mulheres não levavam a sério as explosões temperamentais dele. Foi um desapontamento penoso para ela ver assim interrompida a reconstrução da antiga felicidade da família, e ela não conseguia perdoar a irmã casada pela complacência feminina com que esta sempre evitava tomar partido. Elisabeth reteve na memória inúmeras cenas ligadas a isso, envolvendo queixas parcialmente não verbalizadas contra seu primeiro cunhado. Mas sua principal recriminação a ele continuava a prender-se ao fato de, em nome de uma possível promoção, ele ter-se mudado com sua pequena família para uma remota cidade da Áustria e assim ter ajudado a aumentar o isolamento da mãe. Nessa ocasião, Elisabeth sentiu de maneira intensa seu desamparo, sua incapacidade de proporcionar à mãe um substituto pela felicidade que perdera e a impossibilidade de levar a cabo a intenção que tivera quando da morte do pai.

O casamento da segunda irmã pareceu prometer um futuro mais brilhante para a família, pois o segundo cunhado, embora menos bem-dotado intelectualmente, era do agrado daquelas mulheres cultas, educado que fora, como acontecera com elas, para ter consideração pelos outros. Seu comportamento reconciliou Elisabeth com a instituição do matrimônio e com a idéia dos sacrifícios que este implicava. Além disso, o segundo casal permaneceu morando perto da mãe e o filho que tiveram tornou-se o predileto de Elisabeth. Infelizmente, outro acontecimento veio lançar uma sombra sobre o ano em que a criança nasceu. O tratamento do problema na vista da mãe exigiu que ela permanecesse num quarto escuro por várias semanas, durante as quais Elisabeth ficou com ela. Uma operação foi considerada inevitável. A agitação diante dessa perspectiva coincidiu com os preparativos para a mudança do primeiro cunhado. Finalmente, a mãe saiu-se bem da operação, que foi realizada por mão de mestre. As três famílias se reuniram numa estação de veraneio e esperou-se que Elisabeth, que ficara exausta com as ansiedades dos últimos meses, se recuperasse inteiramente durante o que seria o primeiro período de libertação dos pesares e temores a ser desfrutado pela família desde a morte do pai.

Foi precisamente durante essas férias, contudo, que as dores e a fraqueza locomotora de Elisabeth começaram. Ela estivera mais ou menos cônscia das dores por um curto período, mas elas sobrevieram com violência, pela primeira vez, depois de ela ter tomado um banho quente na pequena estação de águas. Alguns dias antes ela saíra para dar um longo passeio - na verdade, uma caminhada que durou meio dia -, o qual eles relacionaram com o aparecimento das dores, de modo que foi fácil adotar o ponto de vista de que Elisabeth primeiro ficara “cansada demais” e em seguida “se resfriara”.

A partir dessa época Elisabeth foi a inválida da família. Foi aconselhada pelo médico a dedicar o resto do mesmo verão a um período de tratamento hidropático em Gastein |nos Alpes austríacos|, e viajou para lá com a mãe.  Mas foi então que surgiu uma nova preocupação. A segunda irmã ficara grávida novamente e as notícias de seu estado eram extremamente desfavoráveis, de modo que a custo pôde decidir-se a ir para Gastein. Ela e a mãe mal tinham passado quinze dias lá quando foram chamadas de volta pelas notícias de que a irmã se achava acamada e em estado gravíssimo.

Seguiu-se uma viagem angustiante, durante a qual Elisabeth foi atormentada não só por suas dores como também por expectativas sombrias. Quando as duas chegaram à estação, houve sinais que as levaram a temer o pior; e ao entrarem no quarto da doente tiveram a certeza de que haviam chegado tarde demais para se despedirem de uma pessoa viva.

Elisabeth sofreu não só com a perda dessa irmã, a quem amava ternamente, mas quase na mesma medida com os pensamentos provocados pela morte dela e pelas mudanças que esta acarretou. A irmã sucumbira a uma doença cardíaca que fora agravada pela gravidez. Surgiu então a idéia de que a doença de coração fora herdada do lado paterno da família. Recordou-se que a irmã morta havia sofrido, no início da adolescência, de coréia, acompanhada de um distúrbio cardíaco brando. A família culpou a si própria e aos médicos por terem permitido o casamento, e foi impossível poupar o infeliz do viúvo da acusação de ter posto em perigo a saúde da esposa, ao provocar duas gestações em sucessão imediata. A partir dessa época, os pensamentos de Elisabeth se ocuparam ininterruptamente com a sombria reflexão de que quando, para variar, as raras condições para um casamento feliz tinham sido preenchidas, essa felicidade chegara a um fim terrível. Além disso, ela viu mais uma vez o colapso de tudo o que desejara para a mãe. O cunhado viúvo ficou inconsolável e afastou-se da família da esposa. Ao que parece, a família dele, que se afastara durante seu breve e feliz casamento, achou que aquele momento era favorável para atraí-lo de volta para seu próprio círculo. Não houve meio de preservar a união que existira anteriormente. Não era viável ele morar com a mãe dela, uma vez que Elisabeth era solteira. Como ele também se recusasse a deixar a criança, que era o único legado da esposa morta, sob a custódia das duas mulheres, deu-lhes a oportunidade, pela primeira vez, de acusá-lo de crueldade. Por fim - e este não foi o fato menos aflitivo - chegou aos ouvidos de Elisabeth o boato de que surgira uma querela entre seus dois cunhados. Ela só pôde tentar adivinhar-lhe a causa; mas, ao que parecia, o viúvo formulara exigências de ordem financeira que o outro declarou injustificáveis e que, na verdade, em vista do pesar da mãe na ocasião, ele pôde caracterizar como chantagem da pior espécie.

Essa era, portanto, a infeliz história dessa moça orgulhosa com sua ânsia de amor. Incompatibilizada com seu destino, amargurada pelo fracasso de todos os seus pequenos planos para o restabelecimento das antigas glórias da família, com todos aqueles a quem amava mortos, distantes ou estremecidos, e despreparada para refugiar-se no amor de algum homem desconhecido, ela viveu dezoito meses em reclusão quase completa, não tendo nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com suas próprias dores.

Se pusermos de lado os grandes infortúnios e penetrarmos nos sentimentos de uma moça, não poderemos deixar de sentir profunda solidariedade humana pela Srta. Elisabeth. Mas que dizer do interesse, puramente médico, dessa história de sofrimentos, de suas relações com a dolorosa fraqueza locomotora da paciente e das possibilidades de explicação e cura proporcionadas por nosso conhecimento desses traumas psíquicos?

No que concerne ao médico, a confissão da paciente foi, à primeira vista, uma grande decepção. Era um relato de choques emocionais corriqueiros e nada havia que explicasse por que ela adoecera precisamente de histeria ou por que sua histeria assumira a forma específica de uma abasia dolorosa. O relato não esclarecia nem as causas, nem a determinação específica de sua histeria. Talvez pudéssemos presumir que a paciente havia estabelecido uma associação entre suas impressões mentais dolorosas e as dores corporais que por acaso estava experimentando na mesma época, e que agora, em sua vida de lembranças, estivesse usando suas sensações físicas como símbolo das mentais. Mas restava explicar quais teriam sido seus motivos para fazer tal substituição e em que momento ela ocorrera. Essas perguntas, aliás, não eram do tipo que os médicos tinham por hábito formular. Em geral, nós nos contentávamos com a afirmação de que um paciente era constitucionalmente histérico e sujeito a desenvolver sintomas histéricos sob a pressão de excitações intensas de qualquer natureza.

Aquela confissão parecia oferecer ainda menos ajuda para a cura de sua doença do que para sua explicação. Não era fácil verificar que tipo de influência benéfica a Srta. Elisabeth poderia obter da recapitulação da história de seus sofrimentos de anos recentes - com os quais todos os membros da sua família estavam acostumados - para um estranho que a ouvia com solidariedade apenas moderada. Nem havia qualquer sinal de que a confissão produzisse um efeito curativo dessa espécie. Durante esse primeiro período de tratamento, ela nunca deixou de repetir que ainda se sentia doente e que suas dores continuavam intensas como sempre; e, quando dizia isso olhando-me com uma expressão maliciosa de satisfação por eu estar confuso, eu não podia deixar de me lembrar da opinião do velho Sr. von R. sobre sua filha predileta - que ela era muitas vezes “insolente” e “convencida”. Mas eu era obrigado a admitir que ela estava certa.

 

Se eu tivesse interrompido o tratamento psíquico da paciente nesse estágio, o caso da Srta. Elisabeth von R. não teria lançado nenhuma luz sobre a teoria da histeria. Mas continuei minha análise porque esperava, convicto, que os níveis mais profundos de sua consciência proporcionariam uma compreensão tanto das causas como dos determinantes específicos dos sintomas histéricos. Resolvi, portanto, formular uma pergunta direta à paciente, num estado ampliado de consciência, e indagar-lhe qual teria sido a impressão psíquica à qual se vinculara a primeira emergência de dores nas pernas.

Com essa finalidade em vista, propus-me pôr a paciente em hipnose profunda. Infelizmente, porém, não pude deixar de observar que meu procedimento não a colocara em nenhum outro estado a não ser naquele em que ela fizera seu relato. Já me dei por satisfeito por ela não ter protestado triunfalmente nessa ocasião: “Não estou dormindo, sabe; não posso ser hipnotizada.” Nesse ponto, ocorreu-me a idéia de recorrer ao expediente de aplicar-lhe a pressão na cabeça, cuja origem descrevi na íntegra no caso clínico de Miss Lucy | ver em. [1] e segs.|. Realizei isso instruindo a paciente para que me informasse com fidelidade tudo o que aparecesse em sua imaginação ou de que se lembrasse no momento da pressão. Ela ficou calada por muito tempo e então, por insistência minha, admitiu ter pensado numa noite em que um jovem a acompanhara até em casa depois de uma festa, da conversa que houvera entre eles e dos sentimentos com que voltara para casa a fim de ficar à cabeceira do pai enfermo.

Essa primeira menção ao rapaz abriu uma nova corrente de representações cujos conteúdos extraí então gradativamente. Tratava-se aqui de um segredo, pois ela não havia contado a ninguém, exceto a um amigo comum, suas relações com esse rapaz e as esperanças ligadas a elas. Ele era filho de uma família com a qual há muito eles mantinham relações amistosas e que morava perto da antiga propriedade de nossa paciente. O jovem, que era órfão, fora devotadamente afeiçoado ao pai dela e seguira os conselhos deste no tocante a sua carreira. Estendera sua admiração pelo pai às damas da família. Numerosas lembranças de leituras feitas em comum, de trocas de idéias e de observações feitas por ele que eram repetidas a ela por outras pessoas apoiaram nela o gradual desenvolvimento da convicção de que ele a amava e a compreendia e de que o casamento com ele não implicaria sacrifícios por parte dela, sacrifícios esses que ela tanto temia no casamento de maneira geral. Infelizmente, ele era pouco mais velho do que ela e ainda estava longe de poder sustentar-se. Mas ela estava firmemente determinada a esperar por ele.

 

Depois que o pai de Elisabeth adoeceu gravemente e ela ficou muito ocupada em cuidar dele, seus encontros com o namorado se tornaram cada vez mais raros. A noite da qual ela se recordara pela primeira vez representou o que fora, na verdade, o clímax dos sentimentos dela, mas mesmo nessa ocasião não tinha havido nenhum éclaircissement entre eles. Naquela ocasião ela se deixara convencer, por insistência da família e do próprio pai, a ir a uma festa em que era provável que o encontrasse. Quisera voltar cedo para casa, mas fora pressionada a ficar e cedera quando ele prometeu acompanhá-la até a residência dela. Elisabeth nunca experimentou sentimentos tão afetuosos para com ele como enquanto ele a acompanhou nessa noite. Mas ao chegar tarde em casa, nesse estado de espírito abençoado, ela constatou que o pai sofrera uma piora e se recriminou amargamente por ter sacrificado tanto tempo à sua própria diversão. Essa foi a última vez que se afastou do pai doente por uma noite inteira. Encontrou-se poucas vezes com o namorado depois disso. Após a morte do pai, o jovem pareceu afastar-se dela em sinal de respeito por seu pesar. O curso de sua vida levou-o então por outros rumos. Ela teve de se acostumar pouco a pouco com a idéia de que o interesse dele por ela fora substituído por outros e de que ela o havia perdido. Mas essa decepção em seu primeiro amor ainda a feria sempre que ela pensava nele.

Foi nessa relação, portanto, e na cena descrita acima, na qual ela atingiu seu auge, que pude procurar as causas de suas primeiras dores histéricas. O contraste entre os sentimentos de alegria que ela se permitira ter naquela ocasião e o agravamento do estado do pai com que deparara ao voltar para casa constituiu um conflito, uma situação de incompatibilidade. O resultado desse conflito foi que a representação erótica foi recalcada para longe da associação e o afeto ligado a essa representação foi utilizado para intensificar ou reviver uma dor física que estivera presente simultaneamente ou pouco antes. Assim, tratava-se de um exemplo do mecanismo de conversão com finalidade de defesa, o qual descrevi com pormenores em outro texto.

Vários comentários, é claro, podem ser feitos a esta altura. Devo ressaltar que não consegui estabelecer, com base em suas recordações, se a conversão ocorreu no momento de sua volta à casa. Assim, procurei por experiências semelhantes durante o tempo em que ela cuidou do pai e trouxe à tona grande número delas. Entre estas, uma importância especial se prendeu, por causa de sua ocorrência freqüente, a cenas em que, a chamado do pai, ela pulava da cama de pés descalços num quarto frio. Eu me senti inclinado a atribuir alguma importância a esses fatores, visto que além de se queixar de dor nas pernas, ela também se queixava de torturantes sensações de frio. Não obstante, mesmo aqui fui incapaz de obter qualquer cena passível de ser identificada como aquela em que ocorreu a conversão. Por essa razão, eu me sentia inclinado a achar que havia uma lacuna na explicação nesse ponto, até me lembrar que, de fato, as dores histéricas nas pernas não haviam surgido durante o período em que ela estava cuidando do pai. Ela só se recordava de um único acesso de dor, que durara apenas um ou dois dias e não lhe chamara a atenção | ver em. [1]|. Dirigi então minhas indagações para esse primeiro aparecimento das dores. Consegui reavivar com segurança a lembrança que a paciente tinha dele. Precisamente naquela ocasião um parente os visitara e ela não pudera recebê-lo por estar de cama. Esse mesmo homem fora infeliz o bastante para visitá-las novamente dois anos depois, para encontrá-la de cama mais uma vez. Mas, apesar de repetidas tentativas, não conseguimos descobrir qualquer causa psíquica para as primeiras dores. Julguei seguro presumir que, de fato, elas haviam surgido sem nenhuma causa psíquica e eram uma afecção reumática branda; e pude estabelecer que esse distúrbio orgânico, que foi o modelo copiado em sua histeria posterior, teria de ser situado, de qualquer modo, antes da cena em que ela voltara da festa acompanhada. A julgar pela natureza das coisas, não obstante, é possível que essas dores, sendo de origem orgânica, tivessem persistido por algum tempo em grau atenuado, sem serem muito percebidas. A obscuridade devida ao fato de que a análise apontava para a ocorrência de uma conversão de excitação psíquica em dor física, embora essa dor certamente não fosse percebida na ocasião em questão ou relembrada em época posterior - esse é um problema que espero poder solucionar mais tarde, com base em outras considerações e em exemplos posteriores. | ver em [1] |

A descoberta da razão da primeira conversão abriu um segundo período profícuo do tratamento. A paciente surpreendeu-me logo depois, ao anunciar que agora sabia por que era que as dores sempre se irradiavam daquela região específica da coxa direita e atingiam ali sua maior intensidade: era nesse lugar que seu pai costumava apoiar a perna todas as manhãs, enquanto ela renovava a atadura em torno dela, pois estava muito inchada. Isso deve ter acontecido uma centena de vezes, mas ela não havia notado a ligação até esse momento. Assim, ela me forneceu a explicação de que eu precisava quanto ao surgimento do que era uma zona histerogênica atípica. Além disso, suas pernas doloridas começaram a “participar da conversa” durante nossas sessões de análise. | ver em [1].| O que tenho em mente é o seguinte fato notável: em geral, a paciente estava sem dor quando começávamos a trabalhar. Se então, por meio de uma pergunta ou pela pressão na sua cabeça, eu despertava uma lembrança, surgia uma sensação de dor, e esta era comumente tão aguda que a paciente estremecia e punha a mão no ponto doloroso. A dor assim despertada persistia enquanto a paciente estivesse sob a influência da lembrança; alcançava seu clímax quando ela estava no ato de me contar a parte essencial e decisiva do que tinha a comunicar, e com a última palavra desse relato, desaparecia. Com o tempo, passei a utilizar essas dores como uma bússola para minha orientação: quando a moça parava de falar mas admitia ainda estar sentindo dor, eu sabia que ela não me havia contado tudo e insistia para que continuasse sua história, até que a dor se esgotasse pela fala. Só então eu despertava uma nova lembrança.

Durante esse período de ‘ab-reação’, o estado da paciente, tanto físico quanto mental, teve uma melhora tão notável que eu costumava dizer, meio de brincadeira, que estava retirando um pouco de seus motivos de dor de cada vez e que, quando os tivesse eliminado inteiramente, ela ficaria boa. Elisabeth logo chegou ao ponto de passar a maior parte do tempo sem dor; deixou-se convencer a caminhar bastante e a abandonar seu isolamento anterior. No curso da análise, ora eu acompanhava as oscilações espontâneas do estado da paciente, ora seguia minha própria estimativa da situação, quando achava não ter esgotado inteiramente alguma parte da história de sua doença.

Durante esse trabalho, fiz algumas observações interessantes, cujas lições vi confirmadas mais tarde, ao tratar de outros pacientes. Quanto às oscilações espontâneas, em primeiro lugar, constatei que, na verdade, não ocorrera nenhuma que não tivesse sido provocada por associação com algum evento contemporâneo. Numa ocasião, ela ouvira falar de uma doença de um de seus conhecidos, o que a fez lembrar-se de um detalhe da doença do pai; de outra feita, o filho da irmã morta fora visitá-las e sua semelhança com a mãe provocara nela sentimentos de pesar; e ainda noutra ocasião uma carta da irmã distante mostrou claramente a influência do cunhado insensível e causou-lhe uma dor que a obrigou a relatar a história de uma cena familiar que ainda não me contara. Visto que ela nunca trazia à tona duas vezes a mesma causa precipitante para uma dor, parecia-me justificado supor que assim esgotaríamos o estoque dessas causas. Desse modo, eu não hesitava em colocá-la em situações projetadas para despertar novas lembranças que ainda não tivessem alcançado a superfície. Por exemplo, mandei-a visitar o túmulo da irmã e encorajei-a a ir a uma festa, em que poderia mais uma vez encontrar o namorado de sua juventude.

A seguir, consegui algum discernimento sobre o modo originário do que poderia ser chamado de histeria “monossintomática”. Verifiquei que sua perna direita doía durante a hipnose quando a discussão versava sobre os cuidados que ela dispensara ao pai enfermo, ou sobre suas relações com o namorado da mocidade, ou sobre outros acontecimentos que se enquadravam no primeiro período de suas experiências patogênicas; por outro lado, a dor surgia na outra perna, a esquerda, tão logo eu provocava uma lembrança relacionada com a irmã morta ou com os dois cunhados - em suma, com uma impressão proveniente da segunda metade da história de sua doença. Tendo assim minha atenção despertada pela regularidade dessa relação, levei minha pesquisa adiante e fiquei com a impressão de que essa diferenciação ia ainda mais além e que cada novo determinante psíquico de sensações dolorosas ficara ligado a algum ponto novo da região dolorosa das pernas. O ponto doloroso original de sua coxa direita se relacionara com os cuidados prestados ao pai; a região da dor estendera-se desse ponto para regiões vizinhas, como resultado de novos traumas. O que tínhamos aqui, portanto, não era, rigorosamente falando, um sintoma físico único, ligado a uma variedade de complexos mnêmicos na mente, mas sim um grande número de sintomas semelhantes, que pareciam, numa visão superficial, estar fundidos num único sintoma. Mas, ao verificar que a atenção da paciente se desviava desse tema, não prossegui com a delimitação das zonas de dor correspondentes aos diferentes determinantes psíquicos.

Não deixei, contudo, de voltar minha atenção para o modo como todo o complexo sintomático da abasia poderia ter-se estruturado nessas zonas dolorosas e, nesse sentido, fiz várias perguntas à paciente, tais como: Qual foi a origem de suas dores ao andar? E ao ficar de pé? E ao deitar-se? A algumas dessas perguntas ela respondeu espontaneamente, a outras sob a pressão de minha mão. Duas coisas resultaram daí. Em primeiro lugar, ela dividiu em grupos para mim todas as cenas a que estavam vinculadas impressões dolorosas, conforme as tivesse experimentado enquanto estava sentada ou de pé, e assim por diante. Por exemplo, estava de pé junto a uma porta quando o pai foi levado para casa logo após o ataque cardíaco | ver em [1]| e, com o susto, ficara paralisada como se tivesse raízes no chão. Continuou acrescentando várias outras lembranças a esse primeiro exemplo de susto quando se achava de pé, até chegar à cena assustadora em que, mais uma vez, estava de pé, como que enfeitiçada, junto ao leito de morte da irmã | ver em [1]|. Poder-se-ia esperar que toda essa cadeia de lembranças mostrasse haver uma conexão verdadeira entre suas dores e o ficar de pé, e a rigor ela poderia ser aceita como prova de uma associação. Mas convém lembrar que seria preciso comprovar a presença de um outro fator em todos esses eventos, um fator que lhe teria dirigido a atenção precisamente para o fato de estar de pé (ou, conforme o caso, andando, sentada, etc.) e, por conseguinte, levado à conversão. A explicação para o fato de sua atenção ter tomado esse rumo só pode ser buscada na circunstância de que andar, ficar de pé e deitar são funções e estados da parte do corpo que, no caso dela, abrangiam as zonas dolorosas: a saber, as pernas. Portanto, foi fácil compreender nesse caso a ligação entre a astasia-abasia e a primeira ocorrência da conversão.

Entre os episódios que, de acordo com esse catálogo, pareceram ter tornado doloroso o andar, um recebeu destaque especial: um passeio que ela fizera na estação de águas em companhia de várias outras pessoas | ver em [1]-[2]| e que teria sido longo demais. Os detalhes desse episódio só emergiram de maneira hesitante e deixaram vários enigmas não solucionados. Ela estivera num estado de ânimo particularmente dócil e se juntou, alegremente, a seu grupo de amigos. O dia estava bonito e não fazia muito calor. A mãe ficou em casa e a irmã mais velha já tinha ido embora. A irmã mais moça sentiu-se mal, mas não quis estragar o prazer dela; o cunhado primeiro disse que ficaria com a esposa, mas depois resolveu juntar-se ao grupo por causa de Elisabeth. Essa cena parecia estar estreitamente relacionada com o primeiro aparecimento das dores, pois ela se lembrou de ter ficado muito cansada e de ter sentido uma dor violenta ao voltar do passeio. Disse, contudo, não estar certa de já ter percebido as dores antes disso. Fiz-lhe ver que era improvável que tivesse empreendido uma caminhada tão longa se já tivesse sentido quaisquer dores fortes. Perguntei-lhe o que na caminhada poderia ter provocado a dor, e ela me forneceu a resposta um tanto obscura de que o contraste entre sua própria solidão e a felicidade conjugal da irmã enferma (felicidade esta que o comportamento do cunhado lhe lembrava constantemente) fora doloroso para ela.

Outra cena, muito próxima da primeira no tempo, teve seu papel na ligação das dores com o sentar. Ocorreu alguns dias depois, quando a irmã e o cunhado já haviam ido embora. Ela estava inquieta e ansiosa. Levantou-se cedo e subiu uma pequena colina, indo até um lugar onde muitas vezes eles tinham estado juntos e que proporcionava uma linda vista. Sentou-se num banco de pedra e se abandonou a seus pensamentos, que mais uma vez diziam respeito a sua solidão e ao destino de sua família, e dessa vez confessou abertamente o desejo intenso de ser tão feliz quanto a irmã. Retornou dessa meditação matinal com dores violentas e, naquela mesma noite, tomou o banho após o qual as dores surgiram em caráter definitivo e permanente | ver em [1]|.

Constatou-se ainda, sem qualquer sombra de dúvida, que suas dores ao andar e ao ficar de pé eram, de início, aliviadas quando ela se deitava. As dores só passaram a se relacionar com o ficar deitada quando, após ter notícia da doença da irmã, ela viajou de volta de Gastein [loc. cit.] e foi atormentada durante a noite tanto pela preocupação com a irmã quanto por dores lancinantes, tendo ficado estendida e insone no vagão de trem. E por muito tempo depois disso, deitar-se foi, na realidade, mais doloroso para ela do que andar ou ficar de pé.

Dessa forma, em primeiro lugar, a região dolorosa se estendera com o acréscimo de áreas adjacentes: cada novo tema que exercia um efeito patogênico catexizara uma nova região das pernas; em segundo lugar, cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impressão deixara um vestígio, provocando uma catexia duradoura e constantemente acumulada das várias funções das pernas, uma ligação dessas funções com suas sensações dolorosas. Mas um terceiro mecanismo indubitavelmente estivera envolvido na formação de sua astasia-abasia. A paciente encerrou sua descrição de uma série de episódios com a queixa de que eles lhe haviam tornado doloroso o fato de “ficar sozinha”. Em outra série de episódios, que abrangiam suas tentativas frustradas de estabelecer uma nova vida para sua família, ela nunca se cansou de repetir que o doloroso nelas tinha sido seu sentimento de desamparo, o sentimento de que não podia “dar um único passo à frente”. Em vista disso, fui forçado a supor que entre as influências que contribuíram para a formação de sua abasia, tiveram papel essas suas reflexões; não pude deixar de pensar que a paciente não fizera nada mais nada menos do que procurar uma expressão simbólica para seus pensamentos dolorosos, e que a encontrara na intensificação de seus sofrimentos. O fato de que os sintomas somáticos da histeria podem ser produzidos por uma simbolização dessa natureza já foi afirmado em nossa “Comunicação Preliminar” | ver em [1]|. Na discussão do presente caso, apresentarei dois ou três exemplos conclusivos disso. | ver em [1] e segs.| Esse mecanismo psíquico de simbolização não exerceu um papel importante na Srta. Elisabeth von R, não criou sua abasia. Mas tudo contribui para mostrar que a abasia que já estava presente recebeu assim um reforço considerável. Por conseguinte, essa abasia, na fase de desenvolvimento em que a encontrei, devia ser igualada não só a uma paralisia funcional baseada em associações psíquicas, mas também a uma paralisia baseada na simbolização.

Antes de prosseguir meu relato do caso, acrescentarei algumas palavras sobre o comportamento da paciente durante essa segunda fase do tratamento. No curso de toda a análise usei a técnica de provocar o surgimento de imagens e idéias através da pressão sobre a cabeça da paciente, um método, vale dizer, que seria impraticável sem a plena cooperação e a atenção voluntária da paciente. | ver em [1] e segs.| Por vezes, realmente, seu comportamento correspondeu às minhas melhores expectativas, e durante tais períodos foi surpreendente a prontidão com que as diferentes cenas relacionadas com um dado tema surgiram numa ordem rigorosamente cronológica. Era como se ela estivesse lendo um extenso livro ilustrado cujas páginas estivessem sendo viradas diante de seus olhos. Em outras ocasiões, parecia haver impedimentos de cuja natureza eu não desconfiava na época. Quando lhe pressionava a cabeça, ela sustentava que nada lhe havia ocorrido. Eu repetia a pressão e lhe dizia que esperasse, mas ainda assim nada aparecia. Nas primeiras vezes em que surgiu, essa recalcitrância permitiu-me interromper o trabalho: era um dia desfavorável, tentaríamos em outra ocasião. Duas observações, contudo, levaram-me a alterar minha atitude. Notei, em primeiro lugar, que o método só falhava quando eu encontrava Elisabeth alegre e sem dor, e nunca quando ela se sentia mal. Em segundo lugar, reparei que muitas vezes ela fazia essas afirmações de não ter visto nada depois de deixar passar um longo intervalo durante o qual, não obstante, a expressão tensa e preocupada de seu rosto traía o fato de haver um processo mental em curso. Resolvi, portanto, adotar a hipótese de que o método nunca falhava: de que, em todas as ocasiões, sob a pressão da minha mão, alguma idéia ocorria a Elisabeth ou alguma imagem surgia diante de seus olhos, mas ela nem sempre estava preparada para comunicá-las a mim e tentava reprimir mais uma vez o que fora evocado. Consegui pensar em dois motivos para esse encobrimento. Ou ela estava criticando a idéia, o que não tinha nenhum direito de fazer, com o pretexto de que não era suficientemente importante ou de que era uma resposta irrelevante à pergunta que lhe fora formulada, ou estava hesitando em exibi-la por achá-la muito desagradável de contar. Passei a agir, portanto, como se estivesse inteiramente convencido da confiabilidade da minha técnica. Não aceitava mais sua declaração de que nada lhe havia ocorrido e assegurava a ela que algo devia ter acontecido. Talvez, dizia eu, ela não tivesse prestado bastante atenção, e nesse caso eu teria prazer em repetir a pressão. Ou talvez ela achasse que sua idéia não era a idéia certa. Isso, dizia-lhe eu, não era problema dela; sua obrigação era a de ser inteiramente objetiva e dizer o que lhe viesse à cabeça, quer fosse apropriado, quer não. Por fim, eu declarava saber muito bem que algo lhe havia ocorrido e que ela o estava ocultando de mim, mas que jamais se livraria de suas dores enquanto escondesse qualquer coisa. Ao insistir dessa maneira, consegui que, a partir dessa época minha pressão sobre sua cabeça jamais falhasse. Não pude deixar de concluir que minha opinião estava certa e extraí dessa análise uma confiança literalmente irrestrita em minha técnica. Muitas vezes acontecia de só depois de eu pressionar-lhe a cabeça por três vezes é que ela me dava uma informação. Mas ela mesma observava depois: “Poderia ter-lhe dito isso da primeira vez.” - “E por que não disse?” - “Pensei que não fosse o que era preciso”, ou “Pensei que pudesse evitá-lo, mas ficava voltando todas as vezes”. No curso desse difícil trabalho, comecei a atribuir maior importância à resistência oferecida pela paciente na reprodução de suas lembranças e a compilar cuidadosamente as ocasiões em que era particularmente acentuada.

 

Cheguei então à terceira fase do tratamento. A paciente sentia-se melhor. Fora mentalmente aliviada e era agora capaz de esforços bem-sucedidos. Mas suas dores, manifestamente, não tinham sido eliminadas, repetiam-se de tempos em tempos e com toda a sua antiga gravidade. Esse resultado terapêutico incompleto correspondia a uma análise incompleta. Eu ainda não sabia exatamente em que momento e por qual mecanismo as dores se haviam originado. Durante a reprodução da grande variedade de cenas da segunda fase e enquanto observava a resistência da paciente em falar-me delas, eu havia formado uma suspeita específica. Não me aventurava ainda, contudo, a adotá-la como base para minha ação subseqüente. Mas uma ocorrência fortuita resolveu o assunto. Um dia, enquanto trabalhava com a paciente, ouvi passos de um homem na sala contígua e uma voz agradável que parecia estar formulando alguma pergunta. Minha paciente levantou-se de imediato e pediu para interrompermos os trabalhos por aquele dia: tinha ouvido o cunhado chegar e perguntar por ela. Até esse momento ela estivera livre de dor, mas, após a interrupção, sua expressão facial e seu andar traíram o súbito surgimento de dores agudas. Minha suspeita foi fortalecida por esse fato e decidi-me a precipitar a explicação decisiva.

Assim, perguntei-lhe pelas causas e circunstâncias da primeira vez em que as dores haviam surgido. À guisa de resposta, seus pensamentos se voltaram para a visita de verão à estação de águas antes de sua viagem a Gastein, e inúmeras cenas que não tinham sido tratadas de maneira muito completa surgiram de novo. Ela se lembrou de como se sentia na época, de como estava esgotada após a preocupação com a visão da mãe e os cuidados prestados a ela na época da operação, e de como por fim perdera a esperança de que uma moça solitária como ela pudesse ter alguma felicidade na vida ou realizar alguma coisa. Até então ela se julgara forte o bastante para poder passar sem a ajuda de um homem, mas agora se via dominada pelo sentimento de sua fraqueza como mulher e por um anseio de amor no qual, citando suas próprias palavras, sua natureza congelada começava a derreter-se. Nesse estado de espírito, ela foi profundamente afetada pelo casamento feliz da segunda irmã - por ver com que tocante carinho o cunhado cuidava dela, como os dois se entendiam com um simples olhar e como pareciam seguros um do outro. Sem duvida, era lastimável que a segunda gravidez tivesse vindo tão perto da primeira, e a irmã sabia que esse era o motivo de sua doença, mas como a suportava de bom grado por ter sido ele o causador! Por ocasião do passeio que estava tão intimamente ligado às dores de Elisabeth, o cunhado a princípio não se mostrara disposto a participar e desejara permanecer ao lado da esposa enferma. Ela, porém, o persuadira com um olhar a acompanhá-los, por achar que isso daria prazer a Elisabeth. Elisabeth permaneceu na companhia dele durante todo o passeio. Falaram sobre todos os assuntos, até os mais íntimos. Ela se descobriu em completo acordo com tudo o que ele dizia, e o desejo de ter um marido como ele acentuou-se muito. Então, alguns dias depois, veio a cena da manhã após a partida da irmã e do cunhado, quando ela foi ao local que tinha uma vista bonita e que fora o preferido nos passeios deles. Ali, sentou-se e sonhou mais uma vez em desfrutar de uma felicidade como a da irmã e em encontrar um marido que soubesse cultivar-lhe o coração, como seu cunhado cativara o dela. Sentiu dor ao levantar-se, mas esta passou mais uma vez. Foi somente à tarde, depois de ter tomado o banho quente, que as dores irromperam, e ela nunca mais se livrou delas. Tentei descobrir que pensamentos lhe teriam ocupado a mente enquanto ela tomava banho, mas soube apenas que o banheiro a fizera recordar-se dos membros da família que haviam partido, pois fora naquela casa que eles tinham ficado.

Como era inevitável, tudo isso já ficara claro para mim há muito tempo. Mas a paciente, mergulhada em suas lembranças acridoces, não parecia notar para onde se estava encaminhando e continuou a reproduzir suas recordações. Passou a falar de sua visita a Gastein, da ansiedade com que aguardava cada carta e finalmente das más notícias sobre a irmã, da longa espera até o anoitecer, que foi o primeiro momento em que puderam partir de Gastein, e então da viagem, feita numa torturante incerteza, e da noite insone - tudo isso acompanhado por um violento aumento das dores. Perguntei-lhe se durante a viagem havia pensado na possibilidade deplorável que depois se concretizou. Respondeu-me que evitara cuidadosamente pensar nela, mas acreditava que desde o início a mãe havia esperado o pior. Suas lembranças passaram então à chegada a Viena, à impressão que lhes causaram os parentes que as esperavam, à curta viagem de Viena até a estação de veraneio próxima onde morava a irmã, à chegada à noite, à caminhada apressada pelo jardim até a porta da casa ajardinada, ao silêncio que reinava em seu interior e à escuridão opressiva. Lembrou que o cunhado não estava lá para recebê-las e que ficaram diante da cama, olhando para a irmã morta. Naquele momento de terrível certeza de que a irmã amada estava morta sem ter-lhes dito adeus, e sem que ela lhe tivesse aliviado os últimos dias com seus cuidados, naquele exato momento outro pensamento atravessou a mente de Elisabeth, e agora se impunha de maneira irresistível a ela mais uma vez, como um relâmpago nas trevas: “Agora ele está livre novamente e posso ser sua esposa.”

Tudo ficou claro então. Os esforços do analista foram ricamente recompensados. Os conceitos de “rechaço” de uma representação incompatível, da gênese dos sintomas histéricos através da conversão de excitações psíquicas em algo físico e da formação de um grupo psíquico separado, através do ato de vontade que conduziu ao rechaço - todas essas coisas, naquele momento, apareceram diante de meus olhos de forma concreta. Assim, e de nenhuma outra maneira, as coisas haviam ocorrido nesse caso. Essa moça sentia pelo cunhado uma ternura cuja aceitação na consciência deparara com a resistência de todo o seu ser moral. Ela conseguiu poupar-se da dolorosa convicção de que amava o marido da irmã induzindo dores físicas em si mesma. E foi nos momentos em que essa convicção procurou impor-se a ela (no passeio com o cunhado, durante o devaneio matinal, no banho e junto ao leito da irmã) que suas dores surgiram, graças à conversão bem-sucedida. Na época em que comecei o tratamento dela, o grupo de representações relativas a seu amor já havia sido separado de seu conhecimento. De outra forma, penso eu, ela jamais teria concordado em iniciar o tratamento. A resistência que ela havia repetidamente oferecido à reprodução das cenas que atuaram de forma dramática correspondera, na verdade, à energia com que a representação incompatível fora expulsa de suas associações.

O período que se seguiu, porém, foi árduo para o médico. O resgate dessa representação recalcada teve um efeito devastador sobre a pobre moça. Ela chorou alto quando lhe expus secamente a situação com as palavras: “Quer dizer que, durante muito tempo, você esteve apaixonada por seu cunhado. ”Nesse momento, ela queixou-se das dores mais terríveis e fez um último e desesperado esforço para rejeitar a explicação: não era verdade, eu a havia induzido àquilo, não podia ser verdade, ela seria incapaz de tanta maldade, jamais poderia perdoar-se por isso. Foi fácil provar-lhe que o que ela própria me dissera não admitia outra interpretação. Mas passou-se muito tempo antes que meus dois argumentos consoladores - o de que não somos responsáveis por nossos sentimentos e o de que seu comportamento, o fato de ter adoecido naquelas circunstâncias, era prova suficiente de seu caráter moral - passou-se muito tempo antes que essas minhas consolações a impressionassem um mínimo que fosse.

Para minorar os sofrimentos da paciente, tive então que percorrer mais de um caminho. Em primeiro lugar, eu queria dar-lhe uma oportunidade de se livrar da excitação que se vinha acumulando há tanto tempo através da “ab-reação”. Vasculhamos as primeiras impressões que suas relações com o cunhado lhe causaram, o início dos sentimentos por ele que ela mantivera inconscientes. Aí deparamos com todos os pequenos sinais e impressões premonitórios a que uma paixão plenamente desenvolvida confere tanta importância em retrospectiva. Na primeira visita que fizera à família, ele a confundira com a moça com quem iria casar-se e a cumprimentara antes da irmã mais velha, de aparência um tanto insignificante. Certa noite, os dois conversavam com tanta animação e pareciam dar-se tão bem que a noiva os interrompeu num tom parcialmente sério, com a seguinte observação: “A verdade é que vocês dois se ajustariam de maneira esplêndida.” De outra vez, numa festa em que ninguém sabia do noivado dele, falava-se do rapaz e uma senhora criticou-lhe um defeito físico que indicava que ele tivera uma doença óssea na infância. A própria noiva ouviu isso tranqüilamente, mas Elisabeth inflamou-se e defendeu a simetria do físico de seu futuro cunhado com um zelo que ela própria não pôde compreender. À medida que fomos trabalhando essas lembranças, tornou-se claro para Elisabeth que seu sentimento afetuoso pelo cunhado estivera latente por muito tempo, talvez mesmo desde que o conhecera e ficara escondido todo aquele tempo atrás da máscara de uma mera afeição fraterna, que seu senso familiar muito desenvolvido permitia-lhe aceitar como natural.

Esse processo de ab-reação certamente lhe fez muito bem. Mas pude aliviá-la ainda mais ao me interessar como amigo por sua situação atual. Com essa finalidade em mente, providenciei uma entrevista com a Sra. von R. Verifiquei ser ela uma senhora compreensiva e sensível, embora seu ânimo vital tivesse sido abatido pelos recentes infortúnios. Soube por ela que, num exame mais detido, a acusação de chantagem insensível que o cunhado mais velho proferira contra o viúvo, e que fora tão penosa para Elisabeth, tivera de ser retirada. Não restou nenhuma mancha no caráter do rapaz. Tudo fora um mal-entendido devido aos valores diferentes que, como se pode ver facilmente, são atribuídos ao dinheiro por um homem de negócios, para quem o dinheiro constitui um instrumento de sua profissão, e por um servidor público. Nada além disso restara do penoso episódio. Pedi à mãe dela que, a partir daquele momento contasse a Elisabeth tudo o que ela precisava saber, e que no futuro lhe desse a oportunidade de descarregar sua mente, coisa a que eu já a teria habituado.

Eu também estava, naturalmente, ansioso para saber que possibilidade haveria de que o desejo da moça, do qual ela agora tinha consciência, se concretizasse. Aqui, as perspectivas eram menos favoráveis. A mãe contou-me que há muito adivinhara os sentimentos de Elisabeth pelo rapaz, embora não soubesse que esses sentimentos já existiam quando a irmã era viva. Ninguém que visse os dois juntos - embora, na verdade, isso agora ocorresse raramente - poderia duvidar da ânsia da moça em agradá-lo. Mas, disse, nem ela (a mãe) nem os conselheiros da família eram muito favoráveis a um casamento. A saúde do rapaz não era nada boa e recebera um novo golpe com a morte da esposa amada. Também não era nada certo que o estado mental dele já se houvesse recuperado o bastante para que ele fizesse um novo casamento. Talvez fosse por isso que ele se comportava com tanta reserva; talvez, também, estivesse incerto da acolhida que poderia ter e desejasse evitar os comentários que provavelmente seriam feitos. Em vista dessas restrições de ambos os lados, era improvável que a solução pela qual ansiava Elisabeth viesse a ocorrer.

Disse à moça o que ouvira da mãe dela e tive a satisfação de ajudá-la ao dar-lhe a explicação sobre a questão do dinheiro. Por outro lado, encorajei-a a enfrentar com calma a incerteza sobre o futuro, que era impossível dissipar. Mas a essa altura, a aproximação do verão tornou urgente que encerrássemos a análise. O estado da paciente estava de novo melhor e não se falara mais em suas dores desde que começáramos a investigar-lhes as causas. Ambos tínhamos a sensação de havermos chegado ao fim, embora eu dissesse a mim mesmo que a ab-reação do amor que ela havia refreado por tanto tempo não se realizara completamente. Considerei-a curada e disse-lhe que a solução de suas dificuldades se processaria por sua própria conta, agora que o caminho fora aberto. Ela não questionou isso. Partiu de Viena com a mãe para encontrar-se com a irmã mais velha e a família desta, a fim de passarem juntas o verão.

Tenho algumas palavras a acrescentar sobre o curso posterior do caso da Srta. Elisabeth von R. Algumas semanas depois de nos termos separado, recebi uma carta desesperada de sua mãe. Na primeira tentativa que fizera, disse-me ela, de discutir os assuntos sentimentais da filha com ela, a moça se rebelara violentamente e desde então passara a sofrer de dores intensas mais uma vez. Ficara indignada comigo por eu ter traído seu segredo. Mostrava-se inteiramente inacessível e o tratamento fora um fracasso completo. O que se deveria fazer agora? - perguntou. Elisabeth se recusava a ter mais qualquer outra coisa a ver comigo. Não respondi a isso. Era evidente que Elisabeth, depois de sair dos meus cuidados, faria mais uma tentativa de rejeitar a intervenção da mãe e refugiar-se mais uma vez no isolamento. Mas eu tinha uma espécie de convicção de que tudo acabaria bem e de que o trabalho que eu tivera não fora em vão. Dois meses depois elas voltaram a Viena, e o colega que me apresentara o caso deu-me notícias de que Elisabeth se sentia perfeitamente bem e se comportava como se não houvesse nada de errado com ela, embora ainda sofresse ocasionalmente de leves dores. Várias vezes desde então ela me enviou mensagens semelhantes e, em cada uma delas, prometeu vir ver-me. Mas é característico da relação pessoal que se estabelece nos tratamentos dessa natureza que ela nunca o tenha feito. Como me assegura meu colega, ela deve ser considerada curada. A ligação do cunhado dela com a família permaneceu inalterada.

Na primavera de 1894, eu soube que ela iria a um baile particular para o qual eu poderia obter um convite, e não deixei escapar a oportunidade de ver minha ex-paciente passar por mim rodopiando numa dança animada. Depois dessa ocasião, por sua própria vontade, casou-se com alguém que não conheço.

 

 

DISCUSSÃO

 

Nem sempre fui psicoterapeuta. Como outros neuropatologistas, fui preparado para empregar diagnósticos locais e eletroprognósticos, e ainda me causa estranheza que os relatos de casos que escrevo pareçam contos e que, como se poderia dizer, falte-lhes a marca de seriedade da ciência. Tenho de consolar-me com a reflexão de que a natureza do assunto é evidentemente a responsável por isso, e não qualquer preferência minha. A verdade é que o diagnóstico local e as reações elétricas não levam a parte alguma no estudo da histeria, ao passo que uma descrição pormenorizada dos processos mentais, como as que estamos acostumados a encontrar nas obras dos escritores imaginativos, me permite, com o emprego de algumas fórmulas psicológicas, obter pelo menos alguma espécie de compreensão sobre o curso dessa afecção. Os casos clínicos dessa natureza devem ser julgados como psiquiátricos; entretanto, possuem uma vantagem sobre estes últimos, a saber: uma ligação íntima entre a história dos sofrimentos do paciente e os sintomas de sua doença - uma ligação pela qual ainda procuramos em vão nas biografias das outras psicoses.

Ao relatar o caso da Srta. Elisabeth von R., esforcei-me por entrelaçar as explicações que pude fornecer sobre o caso com minha descrição do curso da recuperação da paciente. Talvez valha a pena reunir mais uma vez os pontos importantes. Descrevi o caráter da paciente - as características que são encontradas com tanta freqüência nas pessoas histéricas e que não há nenhuma desculpa para se considerar como conseqüência da degenerescência: seus talentos variados, sua ambição, sua sensibilidade moral, sua excessiva exigência de amor, a princípio atendida pela família, e a independência de sua natureza, que ia além do ideal feminino e encontrava expressão numa dose considerável de obstinação, combatividade e reserva. Nenhuma mancha hereditária apreciável, segundo me disse meu colega, pôde ser encontrada em qualquer dos dois lados da família. É verdade que a mãe sofrera por muitos anos de uma depressão neurótica que não fora investigada, mas os irmãos e as irmãs da mãe, assim como o pai e a família deste, podiam ser considerados pessoas equilibradas, sem problemas nervosos. Não ocorrera nenhum caso grave de neuropsicose entre os parentes próximos.

Tal era a natureza da paciente, que agora se via dominada por emoções dolorosas, a começar pelo efeito depressivo de cuidar de seu querido pai durante uma doença prolongada.

 

Há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenhe um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria. Muitos dos fatores em ação são óbvios: a perturbação da saúde física que decorre do sono interrompido, o desleixo para consigo mesmo e o efeito da preocupação constante sobre as próprias funções vegetativas. Em minha opinião, porém, deve-se procurar o determinante mais importante em outra parte. Qualquer pessoa cuja mente seja ocupada pelas mil e uma tarefas envolvidas na prestação de cuidados a pessoas enfermas, tarefas essas que se seguem umas às outras numa sucessão interminável por um período de semanas e meses, adotará, por um lado, o hábito de suprimir todos os sinais de sua própria emoção, e por outro, logo desviará a atenção de suas próprias impressões, visto não ter nem tempo nem forças para apreciá-las devidamente. Assim, acumula uma massa de impressões passíveis de carregar afeto, que mal chegam a ser suficientemente percebidas e que, de qualquer modo, não foram enfraquecidas pela ab-reação. Está criando material para uma “histeria de retenção”. Quando o doente se recupera, é claro, todas essas impressões perdem seu significado. Mas quando ele morre e se instala então o período de luto, no qual as únicas coisas que parecem ter valor são as que se relacionam com a pessoa que morreu, aquelas impressões que ainda não foram trabalhadas entram igualmente em cena, e após um breve intervalo de exaustão, irrompe a histeria, cujas sementes foram lançadas durante o tempo de prestação de cuidados ao doente.

Também deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de os traumas acumulados durante a prestação de cuidados a um enfermo serem enfrentados mais tarde, sem que haja nenhuma impressão geral de doença, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria. É o caso, por exemplo, de uma senhora que conheço, extremamente bem-dotada, que sofre de leve nervosismo e cujo caráter, como um todo, apresenta traços de histeria, embora ela nunca tenha tido que procurar assistência médica ou ficado impossibilitada de cumprir seus deveres. Ela já cuidou até o fim de três ou quatro pessoas a quem amava. A cada vez, chegava a um estado de completo esgotamento, mas não adoecia depois desses trágicos esforços. Pouco depois da morte de cada paciente seu, contudo, iniciava-se nela um trabalho de reprodução que mais uma vez lhe colocava diante dos olhos as cenas da doença e da morte. Todos os dias ela repassava cada uma daquelas impressões, chorava e se consolava - a seu bel-prazer, poder-se-ia dizer. Esse processo de lidar com suas impressões encaixava-se em suas tarefas cotidianas sem que as duas atividades interferissem uma na outra. A situação inteira lhe passava pela mente em seqüência cronológica. Não sei dizer se o trabalho de rememoração correspondia dia a dia ao passado. Desconfio que isso dependia do número de horas de lazer proporcionadas por seus afazeres domésticos correntes.

Além dessas explosões de choro com que ela compensava o atraso e que ocorriam logo após o término fatal da doença, essa senhora celebrava festivais anuais de lembranças no período de suas várias catástrofes, e nessas ocasiões sua nítida reprodução visual e suas expressões de sentimento se atinham rigorosamente às datas exatas. Por exemplo, uma vez encontrei-a chorando a perguntei-lhe amavelmente o que acontecera naquele dia. Ela repeliu minha pergunta, um pouco irritada: “Não foi nada”, disse, “foi só que o especialista esteve aqui hoje novamente e nos deu a entender que não havia mais nenhuma esperança. Não tive tempo de chorar por causa disso na hora”. Referia-se à última doença do marido, que falecera três anos antes. Muito me interessaria saber se as cenas que ela relembrava nesses festivais anuais de recordações eram sempre as mesmas, ou se a cada vez se apresentavam detalhes diferentes para fins de ab-reação, tal como suspeito em vista de minha teoria. Mas não posso saber com certeza. Essa senhora, que não tinha menos força de caráter do que inteligência, sentia-se envergonhada do efeito violento que essas reminiscências tinham sobre ela.

Devo frisar mais uma vez que essa mulher não está doente; sua ab-reação retardada não era um processo histérico, por mais que se assemelhasse a tal processo. Podemos perguntar por que uma situação de velar por doentes é acompanhada de histeria e outra, não. Não pode ser uma questão de predisposição individual, pois esta se achava presente em alto grau na senhora de que falei.

Mas devo agora voltar à Srta. Elisabeth von R. Enquanto cuidava do pai, como vimos, ela desenvolveu pela primeira vez um sintoma histérico - uma dor numa região específica da coxa direita. Por meio da análise, foi possível encontrar uma elucidação adequada para o mecanismo do sintoma. Ele aconteceu no momento em que o círculo de idéias que abrangia seus deveres para com o pai enfermo entrou em conflito com o conteúdo do desejo erótico que ela estava sentindo na época. Sob a pressão de intensas autocensuras, ela se decidiu em favor do primeiro e, ao fazê-lo, provocou a dor histérica.

De acordo com a visão sugerida pela teoria conversiva da histeria o que aconteceu pode ser descrito da seguinte maneira. Ela recalcou uma idéia erótica fora da consciência e transformou a carga de seu afeto em sensações físicas de dor. Não ficou claro se esse primeiro conflito se apresentou a ela numa única ocasião ou em várias; a segunda alternativa é a mais provável. Um conflito exatamente semelhante - embora de maior significação ética e ainda mais claramente estabelecido pela análise - desenvolveu-se de novo alguns anos depois e levou a uma intensificação e uma extensão das mesmas dores para além dos limites originais. Mais uma vez, foi um círculo de representações de natureza erótica que entrou em conflito com todas as suas representações morais, pois suas inclinações centralizaram-se no cunhado e, tanto durante a vida da irmã como depois de sua morte, a representação de ser atraída precisamente por esse homem lhe era totalmente inaceitável. A análise proporcionou informações pormenorizadas sobre esse conflito, que foi o ponto central da história da doença. Os germes do sentimento da paciente pelo cunhado podiam ter estado presentes por muito tempo; seu desenvolvimento foi favorecido pela exaustão física devida à ampliação dos cuidados com os doentes e pela exaustão moral devida às decepções que se estendiam por muitos anos. A frieza de sua natureza começou a ceder e ela admitiu para si mesma sua necessidade do amor de um homem. Durante as várias semanas que passou na companhia dele na estação de águas, seus sentimentos eróticos, bem como suas dores, alcançaram seu clímax.

A análise, além disso, deu provas de que durante o mesmo período a paciente se encontrava num estado psíquico especial. A ligação desse estado com seus sentimentos eróticos e suas dores parece possibilitar a compreensão do que aconteceu segundo a teoria da conversão. Parece-me seguro afirmar que, na época, a paciente só se conscientizou claramente de seus sentimentos pelo cunhado, por mais poderosos que fossem, numas poucas ocasiões, e mesmo assim apenas momentaneamente. Se tivesse sido de outra forma, ela também se teria conscientizado, inevitavelmente, da contradição entre esses sentimentos e suas representações morais, e teria experimentado tormentos mentais como os que a observei ter depois de nossa análise. Ela não se lembrava de nenhum sofrimento desse tipo; havia-os evitado. Sucedeu que seus próprios sentimentos não ficaram claros para ela. Naquela época, assim como durante a análise, seu amor pelo cunhado estava presente em sua consciência, como um corpo estranho, sem entrar em relação com o restante de sua vida representativa. Com relação a esses sentimentos, ela estava na situação peculiar de saber e, ao mesmo tempo, de não saber - situação, vale dizer, em que um grupo psíquico é isolado. Mas isto, e nada mais, é o que queremos dizer quando afirmamos que esses sentimentos não estavam claros para ela. Não queremos dizer que a consciência deles fosse de qualidade inferior ou de menor grau, mas sim que eles foram isolados de qualquer livre conexão associativa de pensamento com o resto do conteúdo representativo de sua mente.

Mas como poderia ocorrer que um grupo representativo com tanta força emocional fosse mantido tão isolado? Afinal de contas, em geral o papel desempenhado nas associações por uma idéia aumenta, proporcionalmente à quantidade de afetos que há nela.

Poderemos responder a essa pergunta se levarmos em conta dois fatos que podemos usar como estabelecidos com certeza. (1) Simultaneamente à formação desse grupo psíquico isolado, a paciente desenvolveu suas dores histéricas. (2) A paciente ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência; e quando, apesar disso, a ligação se realizou, ela sentiu uma grande dor psíquica. Nossa visão da histeria relaciona esses dois fatos com a divisão de sua consciência, afirmando que o segundo deles indica o motivo para a divisão da consciência, ao passo que o primeiro indica seu mecanismo. O motivo foi o de defesa - a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo foi o de conversão, isto é, em lugar das dores mentais que ela evitou, surgiram as dores psíquicas. Desse modo, efetuou-se uma transformação que teve a vantagem de livrar a paciente de uma condição mental intolerável, embora, é verdade, à custa de uma anormalidade psíquica - a divisão da consciência que se efetuou - e de uma doença física - suas dores, sobre as quais se desenvolveu uma astasia-abasia.

Devo confessar que não posso oferecer nenhuma indicação de como se processa uma conversão dessa natureza. Evidentemente, ela não se efetua da mesma maneira que uma ação intencional e voluntária. É um processo que ocorre sob a pressão da motivação de defesa em alguém cuja organização - ou modificação temporária dela - tem uma tendência nesse sentido.

Essa teoria exige um exame mais detido. Podemos perguntar: o que é que se transforma aqui em dor física? Uma resposta cautelosa seria: algo que talvez se tivesse transformado e que deveria ter-se transformado em dor mental. Se nos aventurarmos um pouco mais e tentarmos representar o mecanismo representativo numa espécie de quadro algébrico, poderemos atribuir uma certa carga de afeto ao complexo representativo dos sentimentos eróticos que permaneceram inconscientes e dizer que essa quantidade (a carga afetiva) é o que foi convertido. Resultaria diretamente dessa descrição que o “amor inconsciente” teria perdido tanto de sua intensidade através de uma conversão desse tipo que se teria reduzido a apenas uma representação fraca. Essa redução da força seria, então, a única coisa que tornou possível a existência desses sentimentos inconscientes como um grupo psíquico isolado. O presente caso, contudo, não se presta bem a dar um quadro nítido de um assunto tão delicado, pois nele provavelmente só houve conversão parcial; em outros, pode-se demonstrar com probabilidade que a conversão completa também ocorre, e que nela a representação incompatível é de fato “recalcada”, como somente uma representação de intensidade muito fraca pode ser. Os pacientes em questão declaram, depois que a ligação associativa com a representação incompatível se estabelece, que seus pensamentos não se voltavam para ela desde o aparecimento dos sintomas histéricos.

Afirmei anteriormente | ver em [1]| que em algumas ocasiões, embora apenas por um momento, a paciente reconheceu conscientemente seu amor pelo cunhado. Como exemplo disso, podemos recordar o momento em que ela se encontrava de pé junto à cama da irmã e um pensamento lhe cruzou a mente: “Agora ele está livre e você pode ser sua esposa” | ver em [1]|. Cabe-me agora considerar o significado desses momentos em sua relação com nossa visão de toda a neurose. Parece-me que o próprio conceito de “histeria de defesa” implica que pelo menos um desses momentos deve ter ocorrido. A consciência simplesmente não sabe por antecipação quando uma representação incompatível vai aflorar. A representação incompatível, que juntamente com as que lhe estão associadas é depois excluída e forma um grupo psíquico separado, deve originalmente ter estado em comunicação com a corrente principal de pensamento. De outra forma, o conflito que levou a sua exclusão não poderia ter ocorrido. São esses momentos, portanto, que devem ser classificados de “traumáticos”; é nesses momentos que ocorre a conversão, cujos resultados são a divisão da consciência e o sintoma histérico. No caso da Srta. Elisabeth von R., tudo indica que ocorreram vários desses momentos - as cenas do passeio, o devaneio matinal, o banho e a presença à cabeceira da irmã. É até possível que novos momentos da mesma espécie tenham acontecido durante o tratamento. O que possibilita a existência de vários desses momentos traumáticos é que as experiências semelhantes à que originalmente introduziu a representação incompatível acrescentam uma nova excitação ao grupo psíquico separado e, desse modo, suspendem temporariamente o êxito da conversão. O ego é obrigado a prestar atenção a essa irrupção súbita da representação e a restaurar o antigo estado de coisas através de uma nova conversão. A Srta. Elisabeth, que passava muito tempo na companhia do cunhado, deve ter ficado particularmente sujeita à ocorrência de novos traumas. Do ponto de vista da minha exposição atual, eu teria preferido um caso em que a história traumática se situasse inteiramente no passado.

Cabe-me agora tocar num ponto que conforme descrevi | ver em [1]-[2]| levanta um obstáculo à compreensão desse caso. Baseando-se na análise, presumi que uma primeira conversão havia ocorrido quando a paciente estava cuidando do pai, na época em que seus deveres de enfermeira entraram em conflito com seus desejos eróticos, e que o que aconteceu então foi o protótipo dos eventos posteriores, na estação de águas nos Alpes, que levaram à irrupção da doença. Mas parecia, pelo relato da paciente, que enquanto cuidava do pai e durante o tempo que se seguiu - o que descrevi como o “primeiro período” - ela não teve nenhuma dor e nenhuma fraqueza locomotora. É verdade que certa vez, durante a doença do pai, ela esteve acamada por alguns dias com dores nas pernas, mas permaneceu uma dúvida quanto a determinar se esse ataque deveria ser atribuído à histeria. Não se pôde achar na análise nenhuma ligação causal entre essas primeiras dores e qualquer impressão psíquica. É possível, e na realidade provável, que o que ela sentia na época fossem dores musculares reumáticas comuns. Além disso, mesmo que estivéssemos inclinados a supor que esse primeiro acesso de dores foi o efeito de uma conversão histérica devida ao repúdio de seus pensamentos eróticos na época, permanece o fato de que as dores desapareceram depois de apenas alguns dias, de modo que a paciente se comportara, na vida real, de maneira diferente do que pareceu indicar na análise. Durante a reprodução do que denominei de primeiro período, todas as histórias da paciente sobre a doença e morte do pai, sobre suas impressões acerca do relacionamento com o primeiro cunhado, e assim por diante, foram acompanhadas de dores, ao passo que, na época em que efetivamente vivenciou essas impressões, ela não sentira dor alguma. Não seria esta uma contradição destinada a reduzir bastante nossa crença no valor explicativo de uma análise como esta?

Creio que posso solucionar essa contradição presumindo que as dores - os produtos da conversão - não ocorreram enquanto a paciente estava experimentando as impressões do primeiro período, mas só posteriormente, isto é, no segundo período, enquanto reproduzia essas impressões em seus pensamentos. Em outras palavras, a conversão não se deu ligada a suas impressões enquanto novas, mas sim em conexão com suas lembranças das mesmas. Acredito mesmo que esse curso dos acontecimentos não é nada incomum na histeria e que, na verdade, desempenha um papel regular na gênese dos sintomas histéricos. Mas como uma afirmação desse tipo não é evidente em si mesma, tentarei torná-la mais plausível apresentando mais alguns exemplos.

Certa vez aconteceu que um novo sintoma histérico se desenvolveu numa paciente em pleno curso de um tratamento analítico dessa espécie, de modo que pude empreender a tarefa de me livrar dele um dia após seu aparecimento. Interpolarei aqui as principais características do caso. Foi um caso bem simples, porém não destituído de interesse.

A Srta. Rosalia H., de vinte e três anos de idade, vinha há alguns anos estudando para tornar-se cantora. Tinha boa voz, mas se queixava de que, em certas partes de seu registro, perdia o controle sobre ela. Tinha uma sensação de sufocamento e de constrição na garganta, de modo que sua voz soava velada. Por esse motivo seu professor ainda não pudera consentir que ela se apresentasse em público como cantora. Embora essa imperfeição lhe afetasse apenas o registro médio, não podia ser atribuída a um defeito no próprio órgão. Às vezes a perturbação desaparecia por completo e seu professor expressava grande satisfação; em outras ocasiões, bastava ela estar um pouco agitada, algumas vezes sem nenhuma causa aparente, para que a sensação de constrição reaparecesse e a produção da voz fosse prejudicada. Não foi difícil reconhecer uma conversão histérica nessa sensação extremamente perturbadora. Não tomei nenhuma providência para descobrir se havia de fato uma contratura dos músculos das cordas vocais. Durante a análise hipnótica que realizei com a moça vim a saber dos seguintes fatos sobre sua história e, conseqüentemente, sobre a causa de seu problema. Ela perdera os pais cedo e fora levada para morar com uma tia que tinha muitos filhos. Em conseqüência disso, envolveu-se numa vida familiar muito infeliz. O marido da tia, que era uma pessoa visivelmente patológica, maltratava de maneira brutal a esposa e os filhos. Feria os sentimentos deles, sobretudo pela forma como demonstrava uma evidente preferência sexual pelas criadas e amas da casa; e quanto mais os filhos foram crescendo, mais ofensivo isso se tornou. Após a morte da tia, Rosalia tornou-se a protetora da multidão de crianças que agora eram órfãs e oprimidas pelo pai. Ela levava seus deveres a sério e superou todos os conflitos a que sua posição a conduziu, embora isso requeresse grande esforço para reprimir o ódio e o desprezo que sentia pelo tio. Foi nessa época que a sensação de constrição na garganta começou. Todas as vezes que tinha de refrear uma resposta, ou se obrigava a ficar calada em face de alguma acusação ultrajante, sentia a garganta arranhar e apertar e perdia a voz - todas as sensações localizadas na laringe ou na faringe que agora interferiam com o canto. Não era de admirar que ela buscasse uma oportunidade para se tornar independente e escapar das agitações e das experiências aflitivas que ocorriam diariamente na casa do tio. Um professor de canto muito competente ajudou-a de modo desinteressado e lhe assegurou que sua voz justificava que escolhesse o canto como profissão. Ela começou então a tomar lições com ele em segredo. Mas muitas vezes saía às pressas para a aula de canto enquanto ainda tinha a constrição na garganta, que costumava persistir após cenas violentas em casa. Como conseqüência, estabeleceu-se com firmeza uma ligação entre o canto e sua paraestesia histérica - uma ligação para a qual o caminho foi preparado pelas sensações orgânicas provocadas pelo canto. O aparelho sobre o qual ela deveria ter pleno controle quando cantava revelou-se catexizado com resíduos de inervação que sobraram das numerosas cenas de emoção reprimida. Depois dessa época, ela abandonou a casa do tio e se mudou para outra cidade, para ficar longe da família. Mas isso não eliminou sua dificuldade.

 

Essa moça bonita e excepcionalmente inteligente não exibia quaisquer outros sintomas histéricos.

Fiz o melhor que pude para livrá-la dessa “histeria de retenção” fazendo-a narrar todas as suas experiências perturbadoras e a ab-reagi-las a posteriori. Fiz com que destratasse o tio, lhe passasse sermões, lhe dissesse a verdade nua e crua e assim por diante, e esse tratamento lhe fez bem. Infelizmente, contudo, ela vivia em Viena em condições muito desfavoráveis. Não tinha sorte com os parentes. Fora alojada por outro tio, que a tratava de maneira amistosa, mas exatamente por esse motivo a tia tomara aversão a ela. Essa mulher suspeitava que o marido tinha um interesse mais profundo pela sobrinha e, assim resolveu tornar-lhe a estada em Viena tão desagradável quanto possível. A própria tia, em sua mocidade, fora obrigada a desistir de uma carreira artística e invejava a sobrinha por poder cultivar seu talento, embora no caso da moça não tivesse sido seu desejo, mas sua necessidade de independência, que lhe determinara a decisão. Rosalie sentia-se tão constrangida na casa que não se aventurava, por exemplo, a cantar ou tocar piano enquanto a tia pudesse ouvi-la, e evitava cuidadosamente cantar ou tocar para o tio (que, aliás, era um senhor idoso, irmão de sua mãe) quando havia alguma possibilidade de a tia entrar. Enquanto eu tentava eliminar os vestígios de antigas agitações, surgiram outras a partir dessas relações com seu anfitrião e sua anfitrioa, que por fim interferiram no êxito do meu tratamento e o levaram a um fim prematuro.

Um dia a paciente chegou para a sessão com um novo sintoma, que não chegava a ter vinte e quatro horas. Queixava-se de uma desagradável sensação de alfinetadas nas pontas dos dedos, as quais, segundo disse, vinha sentindo com intervalos de poucas horas desde o dia anterior e que a obrigavam a fazer um movimento peculiar de contorção dos dedos. Não cheguei a observar um acesso, caso contrário sem dúvida teria podido adivinhar, pela natureza dos movimentos, o que os havia ocasionado. Mas imediatamente tentei seguir a trilha da explicação do sintoma (era, na verdade, um ataque histérico menor) pela análise hipnótica. Visto que a coisa só começara a existir há tão pouco tempo, eu tinha esperança de poder explicar rapidamente o sintoma e eliminá-lo. Para minha surpresa, a paciente desfiou um grande número de cenas, sem hesitação e em ordem cronológica, a começar por sua primeira infância. Pareciam ter em comum o fato de lhe ter sido causado algum dano do qual ela não pudera defender-se e que teria feito seus dedos estremecerem. Eram cenas, por exemplo, como a de ter que estender a mão na escola para que o professor lhe batesse com uma régua. Mas tinham sido ocasiões muito comuns e eu estava preparado para negar que pudessem desempenhar um papel na etiologia de um sintoma histérico. Mas foi diferente com uma cena de sua infância que ela descreveu. O tio mau, que sofria de reumatismo, pedira-lhe que massageasse suas costas e ela não ousara recusar. Na ocasião, ele estava deitado na cama e, de repente, jogou longe os lençóis, deu um salto e tentou agarrá-la e derrubá-la na cama. A massagem, é claro, estava terminada, e no momento seguinte ela havia fugido e se trancado em seu quarto. Ficou claro que ela relutava em se lembrar disso e não estava disposta a dizer se vira algo quando ele se descobriu subitamente. As sensações nos dedos poderiam ser explicadas, nesse caso, pelo impulso reprimido de puni-lo, ou simplesmente por tê-lo massageado na ocasião. Foi somente depois de relatar essa cena que ela chegou à do dia anterior, depois da qual a sensação e os tremores nos dedos haviam-se instalado como um símbolo mnêmico recorrente. O tio com quem ela morava agora pedira-lhe que tocasse alguma coisa. Ela se sentara ao piano e se acompanhara numa canção, pensando que a tia houvesse saído, mas, de repente, esta apareceu na porta. Rosalie deu um salto, fechou violentamente a tampa do piano e jogou longe a partitura. Podemos adivinhar qual foi a lembrança que lhe surgiu à mente e qual a seqüência de pensamentos que ela estava rechaçando naquele momento: um sentimento intenso de ressentimento pela suspeita injusta a que ficou sujeita e que a teria levado a abandonar a casa, ao passo que, na verdade, se via obrigada a permanecer em Viena por causa do tratamento e não havia nenhum outro lugar onde pudesse alojar-se. O movimento dos dedos que a vi fazer enquanto narrava essa cena foi o de afastar algo retorcendo os dedos, da maneira como em sentido literal ou figurado, pomos algo de lado - jogamos fora um pedaço de papel ou rejeitamos uma sugestão.

Ela foi muito firme em sua insistência de que não havia notado esse sintoma antes - de que ele não fora ocasionado pelas cenas inicialmente descritas por ela. Assim, só nos restou supor que o acontecimento da véspera havia, em primeiro lugar, despertado a lembrança de acontecimentos anteriores de temática semelhante, e que a partir daí se formara um símbolo mnêmico que se aplicava a todo o grupo de lembranças. A energia para a conversão fora suprida, de um lado, por um afeto renovado e, de outro, pelo afeto relembrado.

 

Ao considerarmos a questão mais detidamente, devemos reconhecer que um processo dessa natureza é mais a regra do que a exceção na gênese dos sintomas histéricos. Quase invariavelmente, ao investigar os determinantes desses estados, o que tenho encontrado não é uma única causa traumática, mas um grupo de causas semelhantes. (Isso foi bem exemplificado no caso da Sra. Emmy - Caso 2). Em alguns desses exemplos, foi possível comprovar que o sintoma em causa já aparecera por um breve período após o primeiro trauma e depois passara, até ser novamente provocado e estabilizado por um trauma subseqüente. Não existe, contudo, em princípio, nenhuma diferença entre o fato de o sintoma surgir dessa forma temporária após sua primeira causa provocadora e o fato de estar latente desde o começo. Com efeito, na grande maioria dos exemplos, verificamos que um primeiro trauma não deixa nenhum sintoma, ao passo que um trauma posterior da mesma espécie produz um sintoma, só que este último não pode ter surgido sem a cooperação da causa provocadora anterior, nem pode ter esclarecido sem se levarem em conta todas as causas provocadoras.

 

Enunciado em termos da teoria da conversão, esse fato indiscutível da soma dos traumas e da latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de sintomas novos quanto dos que são relembrados. Essa hipótese explica inteiramente a aparente contradição que observamos entre os fatos da doença da Srta. Elisabeth von R. e sua análise. Não resta dúvida de que a existência persistente na consciência de idéias cujo afeto não foi trabalhado pode ser tolerada em alto grau por indivíduos saudáveis. A opinião que acabo de apresentar nada mais faz do que aproximar o comportamento das pessoas histéricas do das pessoas sadias. O que nos interessa aqui é claramente um fator quantitativo - a questão de qual o grau máximo de tensão afetiva dessa natureza que o organismo pode tolerar. Mesmo uma pessoa histérica é capaz de reter certa quantidade de afeto com o qual não se lidou; quando, em virtude da ocorrência de causas provocadoras semelhantes, essa quantidade é aumentada pela soma até um ponto além da tolerância do indivíduo, dá-se o ímpeto para a conversão. Assim, quando dizemos que a formação dos sintomas histéricos pode processar-se com base tanto em afetos relembrados quanto em afetos novos, não estamos fazendo nenhuma afirmação desconhecida, e sim declarando algo que é quase aceito como um postulado.

Acabo de examinar os motivos e o mecanismo desse caso de histeria; resta-me considerar com que precisão o sintoma histérico foi determinado. Por que foi que o sofrimento mental da paciente passou a ser representado por dores nas pernas e não em qualquer outra parte? As circunstâncias indicam que essa dor somática não foi criada pela neurose, mas apenas utilizada, aumentada e mantida por ela. Posso acrescentar imediatamente que encontrei um estado de coisas semelhantes em quase todos os casos de dores histéricas dos quais pude obter alguma compreensão. | ver em [1].| Sempre estivera presente, no início, uma dor autêntica, de base orgânica. Parece que as dores humanas mais comuns e mais difundidas são as escolhidas com mais freqüência para desempenhar um papel na histeria: em particular, as dores periosteais e nevrálgicas que acompanham as doenças dentárias, as dores de cabeça provenientes de muitas fontes diferentes e, não com menos freqüência, as dores musculares reumáticas que tantas vezes deixam de ser reconhecidas | ver em [1]|. Da mesma forma, atribuo uma base orgânica ao primeiro acesso de dor da Srta. Elisabeth von R., que ocorreu muito antes, quando ela ainda cuidava do pai. Não obtive nenhum resultado quando tentei descobrir uma causa psíquica para ela - e estou inclinado, devo confessar, a atribuir um poder de diagnóstico diferencial a meu método de evocar lembranças ocultas, contanto que ele seja utilizado com cuidado. Essa dor, que fora reumática em sua origem, tornou-se então um símbolo mnêmico das excitações psíquicas penosas da paciente, e isso aconteceu, até onde posso ver, por mais de uma razão. A primeira, e sem dúvida a mais importante delas, foi que a dor se achava presente na consciência |de Elisabeth| mais ou menos na mesma época que as excitações. Em segundo lugar, estava ligada, ou poderia estar ligada, por muitos caminhos com as idéias em sua mente na época. De fato, a dor pode realmente ter sido uma conseqüência, embora apenas remota, do período em que ela cuidara dos doentes - da falta de exercício e da alimentação reduzida que seus deveres de enfermeira acarretavam. Mas a moça não tinha nenhum conhecimento nítido disso. Maior importância provavelmente há de ser atribuída ao fato de que ela deve ter sentido a dor naquela ocasião em momentos significativos, por exemplo, quando pulava da cama no frio do inverno em resposta aos chamados do pai | ver em [1]|. Mas o que deve ter tido influência positivamente decisiva sobre o rumo tomado pela conversão foi outra linha de conexão associativa | ver em [1]|: o fato de que, durante vários dias seguidos, uma de suas pernas doloridas entrou em contato com a perna intumescida do pai enquanto as ataduras eram trocadas. A região da perna direita que foi marcada por esse contato ficou sendo, a partir daí, o foco de suas dores e o ponto de onde elas se irradiavam.  Formou uma zona histerogênica artificial cuja origem, no presente caso, pôde ser claramente observada.

Se alguém ficar surpreso com essa conexão associativa entre a dor física e o afeto psíquico, em razão de ela ser de caráter tão múltiplo e artificial, devo responder que esse sentimento é tão pouco justificado quanto a surpresa diante do fato de serem os ricos aqueles que têm mais dinheiro. Na verdade, quando não existem essas conexões tão numerosas, o sintoma histérico não se forma, pois a conversão não encontra nenhuma trilha aberta para ela. E posso afirmar que, quanto a sua determinação, o exemplo da Srta. Elisabeth von R. situou-se entre os mais simples. Já tive que desenredar fios dos mais emaranhados, especialmente no caso da Sra. Caecilie M.

No relato do caso clínico | ver em [1] e segs.| já discuti a maneira pela qual a astasia-abasia da paciente se desenvolveu sobre essas dores, depois de uma trilha específica ter sido aberta para a conversão. Naquele trecho, contudo também externei a opinião de que a paciente criara ou aumentara seu distúrbio funcional por meio da simbolização, que encontrara na astasia-abasia uma expressão somática para sua falta de uma posição independente e sua incapacidade de fazer qualquer alteração em suas circunstâncias de vida, e que expressões como “não ser capaz de dar um único passo à frente” e “não ter nada em que se apoiar” serviram de ponte para esse novo ato de conversão | ver em [1]|.

Tentarei sustentar esse ponto de vista por meio de outros exemplos. A conversão com base na simultaneidade, quando há também uma ligação associativa, parece ser a que menos exige uma predisposição histérica; a conversão por simbolização, por outro lado, parece exigir a presença de um grau mais elevado de modificações histéricas. Isso pôde ser observado no caso da Srta. Elisabeth, mas apenas no último estágio de sua histeria. Os melhores exemplos de simbolização que vi ocorreram na Sra. Caecilie M., cujo caso eu poderia descrever de o mais grave e instrutivo que já tive. Já expliquei | ver em [1]| que um relato pormenorizado de sua doença é infelizmente impossível.

A Sra. Caecilie sofria, entre outras coisas, de uma nevralgia facial extremamente violenta, que surgia subitamente duas ou três vezes por ano, durava de cinco a dez dias, resistia a qualquer espécie de tratamento e cessava abruptamente. Limitava-se à segunda e terceira ramificações do trigêmeo, e visto que uma excreção anormal de uratos estava sem dúvida alguma presente e que um “reumatismo agudo” não muito bem definido desempenhava certo papel na história da paciente, o diagnóstico de nevralgia gotosa era bastante plausível. Esse diagnóstico foi confirmado pelos diferentes médicos chamados a cada acesso. Prescrevia-se o tratamento comum para esses casos: escova elétrica, água alcalina e purgantes; mas a cada vez a nevralgia se mantinha inalterada até que resolvia dar lugar a outro sintoma. Numa época anterior de sua vida - a nevralgia tinha quinze anos de idade -, os dentes da paciente tinham sido responsabilizados pelo problema. Foram condenados à extração e, um belo dia, sob narcose, a sentença foi executada em sete dos criminosos. Essa tarefa não foi tão fácil; os dentes estavam presos com tanta firmeza que as raízes da maioria deles tiveram que ser deixadas no lugar. Essa operação cruel não teve nenhum resultado, nem temporário nem permanente. Naquela época, a nevralgia campeou por meses a fio. Mesmo durante meu tratamento, a cada acesso de nevralgia o dentista era chamado. Em todas essas ocasiões, ele diagnosticou a presença de raízes doentes e começou a trabalhar nelas; mas, em geral, logo foi interrompido, pois a nevralgia cessava de repente, ao mesmo tempo, cessava a necessidade dos serviços do dentista. No intervalo entre as crises, os dentes da paciente não doíam. Certo dia, quando um acesso estava outra vez campeando furiosamente, a paciente fez com que eu lhe aplicasse tratamento hipnótico. Proibi-lhe energicamente que sentisse dores e, a partir desse momento, elas pararam. Comecei então a ter dúvidas quanto à autenticidade da nevralgia.

Cerca de um ano após esse tratamento hipnótico bem-sucedido, a doença da Sra. Caecilie assumiu uma forma nova e surpreendente. Ela subitamente apresentou novos estados patológicos, diferentes dos que haviam caracterizado os últimos anos. Mas, após pensar um pouco, a paciente declarou que tivera todos eles em várias ocasiões durante sua longa doença, que datava de trinta anos antes. Surgiu então uma abundância realmente surpreendente de ataques histéricos a que a paciente pôde atribuir um lugar preciso no passado. Logo foi possível acompanhar também as cadeias de pensamento muitas vezes complexas que determinaram a ordem de ocorrência desses ataques. Elas pareciam uma série de quadros com textos explanatórios. Pitres deve ter pensado em algo semelhante ao apresentar sua descrição do que denominou de “délire ecmnésique”. Era notável observar a maneira como um ataque histérico desse tipo, pertencente ao passado, era reproduzido. Primeiro surgia, enquanto a paciente gozava da melhor saúde, um estado de “ânimo patológico com um colorido específico, que ela sistematicamente interpretava mal e atribuía a algum acontecimento corriqueiro das últimas horas. A seguir, acompanhados por uma crescente turvação da consciência, sobrevinham os sintomas histéricos: alucinações, dores, espasmos e longos discursos declamatórios. Por fim, estes sintomas eram seguidos pela emergência, sob forma alucinatória, de uma experiência passada que tornava possível explicar seu estado de espírito inicial e o que determinara os sintomas de seu atual ataque. Com essa última parte do ataque ela recuperava a lucidez mental. Seus problemas desapareciam como que num passe de mágica e ela voltava a sentir-se bem - até o ataque seguinte, meio dia depois. Em geral, eu era chamado no clímax do ataque, induzia um estado de hipnose, evocava a reprodução da experiência traumática e apressava o final do ataque por meios artificiais. Como assisti a várias centenas desses ciclos com a paciente, obtive as informações mais instrutivas sobre a maneira pela qual os sintomas histéricos são determinados. Na realidade, foi o estudo desse caso notável, juntamente com Breuer, que levou diretamente à publicação de nossa “Comunicação Preliminar” |de 1893, que serve de introdução ao presente volume|.

Nessa fase do trabalho chegamos finalmente à reprodução de sua nevralgia facial, que eu próprio tratara nas ocasiões em que surgiu em ataques atuais. Estava curioso em descobrir se também a nevralgia mostraria ter uma causa psíquica. Quando comecei a evocar a cena traumática, a paciente viu-se de volta a um período de grande irritabilidade mental para com o marido. Descreveu uma conversa que tivera com ele e uma observação dele que ela sentira como um áspero insulto. De repente, levou a mão à face, soltou um grande grito de dor e exclamou: “Foi como uma bofetada no rosto”. Com isso, cessaram tanto a dor como o ataque.

Não há dúvida de que o que acontecera fora uma simbolização. Ela se sentira como se tivesse realmente recebido uma bofetada. Todos perguntarão imediatamente como foi que a sensação de uma “bofetada no rosto” veio a assumir os contornos externos de uma nevralgia do trigêmeo, por que se restringiu às segundas e terceiras ramificações e por que piorava quando a paciente abria a boca e mastigava - embora, diga-se de passagem, não quando ela falava.

No dia seguinte, a nevralgia estava de volta. Mas dessa vez foi dissipada pela narração de outra cena, cujo conteúdo fora, mais uma vez, um suposto insulto. As coisas continuaram assim por nove dias. Parecia que, durante anos, os insultos, principalmente os externados verbalmente, haviam, através da simbolização, provocado novos ataques de sua nevralgia facial.

Mas por fim repercorreu o caminho de volta a seu primeiro acesso de nevralgia, mais de quinze anos antes. Ali não tinha havido simbolização, mas uma conversão através da simultaneidade. Ela vira um quadro doloroso, acompanhado de sentimentos de autocensura, e isso a forçara a rechaçar outro grupo de pensamentos. Assim, tratava-se de um caso de conflito e defesa. A geração da nevralgia naquele momento só podia ser explicada pela suposição de que ela estava sofrendo, na época, de leves dores de dentes ou de dores no rosto, e isso não era improvável, visto que ela estava então nos primeiros meses de sua primeira gravidez.

Assim, a explicação foi que essa nevralgia passara a ser indicativa de uma excitação psíquica específica pelo método usual da conversão, mas que, posteriormente, pôde ser acionada através de reverberações associativas provenientes de sua vida mental ou da conversão simbólica - a rigor, o mesmo comportamento que encontramos na Srta. Elisabeth von R.

Darei um segundo exemplo que demonstra a ação da simbolização em outras condições. Num determinado período, a Sra. Caecilie foi acometida de uma violenta dor no calcanhar direito - uma dor lancinante a cada passo que dava, que tornou impossível andar. A análise levou-nos, com relação a isso, a uma época em que a paciente estivera num sanatório no exterior. Ela passara uma semana de cama e ia ser levada ao refeitório comum pela primeira vez pelo médico residente. A dor sobreveio no momento em que ela lhe tomou o braço para sair da sala com ele; desapareceu durante a reprodução da cena, quando a paciente me disse que, não ocasião, ficara com medo de não “acertar o passo” com aqueles estranhos.

A princípio, isso parece ser um exemplo surpreendente e mesmo cômico da gênese dos sintomas histéricos através da simbolização por meio de uma expressão verbal. Um exame mais detido da situação, no entanto, favorece outra opinião do caso. A paciente vinha sofrendo, na época, de dores generalizadas nos pés, e fora por causa delas que ficara presa ao leito por tanto tempo. Tudo o que se poderia alegar em favor da simbolização era que o medo que dominou a paciente ao dar os primeiros passos escolheu, dentre todas as dores que a afligiam na época, a dor específica que era simbolicamente apropriada, a dor no calcanhar direito, e a transformara numa dor psíquica, imprimindo-lhe uma persistência especial.

Nesses exemplos, o mecanismo da simbolização parece ser relegado a uma importância secundária, como sem dúvida é a regra geral. Mas disponho de exemplos que parecem provar a gênese dos sintomas histéricos apenas através da simbolização. O exemplo que se segue é um dos melhores e se relaciona, mais uma vez, com a Sra. Caecilie. Quando contava quinze anos, ela estava deitada na cama sob o olhar vigilante da avó rigorosa. A moça subitamente deu um grito; sentira uma dor penetrante na testa, entre os olhos, que durou semanas. No decorrer da análise dessa dor, que foi descrita após quase trinta anos, ela me disse que a avó lhe dirigira um olhar tão “penetrante” que fora direto até o cérebro. (Ela sentira medo de que a velha a estivesse olhando com desconfiança.) Ao contar-me isso, irrompeu numa sonora gargalhada e a dor mais uma vez desapareceu. Neste caso, não posso discernir outra coisa senão o mecanismo da simbolização, que tem seu lugar, em certo sentido, a meio caminho entre a auto-sugestão e a conversão.

Minha observação da Sra. Caecilie M. proporcionou-me a oportunidade de fazer uma coletânea sistemática de tais simbolizações. Todo um grupo de sensações físicas que normalmente se considera que são determinadas por causas orgânicas era, no caso dela, de origem psíquica, ou pelo menos possuía um significado psíquico. Uma série específica de suas experiências foi acompanhada por uma sensação de punhalada na região cardíaca (significando “apunhalou-me no coração”). A dor, que ocorre na histeria, em que se cravam pregos na cabeça tinha sem dúvida de ser explicada, no caso dela, como uma dor relacionada com o pensamento. (“Uma coisa me entrou na cabeça.”) As dores dessa espécie eram sempre dissipadas tão logo os problemas em jogo eram esclarecidos. Junto com a sensação de uma “aura” histérica na garganta, quando essa sensação surgia após um insulto, havia a idéia de que “terei de engolir isto”. A paciente apresentava uma quantidade enorme de sensações e idéias que corriam paralelamente umas às outras. Ora a sensação evocava a idéia que a explicava, ora a idéia criava a sensação por meio de simbolização, e não raro tinha-se que deixar em aberto a questão de qual dos dois elementos fora o primário.

 

Não constatei nenhum uso tão extenso da simbolização em qualquer outro paciente. É verdade que a Sra. Caecilie M.era uma mulher de talentos bastante incomuns, principalmente artísticos, e cujo senso muito desenvolvido da forma era revelado em alguns poemas de grande perfeição. Sou de opinião, contudo, que quando um histérico cria uma expressão somática para uma idéia emocionalmente colorida, através da simbolização, isso depende menos do que se poderia imaginar de fatores pessoais ou voluntários. Ao tomar uma expressão verbal ao pé da letra e sentir uma “punhalada no coração” ou uma “bofetada no rosto” após um comentário depreciativo vivido como um fato real, o histérico não está tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensações a que a expressão verbal deve sua justificativa. Como poderíamos referir-nos a alguém que foi menosprezado dizendo que foi “apunhalado no coração”, a menos que o menosprezo tivesse de fato sido acompanhado por uma sensação precordial que poderia ser adequadamente descrita por essa expressão e a menos que fosse identificável por essa sensação? O que poderia ser mais provável do que a idéia de que a figura de linguagem “engolir alguma coisa”, que empregamos ao falar de um insulto ao qual não foi apresentada nenhuma réplica, originou-se na verdade das sensações inervatórias que surgem na faringe quando deixamos de falar e nos impedimos de reagir ao insulto? Todas essas sensações e inervações pertencem ao campo da “Expressão das Emoções”, que, como nos ensinou Darwin |1872|, consiste em ações que originalmente possuíam um significado e serviam a uma finalidade. Em sua maior parte, estas podem ter-se enfraquecido tanto que sua expressão em palavras nos parece ser apenas um quadro figurativo delas, ao passo que, com toda probabilidade, essa descrição um dia foi tomada em seu sentido literal; e a histeria tem razão em restaurar o significado original das palavras ao retratar suas inervações inusitadamente fortes. Com efeito, talvez seja errado dizer que a histeria cria essas sensações através da simbolização. É possível que ela não tome em absoluto o uso da língua como seu modelo, mas que tanto a histeria quanto o uso da língua extraiam seu material de uma fonte comum. [1]

 

 

 

O RELEITOR (MATTANÓ):

Atendi uma jovem de 24 anos que era inteligente e mentalmente normal, se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficar de pé, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminuía as dores.

Freud concordou de que se tratava de um caso de histeria, sobretudo segundo suas reações as dores que identificavam a histeria.

Sua expressão facial não se ajustava à dor evidentemente provocada pela beliscadura dos músculos e da pele, provavelmente se harmonizava mais com o tema dos pensamentos que jaziam ocultos por trás da dor e que eram despertados nela pela estimulação das partes do corpo associadas com esses pensamentos.

O tratamento prosseguiu com massagem e faradização sistemática dos músculos sensíveis, houve sensível melhora.

Quanto ao tratamento catártico, sua natureza dependia se a paciente tinha consciência da origem e da causa precipitante da sua doença.

A investigação começou com a paciente contando o que sabia com Freud anotando a sequência que se tornava obscura e aparecia que o elo da cadeia causal parecia estar faltando, e depois penetrava em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos com uma investigação sob hipnose.

A Srta. Elisabeth relatou sua doença deitada e conservou os olhos fechados, abrindo-os ocasionalmente.

Foi assim que relatou ter tido atração para um contato íntimo com o pai, um homem alegre e experiente; ficou acamada com a doença de seu pai que veio a falecer e se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.

Para Elisabeth foi muito intolerante lidar com o marido de sua irmã, ele demonstrava falta de consideração pela mãe delas que era uma velha senhora.

O casamento da segunda irmã reconciliou Elisabeth com a instituição do matrimônio, pois o seu cunhado era bem educado e tinha consideração pelos outros.

A partir de uma época Elisabeth foi a inválida da família.

Elisabeth foi atormentada não só por sua dores mas também por suas expectativas sombrias.

Elisabeth perdeu sua irmã numa segunda gestação, essa morte trouxe mais sofrimento para sua família. Ela não tinha nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com suas próprias dores. Ela poderia estar usando suas sensações físicas como símbolos mentais.

Elisabeth relatou sob hipnose que teve um primeiro amor que durou algum tempo até a morte de seu pai que fez com que seu namorado mudasse de interesses.

O contraste entre os sentimentos de alegria com o amor e o agravamento do seu pai constitui um conflito, uma situação de incompatibilidade.

Suas dores histéricas vieram quando ela cuidava de seu pai.

Durante um período de ¨ab-reação¨, o estado da paciente, tanto físico quanto mental tiveram uma melhora.

Elisabeth apontou outros cenários que provocavam dores, sempre ligados a sua família. Cada novo tema que exercia uma efeito patogênico catexizara uma nova região das pernas; cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impressão deixara um vestígio provocando uma catexia duradoura e constante acumulada das várias funções das pernas, uma ligação das funções com suas sensações dolorosas.

A morte de sua irmã suscitou em Elisabeth a liberdade para desejar o seu viúvo. A dolorosa convicção de que amava o marido de sua irmã induzia dores físicas em si mesma.

A moça sentia pelo cunhado uma ternura cuja aceitação na consciência deparara com a resistência de todo o seu ser moral, sentindo assim dores físicas em si mesma.

Freud contou-lhe explicitamente o conteúdo de seu inconsciente e ela ficou chorando. Depois verificou que ela era compreensiva e sensível.

Freud considerou que a ab-reação do amor e a solução de suas dificuldades abriram caminho para sua cura que veio a ocorrer, e só depois ela veio a se casar com outra pessoa.

Freud descreveu o caráter da paciente e as características que são encontradas com tanta frequência nas pessoas histéricas: talentos variados, ambição, sensibilidade moral, excessiva exigência de amor, atendida pela família, independência de sua natureza, ideal feminino, obstinação, combatividade e reserva.

Há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenha um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria.

Também deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de os traumas acumulados durante a prestação de cuidados a um enfermo serem enfrentados mais tarde, sem que haja impressão geral da doença, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria.

A Srta. Elisabeth provavelmente recalcou uma ideia erótica fora da consciência e transformou a carga de seu afeto em sensações de dor.

Foi um círculo de representações de natureza erótica que entrou em conflito com todas as suas representações morais. A análise proporcionou informações sobre esse conflito, que foi o ponto central da história da doença.

A paciente desenvolveu dores histéricas e ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência, estes dois fatos dividiram sua consciência; o motivo foi a defesa – a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo foi o de conversão e em lugar das dores mentais surgiram as dores psíquicas; a divisão da consciência efetuou uma doença física.

A soma dos traumas e a latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de sintomas novos quanto dos que são relembrados.

Ao tomar uma expressão verbal ao pé da letra e sentir uma ¨punhalada no coração¨ ou uma ¨bofetada no rosto¨ após um comentário depreciativo vivido com um fato real, o histérico não está tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensações a que a expressão verbal deve sua justificativa.

A histeria restaura o significado original das palavras.

Talvez a Psicanálise atualmente se encontre ameaçada pela desconstrução e desestruturação, em função das novas descobertas científicas e das novas descobertas psicológicas, em função do que ela não abrange como o comportamento e suas leis, a gestalt, a escolarização e a Escola, a auto-atualização, a auto-realização, o processo de individuação, a adaptação, a aprendizagem, a fenomenologia, o trabalho, as instituições, a psicohigiene, os ritos e discursos, o estilo de vida, a psicomotricidade, a cognição, etc., assim a Psicanálise merece uma reelaboração ou releitura que insira estes conceitos à sua teoria e prática com metodologia, ensino e pesquisa, caso contrário a Psicanálise continuará a margem da humanidade, contornando-a apenas, não decifrando seu centro, seu núcleo e suas raízes.

   A travessia: se consumir. A vida do herói possui limites e um dia encontrará o

guardião dos limites que aumentará sua força para ir além dos horizontes já explorados com passos na direção do não conhecido, para um oceano sem limites. O não conhecido era seu inconsciente, seu desejo pelo marido de sua irmã.

As regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, cavernas subterrâneas, inferno, etc.). O lugar para a projeção do inconsciente era a sessão com Freud. A energia sexual incestuosa e  a destruição do pai, sereias de beleza nostálgica e sedutora, ogros, mulheres selvagens da floresta. O guardião do limiar ou dos limites é um aspecto que se movimenta como proteção, porém somente com a passagem desse limiar que o sujeito passa durante a vida ou a morte para um novo movimento de experiência. Elisabeth experimenta este momento com a solução de suas dificuldades. A aventura está em todos os ambientes, ela é um movimento pelo véu que separa o conhecido do desconhecido, e as forças que guardam os limites são perigosas e lidar com elas envolvem riscos, porém aqueles que têm talento, competência e coragem verão o perigo se dissipar como a água no mar. Esta aventura pode acontecer em qualquer situação ou lugar, como no caso de Elisabeth, segundo as leis de seu contexto.

 

 

MATTANÓ

(18/04/2018)

 

 

Para a Psicanálise da Leitura temos um exemplo onde Freud atendeu uma jovem de 24 anos que era inteligente e mentalmente normal, se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficar de pé, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminuía as dores.

Freud concordou de que se tratava de um caso de histeria, sobretudo segundo suas reações as dores que identificavam a histeria.

Sua expressão facial não se ajustava à dor evidentemente provocada pela beliscadura dos músculos e da pele, provavelmente se harmonizava mais com o tema dos pensamentos que jaziam ocultos por trás da dor e que eram despertados nela pela estimulação das partes do corpo associadas com esses pensamentos.

O tratamento prosseguiu com massagem e faradização sistemática dos músculos sensíveis, houve sensível melhora.

Quanto ao tratamento catártico, sua natureza dependia se a paciente tinha consciência da origem e da causa precipitante da sua doença.

A investigação começou com a paciente contando o que sabia com Freud anotando a sequência que se tornava obscura e aparecia que o elo da cadeia causal parecia estar faltando, e depois penetrava em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos com uma investigação sob hipnose.

A Srta. Elisabeth relatou sua doença deitada e conservou os olhos fechados, abrindo-os ocasionalmente.

Foi assim que relatou ter tido atração para um contato íntimo com o pai, um homem alegre e experiente; ficou acamada com a doença de seu pai que veio a falecer e se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.

Para Elisabeth foi muito intolerante lidar com o marido de sua irmã, ele demonstrava falta de consideração pela mãe delas que era uma velha senhora.

O casamento da segunda irmã reconciliou Elisabeth com a instituição do matrimônio, pois o seu cunhado era bem educado e tinha consideração pelos outros.

A partir de uma época Elisabeth foi a inválida da família.

Elisabeth foi atormentada não só por sua dores mas também por suas expectativas sombrias.

Elisabeth perdeu sua irmã numa segunda gestação, essa morte trouxe mais sofrimento para sua família. Ela não tinha nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com suas próprias dores. Ela poderia estar usando suas sensações físicas como símbolos mentais.

Elisabeth relatou sob hipnose que teve um primeiro amor que durou algum tempo até a morte de seu pai que fez com que seu namorado mudasse de interesses.

O contraste entre os sentimentos de alegria com o amor e o agravamento do seu pai constitui um conflito, uma situação de incompatibilidade.

Suas dores histéricas vieram quando ela cuidava de seu pai.

Durante um período de ¨ab-reação¨, o estado da paciente, tanto físico quanto mental tiveram uma melhora.

Elisabeth apontou outros cenários que provocavam dores, sempre ligados a sua família. Cada novo tema que exercia uma efeito patogênico catexizara uma nova região das pernas; cada uma das cenas que lhe haviam causado uma forte impressão deixara um vestígio provocando uma catexia duradoura e constante acumulada das várias funções das pernas, uma ligação das funções com suas sensações dolorosas.

A morte de sua irmã suscitou em Elisabeth a liberdade para desejar o seu viúvo. A dolorosa convicção de que amava o marido de sua irmã induzia dores físicas em si mesma.

A moça sentia pelo cunhado uma ternura cuja aceitação na consciência deparara com a resistência de todo o seu ser moral, sentindo assim dores físicas em si mesma.

Freud contou-lhe explicitamente o conteúdo de seu inconsciente e ela ficou chorando. Depois verificou que ela era compreensiva e sensível.

Freud considerou que a ab-reação do amor e a solução de suas dificuldades abriram caminho para sua cura que veio a ocorrer, e só depois ela veio a se casar com outra pessoa.

Freud descreveu o caráter da paciente e as características que são encontradas com tanta frequência nas pessoas histéricas: talentos variados, ambição, sensibilidade moral, excessiva exigência de amor, atendida pela família, independência de sua natureza, ideal feminino, obstinação, combatividade e reserva.

Há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenha um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria.

Também deparamos ocasionalmente com esse mesmo fato de os traumas acumulados durante a prestação de cuidados a um enfermo serem enfrentados mais tarde, sem que haja impressão geral da doença, mas retendo-se ainda assim o mecanismo da histeria.

A Srta. Elisabeth provavelmente recalcou uma ideia erótica fora da consciência e transformou a carga de seu afeto em sensações de dor.

Foi um círculo de representações de natureza erótica que entrou em conflito com todas as suas representações morais. A análise proporcionou informações sobre esse conflito, que foi o ponto central da história da doença.

A paciente desenvolveu dores histéricas e ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência, estes dois fatos dividiram sua consciência; o motivo foi a defesa – a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo foi o de conversão e em lugar das dores mentais surgiram as dores psíquicas; a divisão da consciência efetuou uma doença física.

A soma dos traumas e a latência preliminar dos sintomas nos ensina que a conversão pode resultar tanto de sintomas novos quanto dos que são relembrados.

Ao tomar uma expressão verbal ao pé da letra e sentir uma ¨punhalada no coração¨ ou uma ¨bofetada no rosto¨ após um comentário depreciativo vivido com um fato real, o histérico não está tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensações a que a expressão verbal deve sua justificativa.

A histeria restaura o significado original das palavras.

Talvez a Psicanálise atualmente se encontre ameaçada pela desconstrução e desestruturação, em função das novas descobertas científicas e das novas descobertas psicológicas, em função do que ela não abrange como o comportamento e suas leis, a gestalt, a escolarização e a Escola, a auto-atualização, a auto-realização, o processo de individuação, a adaptação, a aprendizagem, a fenomenologia, o trabalho, as instituições, a psicohigiene, os ritos e discursos, o estilo de vida, a psicomotricidade, a cognição, etc., assim a Psicanálise merece uma reelaboração ou releitura que insira estes conceitos à sua teoria e prática com metodologia, ensino e pesquisa, caso contrário a Psicanálise continuará a margem da humanidade, contornando-a apenas, não decifrando seu centro, seu núcleo e suas raízes.

A travessia: se consumir. A vida do herói possui limites e um dia encontrará o guardião dos limites que aumentará sua força para ir além dos horizontes já explorados com passos na direção do não conhecido, para um oceano sem limites. O não conhecido era seu inconsciente, seu desejo pelo marido de sua irmã.

As regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, cavernas subterrâneas, inferno, etc.). O lugar para a projeção do inconsciente era a sessão com Freud. A energia sexual incestuosa e a destruição do pai, sereias de beleza nostálgica e sedutora, ogros, mulheres selvagens da floresta. O guardião do limiar ou dos limites é um aspecto que se movimento como proteção, porém somente com a passagem desse limiar que o sujeito passa durante a vida ou a morte para um novo movimento de experiência. Elisabeth experimenta este momento com a solução de suas dificuldades. A aventura está em todos os ambientes, ela é um movimento pelo véu que separa o conhecido do desconhecido, e as forças que guardam os limites são perigosas e lidar com elas envolvem riscos, porém aqueles que têm talento, competência e coragem verão o perigo se dissipar como a água no mar. Esta aventura pode acontecer em qualquer situação ou lugar, como no caso de Elisabeth, segundo as leis de seu contexto.

Da mesma forma Freud atendeu uma jovem de 24 anos que era inteligente e mentalmente normal, se queixava de grande dor ao andar e de se cansar rapidamente ao andar e ao ficar de pé, e que depois de curto intervalo tinha de descansar, o que diminuía as dores.

Freud concordou de que se tratava de um caso de histeria, sobretudo segundo suas reações as dores que identificavam a histeria.

A investigação começou com a paciente contando o que sabia com Freud anotando a sequência que se tornava obscura e aparecia que o elo da cadeia causal parecia estar faltando, e depois penetrava em camadas mais profundas de suas lembranças nesses pontos com uma investigação sob hipnose.

A Srta. Elisabeth relatou sua doença deitada e conservou os olhos fechados, abrindo-os ocasionalmente.

Foi assim que relatou ter tido atração para um contato íntimo com o pai, um homem alegre e experiente; ficou acamada com a doença de seu pai que veio a falecer e se sentiu doente e ficou impossibilitada de andar por causa das dores.

O casamento da segunda irmã reconciliou Elisabeth com a instituição do matrimônio, pois o seu cunhado era bem educado e tinha consideração pelos outros.

A partir de uma época Elisabeth foi a inválida da família.

Elisabeth foi atormentada não só por sua dores mas também por suas expectativas sombrias.

Elisabeth perdeu sua irmã numa segunda gestação, essa morte trouxe mais sofrimento para sua família. Ela não tinha nada a ocupá-la senão os cuidados com a mãe e com suas próprias dores. Ela poderia estar usando suas sensações físicas como símbolos mentais.

Elisabeth relatou sob hipnose que teve um primeiro amor que durou algum tempo até a morte de seu pai que fez com que seu namorado mudasse de interesses.

Suas dores histéricas vieram quando ela cuidava de seu pai.

Há bons motivos para que o fato de cuidar de pessoas doentes desempenha um papel tão significativo na pré-história dos casos de histeria.

A paciente desenvolveu dores histéricas e ofereceu forte resistência à tentativa de se promover uma associação entre o grupo psíquico isolado e o resto do conteúdo de sua consciência, estes dois fatos dividiram sua consciência; o motivo foi a defesa – a recusa, por parte de todo o ego da paciente, a chegar a um acordo com esse grupo representativo. O mecanismo foi o de conversão e em lugar das dores mentais surgiram as dores psíquicas; a divisão da consciência efetuou uma doença física.

Ao tomar uma expressão verbal ao pé da letra e sentir uma ¨punhalada no coração¨ ou uma ¨bofetada no rosto¨ após um comentário depreciativo vivido com um fato real, o histérico não está tomando liberdades com as palavras, mas simplesmente revivendo mais uma vez as sensações a que a expressão verbal deve sua justificativa.

A histeria restaura o significado original das palavras.

Assim a paciente pode encarar a travessia: e se consumir. A vida do herói possui limites e um dia encontrará o guardião dos limites que aumentará sua força para ir além dos horizontes já explorados com passos na direção do não conhecido, para um oceano sem limites. O não conhecido era seu inconsciente, seu desejo pelo marido de sua irmã. Vemos aqui o papel desencadeante do inconsciente quando ele determina o objeto de desejo escolhido pela paciente em sua travessia.

As regiões do desconhecido são lugares para projeção do inconsciente (deserto, selva, fundo do mar, terra estranha, cavernas subterrâneas, inferno, etc.). O lugar para a projeção do inconsciente era a sessão com Freud. A energia sexual incestuosa e a destruição do pai, sereias de beleza nostálgica e sedutora, ogros, mulheres selvagens da floresta. O guardião do limiar ou dos limites é um aspecto que se movimenta como proteção, porém somente com a passagem desse limiar que o sujeito passa durante a vida ou a morte para um novo movimento de experiência. Elisabeth experimenta este momento com a solução de suas dificuldades. A aventura está em todos os ambientes, ela é um movimento pelo véu que separa o conhecido do desconhecido, e as forças que guardam os limites são perigosas e lidar com elas envolvem riscos, porém aqueles que têm talento, competência e coragem verão o perigo se dissipar como a água no mar. Esta aventura pode acontecer em qualquer situação ou lugar, como no caso de Elisabeth, segundo as leis de seu contexto. Assim como com o mundo e a realidade virtuais do Livro Sagrado do Alcorão e da sua metáfora Profética que produz significados e sentidos que substituem a realidade operante pela virtual, do Alcorão, que se mostra adequada às exigências do meio ambiente, inclusive às exigências do inconsciente e da consciência, da cultura, do conhecimento e da realidade, pois ajudam a paciente a realizar a sua travessia e a se separar do desconhecido, enquanto encara sua consumação.

 

MATTANÓ

(12/07/2026)